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Capítulo 3: Teatro de Carne
A fita de isolamento da polícia, um amarelo berrante e artificial, era a única coisa colorida no Distrito Industrial. O resto era cinza, preto e o marrom da ferrugem que sangrava das vigas expostas. A chuva caía em lençóis pesados, lavando o sangue da calçada para o bueiro, onde o sistema de esgoto da cidade engasgava.
Gabriel Moretti passou por baixo da fita, o sobretudo de couro sintético pesado de água. O cheiro era o primeiro a bater: ozônio, lixo queimado e aquele adocicado inconfundível de cobre e vísceras expostas.
Ele notou dois agentes da Corregedoria em ternos cinza impecáveis — secos, apesar da chuva — observando do canto, tomando notas em tablets. Abutres.
— Está atrasado, "Herói". O show já começou — disse o Capitão Vilar, interceptando-o antes que os agentes o fizessem. — E temos plateia. O Dantas mandou os cães de guarda dele para garantir que você siga o protocolo. Nada de "intuição" hoje, Gabriel. Quero Luvas, propés e cadeia de custódia assinada.
Gabo ignorou o comentário sobre a plateia, embora seu pescoço tenha ficado tenso. Ele puxou um frasco de colírio barato do bolso e pingou duas gotas em cada olho. O ardor no globo ocular foi instantâneo, uma dor aguda que limpou sua mente por um segundo.
— O trânsito no Distrito da Névoa estava um inferno, Jonas. E meu carro... — Gabo olhou para o Cobalt estacionado na esquina, ainda piscando os faróis de forma errática. — Meu carro decidiu ter vontade própria no caminho para cá.
— Problemas na injeção?
— Problemas na alma da máquina. Mas esqueça. O que temos?
— Arte. Pura e doente arte. Mas cuidado. Se você espirrar errado, eles vão usar isso para tirar seu distintivo. O promotor já ligou três vezes. Ele quer "eficiência cirúrgica", o que significa que se não resolvermos isso em 48 horas, ele vai arquivar como "acidente industrial" para não assustar os investidores da Aeterna.
Eles entraram, vestindo os trajes de proteção completos que chiavam com o movimento. Gabo odiava aquilo; isolava os sentidos, abafava o som, o cheiro. Investigação era contato, era sentir o ar. Mas com a Corregedoria fungando no cangote, ele vestiu o maldito macacão.
O galpão era vasto, uma catedral de indústria morta. Fotógrafos forenses circulavam o corpo, flashes estourando como relâmpagos artificiais, documentando cada ângulo antes que alguém tocasse em qualquer coisa.
No centro, sob a luz crua e impiedosa dos refletores, estava a vítima.
Não era apenas um corpo. Era uma instalação.
Um rapaz, talvez dezenove anos, suspenso por fios de monofilamento invisíveis, flutuando a meio metro do chão. Seus braços estavam abertos, mas não como um cristo; como uma marionete esperando o comando.
O peito havia sido aberto. As costelas, separadas cirurgicamente e mantidas abertas por afastadores de prata polida. Dentro, não havia coração, pulmões ou estômago. Havia o vazio, preenchido meticulosamente com engrenagens de relógios antigos, molas de latão e tubos de vácuo que brilhavam com uma luz âmbar fraca.
— O Taxidermista — sussurrou Gabriel, sentindo o estômago revirar. Não pelo sangue, mas pela precisão. Não havia frenesi ali. Havia paciência.
— Olhe o detalhe — disse Vilar, apontando para a incisão. — Ele substituiu órgãos falhos por mecanismos eternos.
— "A Evolução é o nosso Negócio" — citou Gabriel, a voz pingando ácido. Era o slogan da Aeterna Corp, pintado em cada maldito dirigível da cidade. — Esse desgraçado não está apenas matando, Jonas. Ele está fazendo uma sátira. Ou pior... uma proposta de emprego.
— Tem mais — disse Vilar, apontando para o rosto da vítima.
Gabriel se aproximou, desviando das poças de sangue coagulado. Ele olhou para o rosto do garoto e prendeu a respiração.
As pálpebras haviam sido removidas. No lugar dos olhos, lentes de câmeras analógicas, objetivas Leica antigas, haviam sido enxertadas nas órbitas. O vidro escuro das lentes refletia o rosto de Gabriel distorcido.
Zzzzt. Click.
O som foi mecânico, vindo de dentro do crânio do rapaz. As lentes giraram, focando.
— Não apenas ativas. Estão transmitindo — disse a voz feminina vinda do chão.
Sentada em posição de lótus, cercada por cabos físicos conectados a um terminal portátil pesado, estava a Detetive Valéria Cruz. Nada de hologramas flutuantes aqui; apenas código rolando em telas de fósforo verde e o cheiro de processadores superaquecidos.
— Detetive Cruz — cumprimentou Gabo, surpreso. — Achei que você estivesse confinada no porão da Cybercrimes.
Valéria levantou os olhos, um azul elétrico brilhando nas lentes de contato inteligentes.
