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Capítulo 228: O Grupo de Controle

A primeira tiragem saiu às quatro e dez da manhã.

Doze mil cadernos de dezesseis páginas, papel de baixa gramatura, tinta que borrava se você passasse o polegar. Na capa, do tamanho da folha inteira, uma rubrica apertada e firme e um número. Nada mais. Elena tinha razão: não precisava de manchete. Um nome e quarenta e sete mil trezentos e onze são uma frase completa.

Eu estava sentado no chão do galpão, encostado numa pilha de caixas, ouvindo a rotativa bater. Não é um som bonito. É um som de máquina velha fazendo força, tchunc-tchunc-tchunc, e a cada batida saem dezesseis páginas que alguém tentou apagar por sessenta anos.

Melhor som que eu ouvi na vida.

Foi aí que o Elias apareceu com uma caixa que ele não devia ter aberto.

— Gabo. — Ele estava branco. — Essa aqui não é de admissão.


A caixa era menor que as outras e mais pesada, com reforço de metal nos cantos. A fita não era vermelha; era preta. E na tampa, datilografado numa etiqueta que já tinha sido colada e recolada várias vezes ao longo de décadas:

ESTUDO LONGITUDINAL 001 — LINHAGEM DE REFERÊNCIAACESSO: DIRETORIA E AUDITORIA

A Dra. Elara Vance rodou a cadeira até a mesa antes que eu pedisse.

Ela olhou para a caixa por um tempo desagradavelmente longo.

— Eu esperava que vocês não achassem essa.

— Doutora.

— Não por vergonha, inspetor. Por tempo. — Ela apoiou as mãos na tampa. — Essa é a única caixa deste arquivo que não serve para acusar ninguém. Ela só serve para explicar.

— Abre.

Ela abriu.


Não eram fichas. Eram pastas de acompanhamento. Grossas, com abas coloridas, do tipo que hospital usa para paciente crônico. E cada uma tinha um nome.

MORETTI, D.MORETTI, H.MORETTI, M.MORETTI, A.MORETTI, C.

E, no fundo, sozinha, mais gorda que todas as outras juntas, com a aba já sem cor de tanto ser manuseada:

MORETTI, G.

Fiquei olhando para o meu próprio sobrenome repetido seis vezes dentro de uma caixa de arquivo corporativo.

— Explica, — falei. E a minha voz não estava boa.

A Dra. Vance puxou a pasta do meu pai e abriu na primeira página.

— O Protocolo Lázaro tinha um defeito que nunca foi resolvido, — ela começou, e a voz dela virou aquela coisa seca de reunião. — Chamávamos de deriva. Uma mente extraída não fica parada. O padrão degrada. Em seis meses vira ruído; em dois anos, a personalidade dissolve e o que sobra é uma estrutura de dados que não corresponde mais a ninguém.

— Isso é bom, — disse Elena, da porta. Ela tinha parado de conferir a tiragem. — Isso significa que eles não conseguiam manter as pessoas.

— Isso significava que o produto estragava na prateleira, senhora. — A Vance não levantou a voz. — E um produto que estraga precisa de controle de qualidade.

Ela virou a página.

— Para medir deriva, é preciso comparar. E não se compara uma mente extraída com uma mente qualquer: a arquitetura neural é individual demais. É preciso comparar com outra mente parecida. Parentesco de primeiro grau dá uma linha de base compartilhada. Três gerações dão uma curva.

O galpão ficou muito quieto. Só a rotativa lá no fundo. Tchunc-tchunc-tchunc.

— Vocês não coletavam pessoas, — falei devagar. — Vocês coletavam famílias.

— Uma. — Ela levantou os olhos azul-gelo. — Nós coletávamos uma. Não é necessário mais de uma linhagem de referência, e cada uma custa décadas de acompanhamento.

— Por que a minha?

E aí ela fez a única coisa piedosa que eu vi ela fazer: hesitou.

— Por causa da assinatura do seu pai.


