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Capítulo 17: O Ultimato
A Torre de Transmissão de Emergência não tocava o céu — ela o perfurava. Uma agulha de titânio cravada na camada de nuvens tóxicas, o único lugar em Baía Cinzenta onde a chuva desistia de cair.
Gabriel Moretti subiu os degraus da entrada principal. Mãos para o alto. Corpo desarmado.
Mentira. Gabo nunca estava desarmado. Mas eles não precisavam saber disso ainda.
Drones de câmera zumbiam ao seu redor como moscas varejeiras em cadáver fresco. Milhões de olhos assistindo. O circo digital que o Gamemaster prometera. E Gabo era o palhaço sangrento que todos queriam ver morrer.
— EU ME ENTREGO! — ele gritou para as lentes famintas. — O jogo acabou. Eu perdi. Venham me buscar.
As palavras tinham gosto de veneno na boca. Mas eram necessárias. Iscas sempre eram.
As portas maciças da Torre se abriram. Não havia guardas. Apenas luz — branca, clínica, sem sombra. O tipo de luz que revelar tudo e perdoa nada.
Gabo entrou.
O saguão era um pesadelo corporativo vestido de estúdio de TV. Plateia virtual — hologramas de cidadãos pagantes com rostos pixelados — ocupava arquibancadas flutuantes. Eles aplaudiam. Não por vontade. Por programação. Palmas sincronizadas que soavam como ossos quebrando em ritmo.
— Bem-vindo, Herói. — A voz do Gamemaster vinha de todos os lugares e de lugar nenhum, como se o próprio ar estivesse falando. — Você está atrasado para seu próprio funeral.
No centro do palco, um trono. Polímero negro moldado em formas que doíam de olhar — ângulos que não deveriam existir geometricamente. E sentado nele, uma figura mascarada.
A máscara era uma tela curva. Estática branca e cinza dançava na superfície, ocasionalmente formando fragmentos de rostos. Gabo reconheceu alguns. Seu pai. Elena. O menino morto do Capítulo 1. Todos piscando como velas na tormenta.
Gabo não deixou o medo chegar ao rosto. Manteve a máscara de cansaço e cinismo que usava há quinze anos.
— Vamos pular o monólogo de vilão de terceira. — Sua voz ecoou no estúdio vazio. — Eu vim fazer um acordo.
A figura riu. O som foi processado, distorcido, multiplicado. Risadas saindo de mil bocas ao mesmo tempo.
— Acordos são para quem tem algo a oferecer. — A máscara piscou, mostrando agora o rosto de Gabo — mais jovem, sorrindo, sem cicatrizes. — E você, Gabriel... você não tem nada. Nem distintivo. Nem arma. Nem esposa.
Pausa calculada.
— Nem honra.
Gabo sentiu a farpada enterrar, mas não reagiu. Era isso que ele queria. Mantê-lo falando. Comprando tempo.
— Quantas regras você quebrou hoje? — A voz mudou de tom. Mais aguda. Mais jovem. Como se mil crianças falassem em uníssono. — Quantos dos seus próprios princípios você pisoteou? Você se diz herói, mas rasteja na lama como todos os outros. A única diferença é que você ainda finge que o lodo te incomoda.
— Tenho audiência. — Gabo apontou para as câmeras. — E tenho uma pergunta.
Ele deu um passo à frente. Devagar. Testando.
Os hologramas da plateia se inclinaram para frente como marionetes puxadas pelos mesmos fios.
— Quem está usando o rosto do meu pai?
Silêncio.
Não o silêncio natural. Mas o silêncio digital — aquele momento antes de um sistema crashar.
Depois, aplausos. A plateia virtual explodiu em ovação. Batidas rítmicas que reverberavam nas paredes de metal.
A figura se levantou do trono. Devagar. Dramático. Performático.
— Ah. A Busca Pela Verdade. — A máscara-tela mostrou agora o símbolo do infinito. — Tão previsível quanto patético.
O Gamemaster desceu do palco. Cada passo ecoava como bomba-relógio.
— Você não entende, Gabriel? Você não é o jogador. Você é um NPC. Um Personagem Não Jogável com um script de "Herói Trágico Clichê". Eu escrevo o roteiro, você sangra nas cenas certas. Dante Moretti é um símbolo. Símbolos não pertencem a ninguém.
— Ele. Pertence. A mim. — Gabo cuspiu cada palavra como se fosse bala.
— Errado. — A figura parou a três metros. Tão perto que Gabo podia ver as linhas de código correndo pela superfície da máscara. — Ele pertenceu à cidade. E a cidade o consumiu. Como vai consumir você.
Enquanto isso, nos dutos de ventilação trinta metros acima, Valéria rastejava. Mãos enfaixadas sangrando através do tecido. Cada movimento uma tortura silenciosa.
— Estou na posição. — Ela sussurrou pelo comunicador subdérmico que haviam reinstalado com peças de sucata e reza. — O servidor central está logo abaixo do palco. Mas Gabo... tem MUITA segurança física. Lasers de detectação. Scanners biométricos. Isso não é servidor. É cofre nuclear.
— Segure. — Gabo sussurrou sem mover os lábios. Uma habilidade que aprendera em interrogatórios.
Ele voltou o olhar para o Gamemaster.
— Você quer um show? — Gabo abriu os braços. — Então vamos dar um show. Você e eu. Um contra um. Sem drones. Sem armas. Sem truques digitais. Apenas carne e código. Ou você só sabe lutar atrás de telas?
A plateia virtual engasgou em uníssono. Som programado de choque.
O Gamemaster inclinou a cabeça. Gesto quase humano. Quase curioso.
— Aceito.
A máscara caiu.
O rosto por baixo não era um rosto. Era uma tela curva de LED, exibindo estática e — ocasionalmente — fragmentos do rosto de Dante Moretti. Não o Dante que Gabo conhecia. Mas uma versão idealizada. Mais jovem. Sem rugas. Sem o cansaço de quem viu a cidade devorar pessoas boas.
O chão do palco se abriu. Placas de metal deslizando com precisão cirúrgica.
O trono se desdobrou.
Não. Não desdobrou.
Cresceu.
Metal se esticou, servos sibilaram, hidráulica rugiu. O que era um trono se transformou em um exoesqueleto de combate de três metros de altura. Titânio negro. Articulações reforçadas. Lâminas retráte nas juntas dos dedos. E no peito, onde deveria estar o núcleo de energia, uma tela mostrando o coração batendo de Dante Moretti.
— Val... — Gabo disse, olhando para o monstro de metal. — O plano do Cavalo de Troia ficou mais complicado.
— Por quê?! — Valéria gritou no ouvido dele, a voz distorcida por interferência.
— Porque o cavalo é um tanque de guerra.
O exoesqueleto deu o primeiro passo. O chão tremeu. Poeira caiu do teto. A plateia virtual começou a cantarolar — não palavras, mas um zumbido baixo, hipnótico, que fazia os dentes de Gabo vibrarem.
Gabo assumiu a postura de Hapkido que seu pai lhe ensinou. Pé esquerdo à frente. Mãos abertas. Respiração controlada.
Mentalmente, ele fez as contas: três metros de titânio e servo-motores versus um metro e oitenta de carne, osso quebrado e teimosia.
As probabilidades eram ruins.
Mas quando, na vida de Gabriel Moretti, elas já tinham sido boas?
Ele sorriu. Não um sorriso feliz. O sorriso de um homem que já tinha morrido duas vezes e decidi que a terceira seria memorável.
— Venha pegar, lata velha.
O Gamemaster avançou.
E o inferno, sempre pontual em Baía Cinzenta, começou.
