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Capítulo 86: Simbiose
Três Meses Depois - Zona de Exclusão Norte
Baía Cinzenta não existia mais. Pelo menos, não como constava nos mapas. Agora, era conhecida como "O Jardim".
Apoiando seu peso nas pesadas órteses mecânicas que sustentavam suas pernas arruinadas, Gabo ajustou a máscara de filtração. O ar na Zona Norte era tóxico para pulmões não modificados — carregado de pólen metálico e esporos alucinógenos.
Ele caminhava com dificuldade por uma rua que um dia fora uma avenida movimentada. Agora, o asfalto era um tapete de musgo que brilhava no escuro. O gemido constante dos servomotores em suas pernas acompanhava cada passo, um lembrete físico de sua limitação que o impedia de sucumbir ao delírio botânico. Os prédios eram esqueletos cobertos por trepadeiras de aço e clorofila.
Ele não estava sozinho. Ao seu lado, um "Cão". Não o animal, mas um drone quadrúpede da antiga força policial que havia sido... assimilado. Sua carcaça de metal estava coberta de pele sintética, e ele se movia com a fluidez de um predador biológico, não com a rigidez de um robô. Ele obedecia a Gabo, mas não por programação. Por lealdade instintiva.
— Calma, Garoto — murmurou Gabo, acariciando a cabeça biomecânica da criatura.
Eles estavam caçando.
Não criminosos. Comida. Ou melhor, baterias biológicas.
Neste novo mundo, a eletricidade era escassa. A energia vinha de "Frutos" — nódulos de energia que cresciam em certas árvores mutantes.
Gabo encontrou o que procurava: uma árvore cintilante crescendo no saguão de um antigo banco. Seus frutos pulsavam com luz azul neon.
Ele sacou a faca para colher um, mas parou.
Uma figura estava observando-o do mezanino.
Era uma mulher. Sua pele era verde-pálida, com veias que brilhavam como fibra ótica. Seus cabelos eram filamentos finos que flutuavam como se estivessem na água.
— Você está longe de casa, Detetive — disse ela. A voz não veio da boca dela, mas ecoou diretamente na mente de Gabo, transmitida pelas plantas ao redor.
— E você está invadindo meu território, Jardineira — respondeu Gabo, a mão descendo para o coldre.
— Território? — Ela riu, um som de folhas secas sendo esmagadas. — Não existe mais "meu" ou "seu". Tudo é Um. Tudo é a Raiz.
— Diga isso para os que morreram na transição.
— Ninguém morreu, Gabo. Eles apenas... mudaram de formato.
A mulher saltou do mezanino, pousando sem som.
— O Pai quer falar com você.
— O Pai? — Gabo franziu a testa.
— Aquele que Semeia. Ele diz que você é o único que ainda resiste à Canção. Ele quer saber por quê.
Gabo olhou para o seu "Cão", que rosnava baixinho, os pelos de fibra eriçados.
— Diga a ele que eu prefiro o silêncio.