— O Dantas me soltou da coleira por bom comportamento. E porque ninguém mais na divisão sabe diferenciar um cabo coaxial de um macarrão instantâneo. — Ela voltou para a tela. — Não consigo rastrear o sinal wireless, é muito volátil. Mas... — Ela apontou para um conduíte enferrujado na parede. — Eu segui a interferência estática com o medidor de campo. Há um repetidor físico instalado naquele quadro de força secundário. Quem fez isso teve que vir aqui, abrir a caixa com uma chave mestra e plugar o hardware manualmente.
— Manualmente? — Gabo sorriu, um sorriso de predador. — Ótimo. Hardware deixa impressões digitais. Deixa rastros de DNA. Esqueça o ciberespaço, Val. Vamos desmontar aquela caixa de força e ver quem tocou nela.
— Vou chamar a equipe de datiloscopia — disse Valéria, aliviada por ter algo tangível.
Gabriel se inclinou mais perto, encarando as lentes no rosto do morto.
— O que ele está vendo? O que eles estão vendo?
— A nós, Gabo — respondeu Valéria, sem tirar os olhos da tela. — Estão transmitindo o "Aftershow". A reação da polícia. A sua reação.
Gabriel sentiu a raiva fria subir pelo pescoço. Ele olhou para a cavidade torácica novamente. Entre as engrenagens, algo destoava. Um pedaço de papel, preso por um alfinete de gravata, bem no lugar onde deveria estar o coração.
Com uma pinça oferecida por um assistente, Gabriel puxou o papel. Era uma fotografia antiga, impressa em papel de verdade, com bordas brancas. A umidade não a tocara.
A foto mostrava dois homens em frente a uma delegacia. Um era alto, com o uniforme de comissário impecável. O outro era uma criança, segurando um sorvete derretendo.
Dante Moretti. E Gabriel, aos sete anos.
Mas havia algo errado. Gabriel puxou uma lupa de bolso e examinou a imagem sob a luz forense.
— O que foi? — perguntou Vilar, aproximando-se.
— O relógio do meu pai — murmurou Gabriel, sentindo um gosto amargo na boca. — Na foto... ele está usando o relógio no pulso direito.
— E daí?
— Meu pai era canhoto, Jonas. Ele nunca usava o relógio na direita. Dizia que atrapalhava o saque da arma. — Gabo passou o dedo sobre a imagem. — Essa foto foi manipulada. Ou então... não é o meu pai.
Vilar ficou em silêncio.
— É uma montagem? — sugeriu Valéria.
— Não — Gabriel balançou a cabeça. — É um código. "Direita". Ele sempre me dizia: "Se você se perder nos túneis, vire sempre à direita". — Ele virou a foto. No verso, escrito com uma caligrafia elegante e antiquada em tinta tinteiro:
"O caminho certo é aquele que ninguém vê. Pergunte ao traidor onde ele enterrou a chave."
— O traidor — Vilar bufou. — Miranda?
— Ele ainda está vivo? — Gabriel guardou a foto em um saco de evidências, sentindo o peso do passado esmagando suas costelas.
— A Inteligência diz que ele foi visto nos níveis inferiores. Tentando vender informações para o Sindicato. Ele conhece os túneis de drenagem da época da construção. Ninguém mapeou aquilo.
Gabriel olhou para as lentes nos olhos do cadáver uma última vez. Ele se aproximou, até que seu rosto preenchesse todo o campo de visão da transmissão.
— Se você está me ouvindo — disse ele para a câmera, para o assassino, para a voz em seu carro — eu não vou apenas te prender. Eu vou te caçar. Vou entrevistar cada vizinho, revirar cada lata de lixo, e quando eu te encontrar, você vai desejar ter ficado no escuro.
Click. O obturador disparou uma última vez, como se concordasse.
— Val, o que a caixa de força nos diz? — gritou Gabo.
Valéria estava com as mãos sujas de graxa, segurando um módulo transmissor queimado que ela arrancara da parede.
— Número de série raspado, mas deixaram a etiqueta de inventário interna. — Ela usou uma lupa. — Lote 49-B. Distribuído para a manutenção dos antigos armazéns do porto.
Gabriel semicerrou os olhos. — Armazéns do porto. Área abandonada, sem câmeras oficiais. O lugar perfeito para um estúdio de arte macabra.
— Aeterna Corp é a dona do terreno — completou Vilar, lendo o relatório no tablet. — Compraram mês passado através de uma subsidiária fantasma.
— Aeterna — Gabriel soltou uma risada seca. — Claro. Por que seria fácil? Mas agora temos um endereço físico, tijolo e argamassa.
Ele se virou para sair, tirando as luvas com violência.
— Onde você vai? — gritou Vilar.
— Vou fazer uma visita à família. Parece que meu irmão e seus novos amigos têm um gosto peculiar por arte moderna.
— Moretti! Você não tem mandado! Isso é suicídio político!
Gabriel parou na porta do galpão, a silhueta recortada contra a chuva torrencial. Ele apertou o Colar de Sol mais uma vez.
— A política morreu com o meu pai, Jonas. Agora só sobrou a limpeza.
