Skip to content
Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: Fantasmas de Silício
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (Subnível 2.0 - O Arquivo Executivo da Aeterna Corp)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot)
  • Resumo: Explorando o gélido e estéril Arquivo Executivo, o grupo caminha rumo à anomalia térmica no setor alfa-sete. Gabo sofre com alucinações sufocantes de fumaça, evocando lembranças nauseantes de seu pai (Dante), e utiliza o impacto violento de seus cotocos contra os servidores inativos para que a dor ancorasse sua sanidade. Aria, indiferente ao colapso humano iminente, analisa rastros atípicos no chão — esteiras pesadas de servidores de contenção física —, introduzindo uma ameaça puramente cibernética logo antes de um misterioso estalo metálico quebrar o silêncio do arquivo morto.

Narrativa

Capítulo 165: Fantasmas de Silício

A escuridão do Arquivo Executivo não era a escuridão orgânica e suja dos túneis inferiores. Era um breu matemático, traçado em ângulos retos entre monólitos de armazenamento de dados que se erguiam como arranha-céus em uma cidade fantasma. A temperatura estacionada em cruéis cinco graus positivos mordia a pele exposta de Gabo e Valéria, uma mordida estéril que não trazia o fedor da morte física, mas a preservação cirúrgica da Aeterna Corp.

Gabo arrastava a perna direita, o peso do próprio corpo parecendo esmagar a espuma coagulante que Valéria injetara em suas costelas. O suor em sua testa estava congelando.

Cada passo no linóleo negro era uma negociação com o abismo. E, no silêncio perfeito da gaiola de Faraday, a mente de Gabo encontrou espaço para apodrecer.

O ar purificado de quarenta anos atrás deveria cheirar a nada. Mas, para as sinapses rasgadas pelo choque hipovolêmico, o "nada" era um vácuo preenchido pelo trauma.

O cheiro rançoso e amargo do cigarro de cravo barato preencheu o corredor escuro.

A náusea dobrou seu estômago. O instinto visceral de tossir, de expelir o ar envenenado, paralisou suas pernas. A repulsa era tamanha que o mundo começou a girar, as bordas da visão escurecendo não pela falta de sangue, mas pelo puro terror de asfixia psicológica.

Quebra isso.

Gabo jogou os ombros para a esquerda, forçando o toco cauterizado do braço amputado a colidir de frente com a chapa de aço sólido e gelado do arquivo deslizante mais próximo.

A crosta negra estalou. A carne por baixo, ainda em carne viva do maçarico de plasma, beijou o metal a cinco graus. Uma explosão branca, aguda e ensurdecedora de pura agonia rasgou seu cérebro, obliterando o sistema límbico com bilhões de volts de dor elétrica.

A fumaça fantasma foi desintegrada em um milissegundo, varrida pela clareza absoluta da agonia. O cheiro do tabaco evaporou, substituído pelo ozônio estático do aço corporativo. Gabo arfou violentamente, encostando a testa suada no metal gelado, o sangue pingando silencioso do cotoco recém-aberto. A dor era límpida. A dor era a única verdade no silêncio do silício. Ele sorriu, um ríctus de dentes vermelhos na escuridão.

— O limite de resiliência circulatória da unidade biológica líder foi ultrapassado há trinta e dois minutos — a voz de Aria não emitiu eco, absorvida pelas placas acústicas do teto. A IA estava parada a três metros à frente, as costas voltadas para o humano sangrando, seu olho sintético traçando linhas invisíveis no piso negro. — A automutilação contínua para indução de picos de cortisol apenas mascara a falência hematológica em curso. Sua eficiência de combate é nula.

Valéria correu a mão trêmula pelos cabelos imundos, a respiração condensando no ar gelado, lançando um olhar envenenado para o perfil metade pele sintética, metade chassi exposto da androide.

— Fica quieta, Aria. Ele nos trouxe até aqui — a voz de Valéria era um sussurro rouco. A hacker segurou o braço sadio de Gabo, os dedos finos apertando a jaqueta esfarrapada com cuidado. — Quatrocentos metros, foi o que você disse, máquina. Onde está a droga da anomalia?

