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Capítulo 205: Colosso de Sucata
A criatura que se ergueu do fosso não tinha rosto, nem simetria. Era um monumento grotesco ao descarte corporativo, uma fusão caótica de braços manipuladores, chassis de drones de segurança e lagartas industriais, tudo fundido pela oxidação acelerada da Praga de Ferro. A coisa se movia com espasmos violentos, o rangido de engrenagens secas soando como o grito de um animal sendo estripado.
Uma lufada de ar viciado, com gosto de cobre e poeira antiga, atingiu meu rosto. Fechei os olhos por uma fração de segundo, e o maldito cheiro do charuto fantasma do meu pai tentou invadir minhas narinas. O pânico subiu pela minha garganta, frio e pegajoso. Reagi instintivamente. Forcei meu ombro direito contra a quina de um contêiner próximo. A dor do músculo recém-rasgado explodiu em uma onda branca e ofuscante. O cheiro de tabaco sumiu, substituído pelo suor frio e pelo zumbido frenético da minha órtese esquerda. Eu estava aqui. Eu estava vivo.
— Elias, para trás! — gritei, o som áspero ecoando pelo galpão vazio. O rapaz não precisou de uma segunda ordem; ele já estava rastejando para trás, tropeçando cegamente na escuridão.
O colosso de sucata avançou, um braço pneumático, ainda ostentando o logotipo desbotado da Aeterna, balançando como um porrete. O golpe atingiu o contêiner onde eu estava ancorado segundos antes, rasgando o metal como se fosse papel molhado. A onda de choque me jogou no chão. Senti o gosto de sangue na boca.
— Análise tática, Valéria! — rosnei, me erguendo com dificuldade. A escopeta estava pesada. Disparei duas vezes. Os projéteis perfurantes bateram na carcaça de ferrugem da criatura e ricochetearam com faíscas pálidas, tão inúteis quanto jogar pedras em um tanque de guerra.
Valéria deslizou para a minha direita, as lentes brilhando no escuro, alheia ao caos.
— A estrutura é mantida unida por campos magnéticos residuais dos núcleos de força danificados, — informou ela, a voz fria cortando o barulho do metal sendo esmagado. — Munição balística padrão tem 2% de probabilidade de causar falha estrutural sistêmica.
A coisa girou, fixando o que quer que usasse como sensores em nós. Outro braço, composto por três pernas de drones de vigilância soldadas pela ferrugem, chicoteou em nossa direção.
— Então me dê os outros noventa e oito por cento! — Exigi, forçando minha órtese além do limite de segurança. O servo do meu joelho mecânico gritou, e a articulação transmitiu um choque lancinante direto para a minha espinha. Era uma agonia requintada. Minha mente estava mais afiada do que nunca.
— O teto, Gabo, — disse ela calmamente, apontando para cima com a pistola. — Trilhos do guindaste de carga principal. Os suportes sofreram 82% de corrosão devido à exposição à atmosfera do armazém.
Olhei para cima, através da névoa avermelhada de poeira de ferro. Havia um conjunto massivo de vigas e ganchos industriais balançando precariamente bem acima do fosso de onde a criatura havia saído. Se eu pudesse trazer aquilo abaixo, o peso bruto faria o que minhas balas não podiam.
O monstro avançou novamente, a massa disforme de metal se contorcendo como músculos esfolados.
— Valéria, proteja o Elias! — gritei.
Corri na direção oposta, usando minha perna boa para impulsionar o peso morto da minha órtese. O colosso mudou de alvo, me acompanhando com uma lentidão aterrorizante, mas com uma força que fazia o chão do galpão tremer. Cada passo meu era calculado para maximizar o atrito, o ruído ensurdecedor das juntas metálicas servindo como meu tambor de guerra.
Me posicionei logo abaixo de uma das pilastras de suporte do guindaste, esperando até o último segundo. A criatura ergueu sua massa principal para me esmagar.
Apertei o gatilho da escopeta repetidas vezes, mas não nela. Mirei na base podre do suporte acima de mim. O metal, já corroído pela praga e pela negligência, cedeu sob o impacto dos projéteis de grosso calibre. Um estalo profundo ressoou pelo armazém.
Joguei-me para o lado, sentindo o ardor das juntas rasgando no concreto enquanto rolava. A dor era meu oxigênio.
A estrutura de toneladas de aço não suportou mais o próprio peso e desabou. Uma avalanche de metal retorcido, correntes colossais e poeira sufocante caiu exatamente sobre o colosso de sucata, esmagando-o contra o piso reforçado.
O impacto gerou uma onda de choque que varreu o galpão, extinguindo as últimas luzes de emergência. Tossindo violentamente no escuro, senti o cheiro de ozônio e ferrugem crua preencher meus pulmões. Não havia fumaça. Não havia tabaco. Apenas o silêncio pesado da cidade morta voltando a reinar, e o pulsar ritmado do sangue na minha cabeça.