Appearance
Capítulo 23: Ratos e Reis
O "Palácio de Jade" exalava o cheiro doce e podre de privilégio decadente. Encravado entre as chaminés mortas da Zona Industrial, parecia um tumor de neon pulsando na carne cinzenta da cidade. Não era apenas um cassino; era um ecossistema. Aqui, o dinheiro impresso pela Aeterna Corp era lavado com o sangue do Sindicato.
Gabo parou o Cobalt a uma quadra de distância. A chuva tamborilava no teto blindado, um ritmo nervoso que combinava com o de seus dedos no volante.
— Tem certeza que ele está aí? — perguntou Elena, verificando a trava de sua pistola pela terceira vez.
— Ratos de esgoto gostam de queijo caro — disse Gabo. — E Miranda sempre teve um gosto refinado para a imundície.
Ele olhou para a entrada. Dois gorilas com implantes dérmicos de blindagem (grau militar, proibidos para civis) guardavam as portas duplas. Carros de luxo flutuavam ou rodavam até o valet, despejando a elite corrupta de Baía Cinzenta: vereadores que votavam contra a saúde pública, lobistas da Aeterna com sorrisos de porcelana e traficantes de órgãos com ternos de seda sintética.
— Val, você tem a planta? — perguntou Gabo.
— O lugar é uma gaiola de Faraday — respondeu Valéria, frustrada, batendo no deck. — Sem sinal lá dentro. Mas consegui interceptar uma lista de convidados vip.
Ela projetou os nomes no painel do carro.
- Senador Vargas: O homem que legalizou a servidão por dívida.
- Madame Li: A rainha do tráfico de sintéticos da Zona Norte.
- Os Gêmeos Kray: Executores do Sindicato.
— "Ratos e Reis" — murmurou Gabo. — Estão todos no mesmo buraco.
— O plano? — perguntou Elena.
— Sutileza zero — disse Gabo, engatando a primeira marcha. — Vamos bater na porta. Com o para-choque.
Ele pisou fundo. O motor V8 rugiu, acordando a rua morta. O Cobalt disparou como um míssil azul.
Os seguranças nem tiveram tempo de sacar as armas. Gabo não atropelou ninguém — ele era um policial, afinal, mesmo sem distintivo — mas atravessou a parede de vidro fosco ao lado da entrada principal com a delicadeza de um aríete.
O mundo explodiu em estilhaços e gritos.
O carro derrapou pelo saguão de mármore falso, espalhando mesas de baccarat e jogando fichas de crédito para o ar como confete. A música eletrônica parou. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som do motor do Cobalt morrendo e pelo tinir de vidro caindo.
Gabo chutou a porta do motorista. Ele saiu, a escopeta "Caronte" descansando no ombro. Valéria saltou do outro lado, bloqueando instantaneamente os sistemas de alarme locais com um pulso EMP de curto alcance. Elena ficou na retaguarda, cobrindo os flancos.
Gabo olhou ao redor. O Senador Vargas estava encolhido debaixo de uma mesa de blackjack, sua imunidade parlamentar inútil contra calibre 12. Madame Li mantinha a compostura, segurando sua taça de champanhe, embora o líquido tremesse.
— Ninguém sai! — rugiu Gabo. — A festa acabou.
Um segurança, um armário de músculos sintéticos baratos, tentou sacar uma submetralhadora. Gabo nem mirou. O disparo da Caronte atingiu o joelho do homem, pulverizando a rótula de titânio. Ele caiu gritando, o som ecoando no salão cavernoso.
— Eu quero o gerente! — gritou Gabo, caminhando entre as mesas. Ninguém ousou respirar. — Eu quero Roberto Miranda!
No mezanino, protegido por vidro à prova de balas (ou assim ele pensava), uma figura conhecida tentou se esgueirar para a saída de incêndio. O braço esquerdo da figura brilhava com um cromo novo e caro sob a luz estroboscópica de emergência.
— Val! — sinalizou Gabo.
Valéria fez um gesto cortante no ar. As travas magnéticas das portas de emergência, que Miranda havia instalado com tanta paranoia, agora se voltavam contra ele. Elas selaram com um baque surdo de caixão fechando.
Miranda olhou para a porta trancada, depois para Gabo lá embaixo. Ele sorriu, um sorriso nervoso e cheio de dentes.
— Gabriel! — gritou ele, abrindo os braços. — Veio jogar uma partida? Tenho dados novos, feitos de osso humano. Muito chiques.
Gabo subiu a escada de metal, os passos pesados ressoando.
— Quero as chaves, Roberto.
— Chaves? Eu tenho muitas chaves. Chaves de corações, chaves de cofres...
Gabo chegou ao topo da escada e apontou a escopeta para a cara de Miranda.
