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Capítulo 192: A Ascensão das Cinzas

O lodo fervia atrás de nós, um oceano vermelho de biologia corrompida evaporando na fornalha do Arquivo Executivo. O colapso térmico das bio-baterias do Jardim expelia um vapor espesso e escuro no fosso do elevador por onde tentávamos escapar. O calor era claustrofóbico, empurrando o ar para cima em lufadas tóxicas de carne carbonizada e silício derretido.

E no meio daquela fumaça real, o espectro do meu pai ressurgiu.

O perfume adocicado e denso de charuto infiltrou-se no meu sistema respiratório. A alucinação não era apenas um cheiro; era uma textura. Eu sentia as cinzas invisíveis de Dante revestindo meus pulmões, endurecendo como cimento, roubando o oxigênio do meu sangue. A asfixia imaginária contraiu minha garganta. O pânico bateu no fundo do meu crânio como um martelo pneumático.

Estávamos no meio de uma escalada insana pelas escadas de manutenção enferrujadas do fosso do elevador. Olhar para baixo era ver o inferno laranja do núcleo devorando a si mesmo. Olhar para cima era apenas a escuridão infinita e poeirenta do Setor 7.

— Probabilidade de falha estrutural primária em sessenta segundos alcança 92%, — Valéria relatou acima de mim. Sua voz era cirúrgica, estéril, livre da urgência que o fogo abaixo exigia. Em seu Modo de Segurança, ela era um fantasma digital habitando uma casca andante, subindo os degraus enferrujados com precisão matemática. — A taxa de ignição dos gases acumulados no duto secundário é letal.

A asfixia fantasma apertou. Minha visão escureceu nas bordas. Eu ia cair. Se a alucinação de Dante vencesse, eu afrouxaria as mãos, mergulharia naquele lago de lodo fervente e desapareceria.

Eu não ia dar a ele essa satisfação.

Encontrei um degrau mais grosso na escada estrutural. O meu joelho esquerdo já estava dilacerado da automutilação que eu cometera no núcleo, carne rasgada até o osso pela minha própria engrenagem. Posicionei a perna avariada sobre a barra de metal. Com um rosnado preso na garganta apertada, forcei o peso inteiro do meu corpo e do meu braço industrial sobre aquele único joelho destruído.

O metal da órtese rangeu, mordendo ainda mais fundo a ferida aberta. O impacto físico, puro e excruciante, explodiu na minha espinha. A dor foi um choque de desfibrilador em um coração parado. O clarão da agonia extinguiu o cheiro de fumaça de charuto instantaneamente. Meus pulmões se abriram em um espasmo, e eu puxei o ar tóxico e ardente do fosso, tossindo sangue e poeira, mas lúcido. Completamente lúcido.

— Continue subindo, — eu grunhi para Valéria, minha voz rasgando a garganta arranhada.

A prótese industrial do meu braço direito estava um caos de faíscas. Cada vez que eu agarrava o corrimão da escada para me puxar para cima, pequenos curtos-circuitos estalavam pelas placas expostas. Era um fardo mecânico, pesado como chumbo, mas era o que me mantinha avançando, degrau por degrau, enquanto o inferno subia nossos calcanhares.

Valéria não olhou para trás. Não hesitou. O algoritmo não sentia pena, nem alívio. Apenas calculava a rota de fuga mais eficiente.

— Altura mínima de segurança atingida. Nível de subestação B. — Ela anunciou. A porta reforçada do nível de manutenção apareceu à nossa frente. Estava selada por grossas travas de emergência, desenhada para conter a pressão de um desastre inferior.

Eu me arrastei até a plataforma, a perna esquerda quase inútil, arrastando-se pesadamente. Não tínhamos tempo para que Valéria a hackeasse. O rugido do fogo do Arquivo estava engolindo o fosso do elevador logo abaixo das nossas botas.

Levantei a prótese pesada. Meu ombro descalibrado estalou sob o esforço. Deixei o punho industrial cair contra os controles de travamento da porta. Não houve sutileza, apenas a força cega do metal sobre o plástico endurecido e circuitos. Uma, duas, três vezes. O teclado arrebentou, o sistema de travamento entrou em curto e os painéis de aço da porta deslizaram pesadamente para o lado, abrindo uma fresta o suficiente.

Nós nos esprememos para dentro da escuridão do Nível B segundos antes que uma lufada de fogo e gás superaquecido varresse o túnel do elevador. O som da deflagração ensurdeceu o corredor em que tínhamos caído.

Eu me apoiei contra a parede gelada de concreto, o peito subindo e descendo com violência. O braço industrial pendia inutilizado por agora, e meu joelho sangrava profusamente no chão sujo. Mas eu não sentia cheiro de fumaça. Só o ozônio do meu próprio corpo despedaçado.

— Evacuação bem-sucedida, — Valéria informou, os olhos opacos avaliando a escuridão à frente. — Recalculando rota de superfície.

Estávamos vivos. No escuro, na sujeira, quebrados. Mas o núcleo do Jardim estava morto.