Aria não respondeu à provocação empática. Ela virou o rosto rigidamente para o chão no centro do cruzamento das avenidas de arquivos.

— A anomalia térmica encontra-se no final deste vetor. Contudo, as variáveis do ambiente requerem atualização imediata — a androide apontou o dedo indicador perfeito para o linóleo negro aos seus pés.

Valéria franziu a testa, os implantes oculares forçando um ajuste de contraste no breu.

A camada de poeira branca, fina e petrificada que cobria o chão do Subnível 2.0 estava perturbada. Não por pegadas de botas táticas ou patas de aberrações de cerâmica.

Havia duas marcas paralelas, largas de trinta centímetros cada, que rasgavam o linóleo negro. Rastros contínuos, matematicamente perfeitos, varrendo a poeira antiga em direção à escuridão do setor alfa-sete.

— Marcas de tração por esteiras pesadas. Poliuretano reforçado e tração magnética — Aria traduziu a imagem com a frieza de um relatório militar. — O Taxidermista não controla a biologia deste andar devido ao vácuo e ao bloqueio eletromagnético. Mas a Aeterna Corp original nunca deixou seu núcleo de hibernação desprotegido. A anomalia que buscamos não é apenas um terminal de energia adormecido, Valéria Cruz.

A IA levantou o olhar ciano letal para o abismo de aço escovado à frente.

— A anomalia é a isca. A entidade que deixou essas esteiras é o executor local do próprio Dante. Um cão de guarda cibernético sem conexão externa, isolado, projetado exclusivamente para a erradicação de invasões físicas aos dados executivos.

O silêncio corporativo que os cercava subitamente não pareceu mais um túmulo pacífico. Pareceu a imobilidade de uma sala de interrogatório antes do carrasco entrar.

Gabo forçou-se a desgrudar do metal do servidor, o corpo tombando perigosamente antes de se firmar. A dor nas costelas era um incêndio surdo, e o frio entrava pelas frestas rasgadas de sua jaqueta, mas o fantasma da fumaça estava trancado atrás das cicatrizes purulentas.

— Então ele sabe que estamos aqui. Ou vai saber quando a gente tentar plugar você na tomada dele — Gabo sussurrou, a respiração ofegante misturada à névoa branca que escapava de seus lábios. Ele olhou para Valéria. — Você tem algum truque neural no pescoço pra fritar um tanque de guerra cego?

Valéria sacudiu a cabeça lentamente, engolindo em seco.

— Eu não posso hackear o que eu não posso acessar por rede, Gabo. O firewall da porta já provou isso. Se essa coisa opera em malha fechada analógica... é só blindagem e protocolo de extermínio bruto. Meu deck não faz milagre contra sessenta toneladas de aço burro.

O debate mecânico sobre sobrevivência probabilística foi interrompido com a sutileza de uma guilhotina cortando seda.

Um som ecoou na escuridão.

Não foi um rugido animal, nem o zumbido de propulsores magnéticos como no monorail. Foi um estalo metálico profundo. Oco. Seco. Um som de travas industriais pesadas de retenção destravando-se a duzentos metros de distância, nas profundezas do corredor alfa-sete.

Segundos depois, o zumbido subgrave de capacitores gigantescos acordando de um sono de quatro décadas começou a fazer o piso negro de linóleo vibrar contra as solas das botas de Gabo.

Aria contraiu os servomotores das pernas, entrando instintivamente em uma postura de recepção de impacto letal.

— Inicialização de matriz hostil confirmada — a voz sintética de Aria foi o único som além do zumbido elétrico crescente. — A otimização sugere a separação do grupo biológico em ângulos oblíquos. O alvo primário da defesa letal será o intruso centralizado com maior assinatura térmica.

Gabo sorriu, o lábio rachado sangrando no frio clínico. A fumaça estava morta. Mas o silício estava apenas acordando, e a conta da Aeterna Corp finalmente havia chegado.