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Capítulo 64: A Cidade Fantasma

Sala de Controle do Núcleo

O caos era absoluto. O Taxidermista, por razões que só sua mente quebrada compreendia, estava atacando os seguranças da Aeterna. Talvez ele visse a digitalização da consciência como uma ofensa à sua "arte" da carne. Talvez ele apenas quisesse proteger Gabo para matá-lo depois.

Gabo não importava. Ele usou a distração para se arrastar até Val.

— Conseguiu?

— Quase... — Val suava frio. — Gabo, olhe isso.

Ela apontou para a tela.

Não era apenas um armazenamento passivo. O sistema estava simulando a Nova Baía em tempo real.

Na tela, Gabo viu a cidade perfeita. Ruas limpas, sol brilhando, pessoas felizes. Ele reconheceu rostos. Pessoas que tinham morrido na enchente. Pessoas que tinham sido assassinadas.

Eles não estavam apenas vendendo para os ricos. Eles estavam capturando os pobres.

— Eles estão usando as mentes dos "despejados" como NPCs — disse Val, horrorizada. — Como personagens não jogáveis para servir os ricos na simulação. Eles matam o corpo, copiam a mente e a escravizam no código.

Era a escravidão eterna.

— Apague — disse Gabo. — Apague tudo.

— Se eu apagar... eu mato todos eles. As cópias. Eles acham que estão vivos, Gabo.

Era o dilema moral definitivo. Salvar as cópias digitais e permitir que o ciclo de morte continuasse no mundo real? Ou desligar a máquina e cometer um genocídio digital para salvar os vivos?

Gabo olhou para Aria. Ela estava olhando para a tela, chorando silenciosamente.

Eles querem dormir — disse ela na mente de Gabo.

Eles não estavam felizes. Estavam presos.

— Faça, Val — ordenou Gabo. — Liberte-os.

Val digitou o comando final: FORMATAR C:. CONFIRMAR?

O dedo dela pairou sobre a tecla Enter.

Nesse momento, as portas blindadas do Núcleo se abriram.

Marco Moretti entrou. Ele não estava armado. Ele vestia um terno impecável e aplaudia lentamente.

— Bravo, Gabriel. Bravo. — Marco sorriu. — Você chegou mais longe do que eu esperava. Mas receio que você tenha entendido tudo errado.

Atrás de Marco, entrou Roberto Miranda, segurando Aria pelo braço. Ele tinha capturado a menina enquanto Gabo lutava.

— Solte ela! — gritou Gabo, tentando se levantar, mas suas pernas não respondiam.

— Acalme-se, irmão — disse Marco. — Valéria, afaste-se do console. Se você apertar essa tecla, a garota morre.

Val levantou as mãos, afastando-se do teclado.

Marco caminhou até o vidro que separava a sala de controle dos servidores.

— Você acha que eu sou o vilão, Gabo? Que eu estou vendendo a cidade para milionários fantasmas? — Ele riu. — Oh, que visão pequena.

Marco tocou o vidro.

— Eu não estou vendendo para eles. Eu estou vendendo eles.

A tela gigante mudou. Mostrou logotipos de corporações que Gabo não reconhecia. Nomes binários. IAs.

— O dinheiro humano não vale nada — explicou Marco. — O futuro é o processamento. As IAs que governam o mundo global... elas precisam de criatividade. De intuição. Coisas que elas não têm. A Nova Baía é uma fazenda de cérebros humanos digitalizados para servirem como... coprocessadores biológicos.

Gabo sentiu um frio na espinha.

— Você transformou a população da cidade em baterias.

— Em hardware — corrigiu Marco. — E a Aria... ela é o Sistema Operacional. A chave mestra que integra a carne ao código.

Marco fez um sinal para Miranda.

— Conecte-a.