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Capítulo 202: O Corredor Silencioso

A escotilha se fechou com um estrondo oco, selando o abismo e o zumbido predatório do enxame lá embaixo. O corredor à nossa frente era radicalmente diferente das catacumbas pútridas que havíamos deixado para trás. Aqui, a morte não era orgânica, era arquitetônica. Paredes de concreto liso estendiam-se em uma perspectiva monótona, interrompidas apenas por pesadas portas estanques que pareciam seladas há décadas. O ar cheirava a ozônio estagnado e à poeira fina que se acumula onde nada respira.

Caí de costas contra a parede fria. Meu ombro direito latejava com a fúria de uma fornalha, os músculos rasgados clamando por cauterização, um alívio que eu havia negado com agressividade. Elias desabou no chão ao meu lado, os joelhos junto ao peito, tremendo violentamente. Valéria permaneceu de pé, iluminando o caminho com o facho azul de seu feixe ocular, inexpressiva.

— Status ambiental: estéril, — declarou Valéria. — Ausência de esporos do Jardim detectada. Probabilidade de perseguição imediata inferior a três por cento, condicionada à integridade da escotilha primária.

— Três por cento, — resmunguei, fechando os olhos. — Para mim, isso é a definição de um bom dia.

Elias não riu. Ele mal respirava, preso no choque residual de quase ter sido eviscerado. Eu entendi. Ele era um sobrevivente, mas não era construído para isso. Ninguém era, exceto talvez Valéria, e ela já não era mais do que a soma fria de seus algoritmos operando no Modo de Segurança.

O silêncio do corredor começou a pesar. Sem o barulho de água pingando, garras raspando metal, ou mesmo o choro contido de Elias, minha mente encontrou espaço para preencher o vazio. Foi sorrateiro. Primeiro, uma leve alteração na densidade do ar. Depois, a mudança térmica irreal que ergueu os cabelos da nuca.

E então, o cheiro.

Forte. Adocicado e espesso. Tabaco negro, queimando lentamente. Charuto. A fumaça invisível rastejou pelas minhas narinas, enrolando-se na minha traqueia como arame farpado. Abri os olhos e o vi. Não com a visão, mas com aquela percepção aterrorizante do pesadelo. Meu pai, sentado no fim do corredor de concreto, exalando anéis cinzentos que sufocavam a luz.

O aperto no meu peito foi instantâneo. Meus pulmões travaram. A asfixia mental desceu como uma bigorna. A névoa cinzenta se materializou na minha visão periférica, densa, tóxica. Não, agora não, de novo não.

Minha respiração saiu em pequenos silvos, como um radiador furado. Elias olhou para cima, os olhos arregalados de medo renovado. Valéria girou a cabeça, registrando meus espasmos.

— Sinal de alerta médico, — disse Valéria, o biossensor piscando. — Taquicardia severa. Saturação de oxigênio em queda. Nível de estresse indicativo de colapso respiratório histérico. Aplicando protocolo de supressão neurológica...?

— Não! — grasnei, lutando para formar a palavra enquanto a fumaça invadia a minha garganta, sufocando-me.

Não precisava de supressão. Precisava de ancoragem. Precisava de sangue e osso. Ergui o braço direito — a prótese industrial descalibrada, uma massa pesada de cromo barato e engrenagens expostas. Movi os estabilizadores para o nível máximo, sentindo o servo motor gemer.

Olhei para a parede de concreto ao meu lado e atirei o cotovelo de metal contra ela com toda a força brutal que a biomecânica me permitia.

O estrondo ressoou como um tiro de canhão no espaço estreito. O choque cinético ricocheteou através da liga metálica, subindo pelo braço, atravessando os nervos já mastigados do ombro e explodindo na base do meu crânio. Uma dor branca, quente e absoluta.

A dor não era um aviso do corpo, era um portal. A agonia dilacerante varreu a névoa, dissipou a fumaça ilusória e incinerou o cheiro enjoativo do charuto de Dante, substituindo-o pelo gosto férreo do sangue na minha língua. Ofeguei rudemente, o ar viciado dos corredores enchendo meus pulmões ressecados.

— Danos estruturais no equipamento e tecidos anexos, — analisou Valéria de modo clínico. — Redução da capacidade motora do braço direito em quarenta e dois por cento. Recomendo interromper ações autodestrutivas.

— Ação necessária, — respondi entre dentes, piscando para afastar as lágrimas involuntárias que a dor extraíra. — A dor mantém o fantasma longe. Ele odeia sentir dor.

Elias engoliu em seco, recuando alguns centímetros de mim pelo chão. Eu parecia um louco de rua. Talvez eu fosse.

— Levante-se, Elias, — ordenei, forçando meu corpo arruinado a ficar de pé usando a parede como muleta. — O silêncio deste corredor é perigoso. Significa que eles selaram este nível muito antes do Jardim tomar conta. O que quer que esteja aqui, a Aeterna não queria que saísse, ou não queria que o resto entrasse. Valéria, na frente. Escaneie por radiação ou toxinas ativas.

Começamos a caminhar. Cada passo ecoava alto demais. A perna mecânica queimada raspava e estalava, um metrónomo sombrio para o nosso desespero. Não havia lodo biológico aqui, mas o concreto estava repleto de cicatrizes profundas, arranhões simétricos que iam do chão ao teto. O silêncio do corredor não era o de um sepulcro pacífico; era o silêncio de uma respiração presa, a tensão retesada antes do bote.