Ela puxou o documento e girou na mesa para eu ler.

Papel timbrado. Vinte e um anos atrás. Autorização de testes beta do sinal de saneamento comportamental no Distrito 4. E, no rodapé, a assinatura larga e apressada que eu conheço de bilhete de geladeira e de cartão de aniversário atrasado:

Dante Moretti — Consultor de Segurança Sênior.

— Ele assinou, — falei.

— Ele assinou achando que estava autorizando frequência de rádio para reduzir violência urbana. — A Vance bateu o dedo no papel. — E é exatamente por isso que ele foi escolhido, inspetor. Não pela genética. Pela assinatura.

— Não estou entendendo.

— Um consultor sênior que autorizou o programa não pode denunciar o programa. — Ela falou aquilo com a calma de quem explica juros compostos. — No segundo em que ele entendesse o que tinha assinado, ele estaria preso na própria caligrafia. Denunciar significaria confessar. O Viktor não escolheu a família Moretti porque vocês eram especiais. Ele escolheu porque o chefe da família tinha carimbado o próprio caminho de saída.

Eu me sentei. O joelho me obrigou.

— E funcionou, — ela continuou, mais baixa. — Quinze anos. Ele sabia, e não podia falar, e ficou lá dentro tentando corrigir por fora do papel. Foi por isso que ele mudou de estratégia e virou vírus em vez de testemunha. Não era heroísmo, inspetor. Era a única porta que sobrava.


Fui abrindo as pastas.

MORETTI, H. — Helena. Trinta e oito páginas de observação, e nenhuma linha sobre extração. Anotações sobre rotina, jardim, vizinhos, horário de mercado. Sujeito de contexto. Não coletar: a remoção desestabilizaria a unidade familiar. Minha mãe foi poupada por ser útil viva. Morreu numa enchente, e a última página é uma nota de dois dedos: perda não programada, ambiental.

MORETTI, M. — Marco. Muito mais fina. Cooperativo. Requer manejo por incentivo. Baixa prioridade de coleta. Meu irmão não foi comprado nem quebrado: ele foi classificado como barato, e a Aeterna acertou.

MORETTI, C. — Clara. Duas páginas. Nascida após início do estudo. Manter em observação. Não interferir. Isso é tudo. Minha irmã existe naquele arquivo como uma variável que ninguém teve tempo de usar.

MORETTI, A. — Aria.

Não consegui abrir essa.

Elena veio, sentou no chão do meu lado, pegou a pasta da minha mão e abriu ela mesma. Leu em silêncio, com o queixo travado. Depois fechou e ficou com a pasta no colo, as duas mãos por cima, como quem cobre uma criança dormindo.

— Ela tinha cinco anos, Gabo, — Elena disse. — Está escrito assim mesmo. "Substrato ideal: ausência de trauma acumulado, arquitetura em formação, custo de manutenção mínimo."

— Eles esperaram, — falei.

— O quê?

— A enchente. — Eu estava olhando para o chão. — Eles não mataram a nossa filha, Elena. Eles esperaram uma oportunidade ambiental e coletaram o padrão dela no meio de uma tragédia que ninguém ia investigar. Está escrito, na Helena: perda não programada, ambiental. Eles tinham vocabulário para isso. Eles tinham um campo no formulário.

Elena não disse nada. Só apertou a pasta com mais força.


Sobrou a minha.

Peguei a pasta MORETTI, G. e ela tinha o peso de um tijolo. Vinte e um anos de acompanhamento. Fotos — eu de uniforme, eu na formatura, eu saindo do hospital depois da Torre do Relógio, eu carregando o corpo da Bia. Relatórios de conduta. Transcrições de sessões da Dra. Weiss que ela jurou que ninguém leria.

E, na capa interna, o carimbo de status.

Não era ADMITIDO, como nas quarenta e sete mil fichas lá fora.

Não era COLETADO.

