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Capítulo 233: Ponto Zero

A caixa não estava no inventário.

Elias achou ela numa manhã em que estava reorganizando as pilhas para abrir corredor entre as prensas — atrás da quarta fileira, encostada na parede, coberta pela lona que a gente usou para cobrir o Duarte. Metal, com reforço nos cantos, do mesmo tipo da caixa do Estudo Longitudinal.

Etiqueta datilografada, colada e recolada:

ARCA N.O.A. — TRANSMISSÕES RECEBIDASACESSO: DIRETORIA

Ele a colocou na mesa e chamou a doutora, porque a essa altura já tinha aprendido que caixa de canto reforçado se abre com ela por perto.


A caixa exalou quando abriu. Ar frio e velho, com cheiro de óleo mineral e sal cristalizado — o mesmo cheiro que subiu do berço dela na galeria. Cheiro de coisa lacrada por gente que esperava não estar viva quando alguém abrisse. Elias virou a cara.

Dentro havia rolos de fita e um livro de capa dura, do tipo que operador de rádio usa para registro de turno. Não era o diário de Arthur Vance. Era a transcrição — tudo que a Arca N.O.A. transmitiu para a superfície, capturado pela estação da Aeterna e datilografado por um funcionário que fazia isso oito horas por dia sem saber para quê.

A Dra. Elara Vance puxou o livro com as duas mãos. A capa era de couro duro e gelada, e continuou gelada mesmo depois de minutos no colo dela.

Abriu ali mesmo, na cadeira de aço no meio do galpão, com as prensas batendo ao fundo.

E ficou lendo.

Levou quarenta minutos. A Elena mandou parar uma das prensas, depois as outras duas, e o galpão inteiro ficou em silêncio pela primeira vez em cinco dias.

Quando terminou, fechou o livro e deixou as mãos em cima dele.

— A última transmissão é do dia noventa e seis — ela disse. — Depois disso não tem mais nada, porque não sobrou de onde transmitir.


Ninguém sabia o que dizer, então eu disse a única coisa que sabia perguntar.

— A senhora quer contar?

— Eu quero que fique registrado. — Ela levantou o queixo. — Traga a jornalista.

Elena puxou o caderno e sentou no cascalho ao lado da cadeira.

E a Dra. Elara Vance leu a última voz do próprio pai em voz alta para nós quatro.


Nos primeiros dias, é um homem eficiente. Inventário de sistemas, diagnóstico de casco, ativação da Fase 2. Frases curtas, verbo no infinitivo. Liberar unidades. Estabelecer perímetro. Aguardar consolidação.

No dia quatro, a primeira linha que não é ordem:

"Oito. Contava com mais."

No dia onze as unidades alcançam a Orla Norte, e ele registra a chegada com uma satisfação que atravessa sessenta anos de papel: "Perímetro estabelecido. A cidade responderá em 72h."

A cidade não respondeu em setenta e duas horas.

No dia dezenove, duas unidades param de reportar. No vinte e três, mais uma. Ele anota cada perda com número de série e hipótese técnica — falha de junta de quadril, perda de pressurização, causa não determinada — e nunca, em nenhuma linha, escreve a palavra "ferrugem".

— Ele não podia — disse a doutora, sem levantar os olhos. — Ferrugem significa tempo. E tempo significa que ele dormiu demais.

Eu me lembrei da praia. Da manhã em que aquela coisa de quarenta metros subiu o aterro da Orla Norte mancando, com a perna direita tremendo e o hidráulico vazando um filete escuro que formou poça antes de ela parar de andar. Na época eu achei que era dano de combate.

Não era. Ninguém tinha atirado nela ainda. Era uma máquina velha chegando ao fim de uma caminhada de duzentos quilômetros que ela não tinha mais como fazer, e eu vi aquilo de perto e não entendi o que estava vendo.

O gosto de ferro voltou à minha boca só de lembrar.


A parte insuportável começa no segundo mês.

Porque ele continua.

