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Capítulo 35: Calibre 12
Eles não andaram mais de dois quilômetros. A explosão, como esperado, atraiu atenção indesejada.
Ao entrarem na Avenida da Indústria, uma barreira de carros velhos e lixo bloqueava a passagem. Antes que Elena pudesse sequer pensar em dar meia-volta, coquetéis molotov voaram das janelas dos prédios ao redor, explodindo no asfalto à frente e atrás do Cobalt.
— Emboscada! — gritou Elena.
Pneus estouraram com o som seco de tiros de rifle. O carro derrapou e parou, um alvo fácil.
— Saiam! Agora! — ordenou Gabo, a dor em sua perna agora um fogo líquido.
Eles rolaram para fora do carro, usando a lataria como um escudo precário. Balas pipocavam no metal, arrancando faíscas. Estavam cercados por pelo menos dez atiradores do Sindicato.
— Eles querem o carro! — gritou Val, encolhida no chão. — É o único veículo funcionando na região!
— Vão ter que tirar da minha mão fria e morta — rosnou Gabo.
Ele se arrastou até o porta-malas ainda aberto. O lançador improvisado estava inútil. Mas ao lado dele, sua velha amiga descansava: "Caronte". Uma escopeta calibre 12, cano serrado, carregada com balotes de chumbo.
Gabo pegou a arma e encheu os bolsos do sobretudo com cartuchos extras.
— Elena, cubra a esquerda! — gritou ele.
Ignorando a dor, Gabo se levantou. Um bandido correu em direção a eles, um facão brilhando sob a luz das chamas.
BAM!
O tiro da 12 pegou o homem no peito, uma força invisível que o jogou três metros para trás.
Gabo avançou. Ele não corria, ele marchava. Mancando, sim, mas implacável. Uma figura saída de um pesadelo.
Outro bandido apareceu atrás de uma caçamba de lixo.
BAM!
A caçamba de metal virou peneira. O bandido caiu gritando.
— É o Moretti! — gritou alguém na escuridão, a voz embargada de pânico. — É o Demônio da Baía!
O medo na voz deles era palpável, mais eficaz que qualquer bala. Gabo recarregou a arma com um movimento rápido e brutal, ejetando os cartuchos vazios que caíam no asfalto molhado.
— Apareçam! — desafiou Gabo, a voz um trovão. — Eu tenho chumbo para todos vocês!
Um terceiro tentou flanquear pela direita. Elena, fria e precisa, o derrubou com dois tiros de pistola no peito.
O resto do bando, percebendo que o carro não valia a vida, bateu em retirada. O som de suas botas correndo ecoou e depois sumiu na escuridão.
Gabo baixou a escopeta. O cano estava quente, e a chuva chiava ao tocar no metal.
— Você está bem? — perguntou Elena, recarregando sua arma.
— O pneu furou — reclamou Gabo, olhando para o pobre Cobalt. — Vou ter que trocar.
— Gabo, acabamos de... — começou Val, a voz trêmula.
— Eles não eram pessoas, Val — cortou Gabo, pegando o macaco no porta-malas. — Eram obstáculos.
Ele cuspiu no chão, uma mistura de sangue e saliva.
— Me ajuda com a roda. Precisamos sair daqui. Conheço um lugar. O bunker da Nise. Se há um lugar seguro e com suprimentos médicos nesta cidade, é lá.
— Para quem? — perguntou Elena, encaixando o macaco.
— Para a única pessoa que pode remendar meu joelho sem fazer perguntas — disse Gabo, olhando para o norte. — A Dra. Nise. Espero que o hospital dela ainda esteja de pé.
