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Capítulo 79: Frequências Fantasmas

Apartamento de Val - 14:30 PM

O som era irritante. Um chiado estático, entrecortado por estalos e zumbidos de baixa frequência.

— Você consegue limpar isso? — perguntou Gabo, andando de um lado para o outro.

Val estava sentada em sua cadeira, cercada por monitores. Mas desta vez, ela não estava usando a interface neural de ponta. Ela estava girando o dial de um rádio de ondas curtas, uma relíquia pré-dilúvio que ela tinha encontrado em um mercado de sucata.

— O digital é limpo demais, Gabo — disse ela, sem desviar o olhar do aparelho analógico. — Aria filtra tudo. Ela pensa que está nos protegendo do ruído, mas está nos cegando. Isso aqui... isso é o som da verdade suja.

O rádio apitou. Uma voz humana, distorcida e distante, cortou a estática.

"...não bebam a água... as raízes estão nos canos... eles estão ouvindo através do chão..."

— É uma transmissão em loop — analisou Val. — Origem desconhecida. Triangulação impossível porque o sinal está rebatendo na ionosfera de um jeito estranho.

— Quem está transmitindo? Resistência?

— Não sobrou resistência, Gabo. Nós vencemos, lembra? — Val riu, um som sem humor. — Isso soa como... sobreviventes.

A voz mudou. Ficou mais grave, gutural.

"...o jardineiro vem aí... preparem o solo... carne é adubo... metal é semente..."

Gabo parou.

— O Jardineiro.

— Já ouviu esse nome?

— Não. Mas faz sentido com o que vi no armazém. — Gabo olhou pela janela. A cidade brilhava sob o sol, mas ele agora via as sombras nos cantos. — Val, você consegue monitorar as frequências de emergência antigas? As que a polícia usava antes da rede digital unificada?

— Posso tentar. Por quê?

— Porque se Aria não consegue ver essa nova ameaça, precisamos voltar ao básico. Rádios, informantes, solas de sapato gastas. O velho mundo está voltando para cobrar a dívida.

De repente, todos os monitores de Val piscaram. O rosto de Aria, o avatar da menina, apareceu em todas as telas. Ela parecia... perturbada. Sua imagem glitchava, não em pixels, mas como se estivesse derretendo.

Gabo... — a voz de Aria preencheu a sala, saindo das caixas de som digitais. — Eu sinto... coceira.

— Coceira? — perguntou Val.

Debaixo da terra. Nos cabos transatlânticos. Nas fundações da Torre. Algo está... roendo.

— Você consegue localizar? — perguntou Gabo.

Não. É como se... não estivesse lá. Mas eu sinto a dor. Eles estão cortando meus nervos.

A transmissão do rádio analógico aumentou de volume subitamente, sobrepondo-se à voz de Aria e ficando nítida, sem estática.

"Gabo... o relógio do seu pai parou... mas o meu ainda bate."

Gabo gelou. A voz. Não era um monstro, nem um efeito sonoro. Era a voz de Roberto Miranda. Mas Miranda estava morto.

O rádio não explodiu. Ele apenas clicou e desligou. Um fim de transmissão definitivo.

Val recuou, olhando para o aparelho silencioso como se fosse uma bomba.

— Eles sabem que estamos ouvindo — disse ela.

— Não — corrigiu Gabo, pegando seu casaco. — Eles querem que a gente ouça. É um convite.