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Capítulo 76: A Sombra do Meio-Dia

Distrito de Prata - 12:00 PM.

O problema com o sol, Gabo concluiu encostado no capô do Cobalt, era que ele não sabia guardar segredos.

Durante cinquenta anos, Baía Cinzenta foi uma amante discreta, escondendo suas cicatrizes sob o véu da chuva e do neon. A escuridão era indulgente; ela borrava as bordas da pobreza, suavizava a ferrugem e transformava becos imundos em passagens misteriosas.

Mas o sol? O sol era um detetive ruim. Ele expunha tudo. A luz crua do meio-dia revelava cicatrizes estruturais e a feiura de uma metrópole forçada a sobreviver ao apocalipse corporativo.

A luz batia impiedosa sobre a lataria do Cobalt, revelando cada arranhão, cada ponto de oxidação e a camada de poeira que se acumulava agora que a chuva havia cessado. Gabo limpou o suor da testa com as costas da mão suja de graxa. Ele ajustou os óculos escuros. Seus olhos ardiam.

— Você está resmungando com o carburador de novo?

Gabo não se virou. Ele reconheceria o som daquelas botas em qualquer lugar, mesmo sem o zumbido sutil dos servos que costumavam acompanhá-las. Ele mudou o peso do corpo, sentindo o metal frio das órteses de perna pressionarem suas coxas — o equipamento vital que permitia que ele ficasse de pé após ter as pernas esmagadas. Cada movimento exibia um limite brutal entre carne quebrada e aço médico.

— Carburadores são honestos, Val. Eles funcionam ou não funcionam. Não têm crises existenciais nem tentam dominar o mundo.

Ele fechou o capô e se virou.

Valéria Cruz estava encostada no batente da porta da garagem improvisada. Algo estava diferente. Levou um segundo para Gabo perceber: ela estava "desligada". O cabelo holográfico estava estático, um azul pálido e opaco. Ela usava óculos escuros grossos — algo peculiar, já que suas retinas filtravam qualquer espectro de luz natural ou artificial.

— O sol está fritando meus sensores ópticos na rua. Tive que sobrepor analógico — disse ela, ajeitando os óculos. — A ironia é palpável. Sobrevivemos ao apocalipse digital para sermos derrotados pelos raios UV.

— Café? — ofereceu Gabo, pegando a garrafa térmica velha.

— Preciso de algo mais forte. E você também.

O tom de voz dela fez Gabo parar. O "novo normal" de Baía Cinzenta era uma paz frágil, gerenciada pela Entidade (a fusão de Dante e Aria) que controlava a infraestrutura. Crimes violentos haviam caído para zero por cento.

Se Val estava tensa ao meio-dia, a paz tinha acabado.

Gabo sacou dois copos encardidos e serviu um gole de algo turvo que passava por uísque naquelas semanas.

— O que a Entidade perdeu? — perguntou ele.

Val tomou o líquido em um gole só. Ela estremeceu.

— Um corpo. Zona Industrial, Setor 4. A Entidade vê tudo, câmeras, satélites... mas não registrou absolutamente nada lá. Para o sistema, aquele beco estava vazio.

Ela deslizou um tablet analógico antigo sobre a mesa de trabalho.

A foto exibia um homem amarrado a uma cadeira de metal, em um galpão abandonado. Sangue formava uma poça geométrica perfeita no chão de cimento.

— Quem é a vítima?

— Arthur Vane. Ex-diretor de Logística da Aeterna Corp. Ele estava no programa de anistia. A Entidade o monitorava 24/7.

Gabo analisou a imagem de perto.

— Os implantes dele. Foram removidos. Arrancados e... nó de pescador nas cordas.

A imagem também revelava, desenhado na parede atrás do executivo com o próprio sangue da vítima, uma frase. E uma ferramenta no chão.

O SILÊNCIO VOLTOU — leu Gabo em voz baixa.

Ele apontou para o canto da foto.

— Val, há um martelo ali. E nenhum hack neural, nenhuma sobrecarga de implante. Alguém agiu com força bruta e metal frio. Alguém encontrou uma forma de ficar invisível para Deus.

Gabo pegou sua jaqueta de couro surrada e checou o carregador da sua Glock, tamborilando os dedos no coldre em um ritmo frenético para focar os pensamentos longe da dor latejante nos joelhos fixados.

— Eu dirijo — disse Val, contornando o carro. — Você ainda dirige como um idoso e eu não quero sentir os trancos de você pisando na embreagem com as órteses.

Gabo não discutiu. O Cobalt saiu cantando pneus, levantando poeira sob o sol impiedoso.

Setor 4 - 12:45 PM

O beco era sufocante. A luz forte criava sombras duras. Val estava agachada ao lado do corpo, agora conectada ao seu deck, sondando a área enquanto Gabo inspecionava as marcas.

— Nada — disse Val, desconectando do console. — Aria varreu todos os sensores num raio de cinco quilômetros. Nem microfones, nem pressão. O cara simplesmente... morreu na escuridão digital.

Uma voz suave ecoou nos fones de ouvido de ambos. A voz onipresente da Entidade soava como uma brisa matemática e fria.

Gabo. Val. Há uma anomalia.

— Que tipo de anomalia? — perguntou Val.

A sombra do corpo. Ela não corresponde à posição do sol.

Gabo virou-se bruscamente, a dor chicoteando pelas canelas devido ao movimento mal executado pelo metal das pernas. Ele olhou para o chão.

A sombra do cadáver de Arthur Vane se esticava para o norte, longa e distorcida. Mas todas as outras sombras — das latas de lixo, da própria Val, do pneu do Cobalt — apontavam rigorosamente para o sul.

E então, diante dos olhos surpresos de Gabo e Val, a sombra do morto se moveu.

Sozinha.

Ela deslizou pelo chão ensanguentado, subiu pela parede de tijolos e fundiu-se com a claridade impiedosa do sol.

Gabo sacou sua arma num piscar de olhos, ignorando a pontada de agonia mecânica em seu corpo estático.

— O que foi isso? — gritou Val, puxando sua própria pistola magnética.

— Não sei — disse Gabo, o suor frio escorrendo pela testa, as mãos firmes ao redor do cabo analógico da pistola. — Mas acho que a nossa utopia acabou de ganhar um ponto cego.