— As chaves dos Níveis de Fundação. O acesso de manutenção aos esgotos antigos.
O sorriso de Miranda vacilou.
— Ah. Aquelas chaves. — Ele recuou, encostando-se no parapeito. — Sabe, Gabo, você está com uma aparência horrível. A vida de fugitivo não te cai bem. O Sindicato está pagando uma fortuna pela sua cabeça.
— E você ia tentar coletar? — Gabo engatilhou a arma.
— Eu? Jamais. Somos parceiros, lembra? Vargas e Moretti. A dupla dinâmica.
— Vargas morreu — disse Gabo. — Você o matou quando vendeu nossa unidade.
Miranda suspirou. Ele olhou para o braço mecânico.
— Era necessário, Gabo. O futuro é mecânico. Carne é fraca. Olha para você. Cansado. Velho. Quebrado.
De repente, o braço de Miranda zumbiu. Um escudo de energia azulada se formou no ar, e ele sacou uma pistola de plasma oculta no antebraço.
Mas Gabo não esperou. Ele não hesitou. Ele não teve um monólogo moral.
Ele disparou.
Não na cabeça, mas no ombro mecânico. O tiro da "Caronte" era devastador a curta distância. O impacto jogou Miranda contra a parede, destruindo a articulação do braço biônico. O membro caiu no chão, soltando faíscas.
Miranda gritou, segurando o toco do ombro.
— SEU LOUCO! ISSO CUSTOU MAIS QUE SUA VIDA!
Gabo pisou no peito de Miranda, prendendo-o contra o chão sujo. Ele encostou o cano quente da escopeta na testa do ex-parceiro.
— Os códigos. Agora. Ou o próximo tiro espalha o que sobrou da sua mente brilhante nessa parede.
Miranda choramingava, a arrogância drenada junto com o fluido hidráulico do braço perdido.
— Está... está no chip! No meu pescoço!
Gabo olhou para Valéria, que havia subido as escadas. Ela se ajoelhou e conectou um cabo diretamente na porta neural atrás da orelha de Miranda.
Os olhos de Miranda reviraram.
— Estou extraindo — disse Val, fria. — Mapas de esgoto, códigos de acesso de emergência, rotas de contrabando... Peguei.
Ela desconectou o cabo.
— Podemos ir, Gabo.
Gabo olhou para Miranda, que tremia no chão, um patético amálgama de carne e metal quebrado.
— Você ia me vender — disse Gabo, a voz desprovida de emoção. — De novo.
Miranda cuspiu um dente ensanguentado. Um riso borbulhante escapou de seus lábios.
— É a natureza do jogo, Gabo. Alguém sempre tem que perder para que o outro possa ganhar.
Gabo se afastou, o som de seus passos ecoando a finalidade d— Não hoje.
Gabo se virou para sair.
— Gabo! — A voz de Miranda era um gorgolejo úmido. Ele tossiu sangue preto. — O velho... Dante... ele tentou parar.
Gabo parou e olhou para trás, encarando o ex-parceiro uma última vez.
— O que está lá embaixo, Roberto? O que guarda a fundação?
Miranda riu, um som que se transformou em um acesso de tosse violenta.
— Os erros! Os protótipos que a Aeterna não conseguiu controlar! A primeira tentativa deles de um "anjo da guarda". Eles estão com fome, Gabo! E eles se lembram de seu criador!
Ele respirou fundo, o ar chiando nos pulmões perfurados.
— O código... no pescoço do Dante... — Miranda continuou, a voz falhando. — Ele inseriu um erro. Um backdoor. Ele sabia que ia perder a cabeça. Ele queria que alguém desligasse. Ele queria... dormir.
Miranda caiu para trás, os olhos fixos no teto sujo do cassino.
— Aposto... no vermelho... — ele sussurrou, e o brilho em seus olhos se apagou.
Gabo fechou os olhos por um segundo.
— A casa ganhou dessa vez — murmurou ele.
Ele desceu as escadas, Valéria em seu encalço, deixando o corpo de Miranda para os abutres que certamente viriam.
Elena já estava no volante do Cobalt quando eles saíram.
— Conseguiram? — perguntou ela.
— Sim — disse Gabo, entrando no carro. — Vamos para o inferno.
Enquanto o Cobalt se afastava na chuva, Gabo olhou pelo retrovisor. As luzes de viaturas da polícia se aproximavam do "Palácio de Jade". Mas Miranda já estava além da jurisdição do Capitão Vilar.
Gabo sentiu o peso do que estava por vir. As palavras de Miranda, seu último momento de clareza distorcida, cravaram-se em sua mente.
Se você o matar... você mata a todos nós.
O caminho para a salvação estava pavimentado com mais do que apenas boas intenções.
