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Capítulo 102: Raízes Amargas
Zona de Exclusão Sul - Sala de Controle do "Berçário"
O cheiro era o pior. Não cheirava a morte, nem a podridão. Cheirava a vida. Uma vida excessiva, doce e nauseante, como flores deixadas tempo demais em um vaso com água estagnada.
Roberto Miranda sorriu, e a pele sintética do lado esquerdo de seu rosto esticou-se com um ruído de plástico amassado.
— Vocês parecem confusos — disse ele, a voz saindo das caixas de som enferrujadas nas paredes, onipresente, enquanto sua boca humana apenas articulava as palavras em silêncio. — Esperavam o quê? Um vilão de desenho animado girando o bigode? Silas é um visionário, Gabo. Eu sou apenas... o gerente de recursos humanos.
Gabo manteve o revólver apontado para a cabeça humana de Roberto, embora suspeitasse que um tiro ali não faria muita diferença. O corpo do ex-policial era apenas um busto emergindo de uma maçaroca de cabos grossos, tubos de alimentação translúcidos e raízes negras que pulsavam como veias varicosas.
— Você está morto, Roberto — disse Gabo, a voz rouca. — Eu vi você queimar.
— O fogo purifica — a voz nos alto-falantes riu. — A carne queima, a gordura derrete, mas os dados... ah, Gabo, os dados persistem. A Aeterna tinha backups de todo o seu pessoal chave. Minha consciência foi salva trinta segundos antes do meu coração parar. E quando o "Jardineiro" precisou de alguém com experiência em... controle de pragas... ele me cultivou de novo.
Elena deu um passo à frente, a espingarda engatilhada. Seus olhos varriam os monitores atrás de Roberto. Telas de tubo antigas, verdes e âmbar, exibiam gráficos de crescimento celular e frequências cerebrais.
— Vocês não estão apenas cultivando monstros lá fora — disse ela, o horror amanhecendo em sua voz. — Aqueles "protótipos"... eles não são armas. São recipientes.
Roberto bateu palmas, um som úmido, já que suas mãos agora eram garras de osso fundidas ao metal da cadeira.
— Bingo, detetive. Sempre perspicaz. O mundo digital acabou, Elena. A "Nuvem" caiu. Mas as mentes que viviam nela... as consciências ricas e poderosas que compraram a imortalidade digital com a Aeterna... elas ficaram presas no escuro. Gritando no vácuo.
Ele se inclinou para frente, os tubos em suas costas chiando.
— Silas lhes ofereceu uma saída. Uma segunda chance. Não em silício, que enferruja e quebra. Mas em carne. Carne projetada, melhorada. O "Projeto Gênesis" não é sobre criar monstros. É sobre trazer os deuses de volta à terra.
Gabo sentiu o estômago revirar. Os monstros no átrio. As formas humanoides distorcidas. Não eram bestas irracionais. Eram ternos de carne esperando por seus donos.
— E você? — perguntou Gabo. — Quem está vestindo você, Roberto?
O olho humano de Roberto tremeu. Por um segundo, Gabo viu o homem que conhecera, o parceiro corrupto, mas humano. Então, o brilho vermelho no olho sintético intensificou-se.
— Eu sou eu mesmo, Gabo. Alguém precisava vigiar a colheita. E, francamente, a oferta de benefícios era irrecusável. Imortalidade. Força. E a chance de terminar o que comecei com você e sua... namoradinha.
Um tentáculo de metal e vinha chicoteou do teto, rápido como uma cobra. Gabo se jogou para o lado, as órteses de suas pernas estalando violentamente. A ponta de aço perfurou o chão de metal onde ele estava um segundo antes.
— Sem truques digitais hoje, Gabo — zombou Roberto. — Aqui embaixo, somos apenas nós e a biologia.
Elena disparou. O tiro de escopeta atingiu o ombro de Roberto, arrancando pedaços de carne pálida e circuitos. Ele nem piscou.
— Isso é rude.
Mais tentáculos desceram do teto escuro. O laboratório inteiro parecia estar vivo, uma extensão do corpo de Roberto.
— Aos monitores! — gritou Gabo, rolando para trás de uma bancada de metal enquanto um chicote biológico esmagava uma fileira de provetas.
— O que tem neles? — Elena se agachou ao lado dele, recarregando a arma com mãos trêmulas.
— Se ele é o gerente, ele tem uma lista. Precisamos saber quem eles estão trazendo de volta!