Continua emitindo ordem de manobra para unidades que não reportavam havia semanas. Continua fazendo chamada nominal — L-04, reporte; L-04, reporte — três vezes por dia, todos os dias, com a mesma letra firme. Continua planejando a Fase 3, que era a administração da cidade pacificada, com organograma, distritos e turnos.

Ele transmitiu o organograma inteiro. Está no livro, na página cento e quarenta e um. Uma caixa no topo escrita COMANDO e treze embaixo, e em três delas nomes de gente morta havia mais de trinta anos.

— Ele estava transmitindo para uma estação vazia — disse Valéria. Tinha se aproximado sem ninguém perceber. — A Torre caiu antes de ele acordar. O que recebia essas transmissões era um servidor de arquivo, sem operador. Ninguém leu nenhuma delas até hoje.

— Ele nunca soube — falei.

— Ele nunca soube de nada. — A doutora apoiou os dedos na capa. — Não soube que a Torre caiu por causa de dois moleques com um disruptor feito de micro-ondas. Não soube da Praga de Ferro, do Jardim, do Sentinel. Não soube que a empresa dele tinha virado uma máquina de moer mente, e que quem a virou não foi ele.

Ela olhou para mim.

— Meu pai passou os últimos três meses de vida achando que estava conquistando Baía Cinzenta. E Baía Cinzenta já tinha sido comprada, moída e revendida por um rapaz que ele contratou para digitalizar contrato de cemitério e cujo nome ele provavelmente nunca aprendeu.


— Por que ele não subiu? — perguntou Elias, baixinho. — Não tinha um submersível? Alguma coisa?

— Tinha. — Ela abriu numa página marcada com o dedo. — Cápsula de ascensão, dois lugares, manutenção independente. Consta no inventário do dia um: "Operacional. 100%."

— Então ele podia sair a qualquer momento.

— A qualquer momento, durante noventa e seis dias.

O galpão ficou muito quieto.

— Ele não subiu porque não ia subir como refugiado. Está transmitido, no dia trinta e um, com essas palavras: "Ascender antes da consolidação seria chegar como sobrevivente. Eu não passei sessenta anos aqui embaixo para chegar como sobrevivente."

Ela fechou o livro.

— O meu pai teve uma porta aberta ao lado dele por três meses e não usou porque a entrada não seria suficientemente boa.


— Doutora — falei, e a minha voz já estava errada, porque eu tinha feito a conta no meio da leitura e estava esperando o fim para ter certeza. — Que dia foi a última transmissão?

— Dia noventa e seis.

— Que data.

Ela me olhou. E entendeu antes de responder, do jeito que ela entende tudo, meio segundo antes de todo mundo.

— O senhor sabe que data foi.

Eu sabia.

Foi uma quarta-feira. Eu estava num poço de ventilação no subsolo do Distrito Industrial, com a Val digitando ao meu lado e três plataformas orbitais em janela de lançamento, e um alvo padrão marcado no centro geométrico de Baía Cinzenta que ninguém precisava confirmar porque o default já estava lá.

E eu escolhi um retângulo de água preta a leste.

A Val me avisou que o backup do imprint do meu pai estava lá embaixo, e eu disse que meu pai estava na cidade e que o que tinha no fundo do mar era um arquivo corporativo com a cara dele, e ela sorriu daquele jeito feio e cansado e digitou as coordenadas, e eu falei fogo.

Quatro minutos e onze segundos. O céu ficou branco três vezes. O chão bateu de leste.

Nove toneladas de tungstênio a doze mil quilômetros por hora, três vezes, num ponto do oceano onde eu sabia que tinha um cofre.

Eu não sabia que tinha um homem.


Ninguém falou nada por um tempo muito longo.

Foi a Elena que quebrou, e ela quebrou olhando para o caderno dela em vez de para nós dois.

— Vocês querem que eu tire essa parte?

— Não — disse a doutora.

— Doutora—

Não. — Ela virou a cadeira de aço com as mãos, encarando a Elena de frente. — Eu passei sessenta e um anos protegendo um arquivo justamente para que ele saísse inteiro. Não vou começar a editar agora que a linha ruim é minha.

Depois virou para mim.

E eu esperei. Eu não sei o que eu esperava — que ela gritasse, acho. Que me chamasse de assassino, que fosse justo, que fizesse sentido.

