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Capítulo 206: Ecos na Escuridão

O estrondo colossal do guindaste desabando ainda ecoava nos meus ossos muito depois que o metal parou de ranger. A escuridão absoluta engoliu o armazém logístico. Sem as luzes de emergência âmbar, o mundo se resumia ao som da minha própria respiração pesada e ao zumbido agonizante do servo motor no meu joelho esquerdo.

Tossi, cuspindo poeira ferrosa e sangue no concreto invisível. A atmosfera estava impregnada de ozônio e ferrugem pulverizada. No vácuo sensorial da escuridão, minha mente tentou pregar uma de suas velhas peças. Uma espiral de fumaça fantasma roçou o fundo da minha garganta — o charuto barato do meu pai. Senti o estômago revirar.

Fechei a mão em um punho cego e bati com força o ombro direito lacerado contra o piso duro. Um choque elétrico de pura agonia subiu pelo meu pescoço, dissipando a alucinação olfativa no ato. A dor era um farol, a única coisa real neste inferno de sucata.

— Status, — rosnei, a voz rouca arranhando a garganta.

Dois círculos pálidos se acenderam a uns dez metros à minha direita. Os olhos de Valéria cortavam a penumbra como LEDs defeituosos.

— Sistemas operacionais em 74%, — a voz fria dela ecoou com uma clareza clínica. O brilho dos seus olhos revelou vagamente a silhueta da poeira suspensa no ar. — Elias sofreu escoriações leves e contusão moderada no flanco esquerdo devido à onda de choque. Sinais vitais dele estão elevados, mas estáveis.

Ouvi um gemido fraco, seguido pelo barulho de alguém se arrastando.

— Eu... eu tô inteiro, Gabo, — a voz de Elias tremia, abafada pela tosse. — A gente matou aquela coisa?

Forcei-me a ficar de pé, apoiando o peso na perna direita. A órtese esquerda estalou com a delicadeza de ossos quebrando quando tentei alinhar a junta. O servo guinchou, cravando uma agulha de calor nos ligamentos que ainda restavam no meu joelho. Tranquei a mandíbula, saboreando cada segundo do desconforto mecânico.

— A estrutura inteira do guindaste caiu em cima dela, garoto, — respondi, mancando em direção ao brilho dos olhos de Valéria. — Se algo do tamanho de um tanque sobrou debaixo daquilo e ainda se mexer, nós corremos. E muito.

— E as outras três?

— Duas foram soterradas junto com ela. Nenhuma assinatura térmica remanescente. — Uma pausa curta. — A terceira recuou para o fosso de carga antes do desabamento e continua ativa, a cento e dez metros, imóvel. Ela não está nos seguindo. Está esperando.

— Esperando o quê?

— Insuficiente. Sugiro não descobrir.

Valéria ativou uma pequena lanterna tática acoplada ao antebraço. O feixe branco e estreito varreu o fosso de impacto. Era uma visão de devastação absoluta. Vigas retorcidas de aço enferrujado formavam um túmulo impenetrável sobre a massa desmembrada do colosso. Fluidos hidráulicos escuros, espessos como sangue coagulado, vazavam por entre as frestas, misturando-se com a fuligem da Praga de Ferro.

— O caminho principal foi obliterado pelo desabamento, — analisou Valéria, o feixe de luz acompanhando o desastre estrutural. — No entanto, a falha geológica forçada revelou um duto de escoamento industrial abaixo da câmara principal. Probabilidade de conectar ao subnível adjacente é de 82%.

A luz iluminou um buraco escancarado no concreto esmagado, flanqueado por barras de vergalhão tortas, como os dentes de uma boca faminta. Cheirava a água estagnada e cabos derretidos.

— Então é por ali que a gente segue, — suspirei, ejetando os cartuchos vazios da minha escopeta e recarregando com movimentos mecânicos. O metal frio e o cheiro de pólvora me ancoravam ao presente.

Elias se aproximou, o rosto manchado de poeira e pavor. Ele olhou para o fosso escuro.

— Vocês têm certeza? Parece o tipo de lugar onde as pessoas desaparecem.

— Pessoas desapareceram faz tempo, Elias, — murmurei, arrastando minha perna mecânica com um estalo ritmado, o som ecoando no vazio. — Nós somos tudo o que sobrou.

Mergulhamos no buraco. A descida foi um exercício excruciante de tentar não forçar meu ombro fodido. A cada tranco, eu me certificava de que estava desperto, a dor afugentando os fantasmas do passado. O túnel fedia a decomposição esquecida e umidade. A lanterna de Valéria varria os conduítes cobertos de limo cinzento nas paredes curvas, guiando-nos pelas entranhas oxidadas do Setor 6. Não havia retorno, apenas a descida inexorável para o abismo silencioso.