Gabo se levantou e disparou três vezes contra o rosto de Roberto. As balas ricochetearam em um campo de força sutil — não energia pura, mas uma barreira de esporos densos e ar comprimido que cintilou ao redor da cadeira.
— Vocês são obsoletos! — rugiu a voz amplificada. — Fósseis de uma era morta!
O chão tremeu. As raízes sob a cadeira de Roberto começaram a se erguer, levantando-o como um rei em um trono de pesadelos.
Elena correu para os terminais laterais, seus dedos voando sobre o teclado mecânico barulhento.
— Gabo! Segura ele!
— Estou tentando! — Gabo largou o revólver vazio e puxou a "Leviatã", seu lançador de projéteis. Ele só tinha uma granada incendiária caseira restante.
Ele mirou não em Roberto, mas no aglomerado de tubos de alimentação acima dele.
— Coma isso, seu desgraçado.
O projétil voou em um arco perfeito. Explodiu ao contato com os dutos de nutrientes. Um líquido verde fluorescente jorrou sobre Roberto, sibilando como ácido.
Ele gritou — um som humano de dor genuína desta vez. A barreira de esporos falhou.
— AGORA! — berrou Roberto, cego pelo fluido químico.
As portas laterais da sala se abriram. Dois dos "Protótipos" entraram, movendo-se com aquela agilidade quebrada e perturbadora.
— Elena! — chamou Gabo, recuando para a parede.
— Achei! — Elena arrancou uma folha de papel contínuo que a impressora matricial do terminal estava cuspindo. — Gabo, temos que ir! Eu sei onde ela está!
— Quem?
— Elara! Ela não está morta, Gabo. Ela está na fila de processamento! Eles vão apagar a mente dela para usar o corpo!
Um dos protótipos saltou sobre Gabo. Ele usou o antebraço protegido por uma braçadeira metálica para bloquear as garras, sentindo o metal chiar sob a pressão. O cheiro da criatura era de amêndoas amargas e terra molhada.
Gabo urrou, ativando os pistões hidráulicos de sua perna direita e chutando o joelho da criatura. O osso estalou com um som seco. A coisa caiu, e Gabo aproveitou para descarregar a coronha do lançador no crânio sem rosto.
— Saída de emergência! Atrás dos servidores! — apontou Elena.
Gabo agarrou o braço dela e eles correram. Atrás deles, Roberto, ainda limpando o ácido dos olhos biônicos, gritava ordens para o sistema.
— Fechem as comportas! Inundem o setor! Não deixem a semente escapar!
Eles se jogaram contra uma porta pesada com a inscrição "SISTEMA DE DRENAGEM". Gabo girou a roda de bloqueio, seus músculos gritando. A porta cedeu com um gemido de metal enferrujado.
Entraram em um túnel escuro e úmido, o som de água correndo ecoando nas paredes. Gabo travou a porta por dentro, girando a roda até travar. Segundos depois, algo bateu contra o outro lado, fazendo a poeira cair do teto.
Ficaram em silêncio por um momento, apenas o som de suas respirações ofegantes preenchendo o escuro.
— Você está bem? — perguntou Gabo, acendendo um sinalizador químico que banhou o túnel em luz vermelha.
Elena assentiu, apertando o papel impresso contra o peito.
— Gabo... a lista. Não é só a Elara.
Ela estendeu o papel para ele. Sob a luz vermelha trêmula, Gabo leu os nomes. Eram centenas. Políticos, criminosos, cientistas. Todos "falecidos" durante o colapso. Todos aguardando "reencarnação".
Mas um nome no final da lista fez o sangue de Gabo gelar.
ID: 001 - STATUS: PRIORIDADE MÁXIMA - AGUARDANDO HOSPEDEIRO VIÁVELNOME: DANTE MORETTI
Gabo amassou o papel, sentindo uma náusea súbita.
— Eles querem meu pai — sussurrou ele. — O Cubo... a "Coroa"... é a chave para baixá-lo.
— Roberto disse que eles querem trazer os deuses de volta — disse Elena, sua voz dura. — Seu pai não era um deus, Gabo. Mas ele sabia onde todos os corpos estavam enterrados. Literalmente.
Gabo olhou para a escuridão do túnel à frente. O caminho para o inferno não era pavimentado com boas intenções. Era pavimentado com raízes, carne e códigos antigos que se recusavam a morrer.
— Vamos achar a Elara — disse Gabo, guardando o papel no bolso, ao lado do Cubo que parecia pesar uma tonelada. — E depois, vamos queimar esse jardim até o chão.