Ela disse:

— O senhor tinha três hastes e duas opções, inspetor. Uma delas era o centro geométrico da cidade.

— Doutora, eu—

Quantas pessoas moravam naquele retângulo?

Eu abri a boca e não saiu nada.

— Nenhuma — ela mesma respondeu. — E no centro geométrico de Baía Cinzenta moravam cerca de quarenta mil, considerando os abrigos. O senhor trocou quarenta mil por uma. — Ela apoiou as mãos no livro outra vez. — Foi a decisão correta e continuaria sendo correta se o senhor soubesse quem estava lá dentro. Eu me recuso a fingir o contrário só porque a uma era meu pai.

— Isso não é... — engoli. — A senhora não precisa fazer isso.

— Eu não estou fazendo nada pelo senhor. — E aí a voz dela finalmente vacilou, uma vez, no meio. — Eu estou fazendo a conta. É o que eu sei fazer. É o que eu faço em vez de sentir, e é tarde demais para eu aprender outra coisa.


A última página tem duas linhas.

"Dia 96. Chamada: nenhuma resposta."

E, depois, sem hora, a única frase do livro que não é relatório:

"Elara, se você estiver ouvindo isto: a culpa não foi sua. Eu te deixei sozinha com aquilo."

A doutora leu essa parte em voz alta com absoluta firmeza. Depois ficou olhando para a página.

— Isso é falso — ela disse.

— Doutora—

É falso, inspetor. — Os olhos azul-gelo estavam secos, e era pior assim. — Ele não me deixou sozinha. Ele me deixou com autoridade. Com acesso, com o arquivo inteiro e com uma chave de estase. Eu tinha tudo que era necessário para encerrar aquele programa. Eu li o protocolo, entendi o protocolo, escrevi que era indefensável, e recomendei que fizessem em escala.

Bateu duas vezes na capa, devagar.

— Ele passa noventa e seis dias ordenando manobra para máquina afundada e, no último, encontra tempo para me isentar de uma coisa da qual eu não quero ser isentada. É a única mentira do livro. Meu pai foi honesto cento e quarenta páginas e mentiu na última.

Elena tinha parado de escrever.

— A senhora não quer que eu publique.

— Publique. Inteiro, incluindo essa parte. — Ela ergueu o queixo. — E acrescente, com o meu nome embaixo: a filha recusa a absolvição.


Fiquei no galpão depois que os outros voltaram ao trabalho.

Sentei no cascalho perto dela, porque o joelho já não me deixa fazer outra coisa.

— Não sobrou corpo — falei. Não era pergunta.

— Não sobrou nem casco, inspetor. Nove toneladas a doze mil quilômetros por hora não deixam o que enterrar. — Ela olhou para a porta aberta do galpão, para a luz. — Meu pai virou parte da coluna d'água. Está diluído em algum lugar entre aqui e Ponto Zero.

— Sinto muito.

— Eu também. — Do jeito que se confere um número. — Não pelo homem. Pelo desperdício.

Ficamos ali.

E aí ela falou mais uma coisa, e foi a única vez em que a voz dela saiu com alguma coisa dentro.

— Nós dois estivemos debaixo d'água ao mesmo tempo, sabia? Eu na Arca Zero, ele em Ponto Zero. Cento e vinte quilômetros de distância. Ele acordado, esperando uma cidade que não vinha. Eu acordada dentro do vidro, esperando duas pessoas que conseguissem concordar em girar uma chave.

Ela apertou a capa do livro.

— Ele esperou noventa e seis dias e não veio ninguém. Eu esperei anos e vieram vocês.


À tarde, a Elena rodou o caderno especial.

Dezesseis páginas, doze mil cópias, capa preta. No alto, uma linha só:

ARCA N.O.A. — AS ÚLTIMAS TRANSMISSÕES DE ARTHUR VANCE, FUNDADOR DA AETERNA S.A.

E, no rodapé da última página, em corpo miúdo, exatamente como ela pediu:

Nota da Dra. Elara Vance, filha do autor: a filha recusa a absolvição.