Era:

EM CAMPO — NÃO COLETAR — GRUPO DE CONTROLE

E abaixo, a rubrica. A mesma de sempre. Renovada a cada exercício, sessenta vezes, sessenta linhas, sessenta anos de um homem sentando numa cadeira uma vez por ano para reconfirmar, de próprio punho, que eu devia continuar solto.

V. KRELL. V. KRELL. V. KRELL.


Eu não gritei. Queria ter gritado.

— Doutora. — Minha voz saiu de muito longe. — O que é grupo de controle.

Ela demorou a responder.

— É o membro da linhagem que não se coleta, — ela disse. — Um estudo de deriva precisa de uma referência viva. Uma mente da mesma linhagem, exposta ao mesmo ambiente, submetida ao mesmo estresse — mas nunca extraída. Sem ela, não há contra o que medir a degradação das outras.

— Diz o resto.

— Inspetor—

Diz o resto.

— O resto o senhor já sabe.

E eu sabia. Deus, eu sabia havia uns dois minutos, e estava esperando alguém dizer em voz alta para eu não poder desconversar.

Quinze anos.

Quinze anos de emboscada que falhava por pouco. De atirador que errava. De prédio que desabava do lado certo. De Taxidermista que me quebrou inteiro numa torre de relógio e subiu de volta pela corda em vez de me dar um tiro na nuca. De Miranda com ordem de me partir mas nunca de me apagar. De Gamemaster que tinha uma cidade inteira de armas e escolheu me convidar para um duelo.

Do meu irmão dizendo, pela boca da Isadora: ele não quer te matar, ele quer te possuir.

Eu passei a vida inteira achando que sobrevivi porque sou difícil de matar.

Eu sobrevivi porque estava no protocolo.

Cada fuga foi uma soltura. Cada vitória foi um dado coletado. Eu fui o pássaro que eles deixaram fora da gaiola para poder medir o quanto os outros pássaros tinham murchado lá dentro.

— Val, — falei. — Confirma.

Valéria estava parada há um tempo, imóvel, com o azul dos olhos fixo na pasta.

— Cruzando os relatórios de incidente do arquivo com sua ficha de campo, — ela disse. — Trinta e uma ocasiões em que a força aplicada contra você foi documentadamente inferior à força disponível no local. Vinte e sete delas com anotação de autorização prévia.

— Autorização de quem?

— Da mesma rubrica.

Eu ri. Saiu quebrado.

— Ele me manteve vivo.

— Ele te manteve medível, — corrigiu a Vance. — Não é a mesma coisa, e o senhor precisa entender a diferença antes de sair daqui. O Viktor não tem apreço pelo senhor. Ele tem um controle experimental de sessenta anos, e nenhum cientista destrói um controle de sessenta anos na última semana.


Fiquei muito tempo sentado ali, com a pasta aberta no colo e a rotativa batendo lá no fundo, e o Elias e a Elena e a doutora e a Valéria esperando eu dizer alguma coisa.

E quando eu falei, não foi nada do que eu esperava que fosse sair.

— Então ele tem um problema.

Elena virou a cabeça.

— Como?

— Ele tem um problema, — repeti, e me levantei, com o joelho e a perna e o ombro e o toco reclamando todos ao mesmo tempo. — Sessenta anos ele me deixou vivo porque eu era mais útil solto. Isso funciona enquanto solto significa inofensivo.

Apontei com a mão que me sobrou para a porta do galpão, para o barulho, para as pilhas.

— Doze mil cópias saíram hoje. Amanhã saem mais doze. Na sexta são cinquenta mil, em onze assentamentos, com o nome dele na capa e o número embaixo.

Fechei a pasta.

— Pela primeira vez em sessenta anos, o grupo de controle contaminou o experimento.

A Dra. Elara Vance me olhou por um segundo inteiro.

E então ela sorriu — aquele sorriso feio, sem alegria nenhuma, de auditora conferindo um número que finalmente fecha.

— Agora ele vai ter que vir pessoalmente, — ela disse.

— É. — Enrolei o Colar de Sol no punho. — Vai.