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Capítulo 212: O Batismo de Sangue Congelado

O corredor além da porta de manutenção era um tubo de concreto banhado na penumbra azulada de lâmpadas de emergência falhas. O ar, se é que se podia chamar aquilo de ar, era uma mistura densa de poeira metálica e o odor acre da necrose térmica. A geada negra havia avançado aqui com uma ferocidade cega. Onde antes deveriam existir cabos de força e tubulações industriais, agora repousava uma amálgama profana de raízes botânicas mortas e metal esfarelado.

A Praga de Ferro encontrava o Jardim, e a guerra silenciosa entre os dois havia transformado a câmara de conexão num abatedouro congelado.

— A biomassa obstrutiva apresenta uma densidade de oitenta por cento no eixo principal, — informou Valéria. A voz plana dela quebrou o silêncio lúgubre, destituída de qualquer sobressalto. Ela caminhava à frente, o braço biônico escaneando o ambiente com precisão cirúrgica. — A temperatura crítica induziu um estado de hibernação na estrutura orgânica, mas o tecido retém reatividade cinética.

— Em português, Valéria, — resmunguei, apertando o cabo da minha escopeta com a mão direita até os nós dos dedos empalidecerem.

— Se você bater neles, Gabo, eles vão tentar comer sua arma antes de congelarem novamente, — concluiu ela, parando diante de um paredão de raízes negras calcificadas pelo óxido que bloqueava nosso caminho.

Elias soltou um ganido sufocado. Ele estava trêmulo, agarrando o cano de sua pistola improvisada como se fosse um amuleto religioso. O terror estava estampado em seus olhos dilatados, refletindo o desespero de um civil arrastado para o inferno corporativo.

— Nós não vamos conseguir passar... — murmurou o garoto, a voz embargada. — Olhe para isso, Gabo. É sólido. Nós vamos morrer aqui de frio.

Fechei os olhos por um segundo. A menção de estar preso em um ambiente hostil fez a memória olfativa traiçoeira engatilhar na base do meu crânio. Um fio ralo da fumaça fantasma de charuto ameaçou materializar-se no ar gélido, buscando meus pulmões para sufocá-los no trauma de sempre.

Não hoje.

Projetei todo o meu peso no pé esquerdo, forçando a órtese danificada muito além de sua capacidade nominal de carga. O metal rangeu e estalou, e um espasmo de dor pura, mecânica e visceral, cortou minha perna do joelho ao quadril. O uivo mudo que eu segurei na garganta foi o suficiente para destroçar a alucinação. A fumaça desapareceu, substituída pela hipervigilância garantida pela agonia orgânica.

— Ninguém vai morrer de frio, garoto, — afirmei, minha voz saindo rasgada, pesada como chumbo. — Nós somos o barulho.

Dei um passo à frente, mancando severamente. Levantei a escopeta com a mão boa, apoiando o cano contra o centro da massa necrótica.

— Recuem, — ordenei.

Valéria deu três passos para trás milimetricamente calculados. Elias tropeçou nos próprios pés se afastando.

Puxei o gatilho. O estrondo ensurdecedor da arma calibre doze reverberou pelo tubo de concreto confinado. A massa de raízes mortas explodiu numa chuva de farpas negras e pó de ferrugem. Imediatamente, os tentáculos adjacentes se contorceram, ativados pelo choque cinético, tentando agarrar o cano quente da escopeta. A necrose térmica os desacelerava, tornando seus movimentos pesados, quase letárgicos.

Era a brecha que eu precisava.

Engatei a escopeta nas costas e usei a prótese do meu braço amputado. A pesada garra industrial não calibrada desceu como uma marreta impiedosa sobre a biomassa ferida. Cada golpe enviava ondas de dor nauseante pelo meu ombro rasgado, mas eu ansiava por elas. A dor afastava o pânico. A dor limpava o caminho. Esmaguei a carne podre do Jardim misturada com o metal corroído da Praga de Ferro, abrindo um buraco irregular na parede biológica através da força bruta e da fúria concentrada.

Minhas mãos estavam cobertas por uma lama negra e gelada quando finalmente parei, arfando pesadamente, o suor congelando na minha testa.

Havia um túnel aberto à força diante de nós.

— Integridade estrutural comprometida, mas viável, — analisou Valéria, já se esgueirando pelo buraco fumegante.

Puxei o ar gélido para os pulmões purificados pela dor.

— Vamos, Elias. O inferno não vai esperar.