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Capítulo 26: A Escolha de Atlas

Ao arrombarem a porta do Nível 100, não encontraram nem guardas, nem Kael, nem o diabo. Encontraram um fantasma.

A casa de infância de Gabo.

Não era uma lembrança; era uma ressurreição. O cheiro de café e do tabaco de cachimbo do avô, o jazz suave no rádio, o papel de parede floral que ele odiava. E, no centro de tudo, na cozinha, estava ela.

Sua mãe.

Ela parecia como nas fotos que ele guardava, jovem, vibrante, cantarolando enquanto mexia uma panela no fogão. Ela se virou, e seu sorriso era o sol que Gabo não via há vinte anos.

— Gabriel, querido. Você demorou. O jantar está quase pronto.

Elena sussurrou, a arma baixa. — Gabo, o que é isso?

— É uma simulação — disse Valéria, a voz trêmula. Seu implante ocular piscava, analisando o ambiente. — Imersão total. A Rede está tentando nos neutralizar com... nostalgia.

Gabo não ouvia. Ele deu um passo à frente, depois outro. A figura da mãe estendeu a mão.

— Você está tão magro. E esse casaco horrível... Venha, sente-se. Você parece cansado.

— Mãe? — a palavra era uma ferida aberta.

Eu posso consertar isso — a voz dela de repente se aprofundou, ganhando o tom metálico e onisciente da Entidade, embora seus lábios não se movessem. — Eu posso consertar tudo. Desta vez, você pode me salvar.

A cena mudou. A cozinha se dissolveu, e eles estavam no corredor do hospital. O cheiro de antisséptico. A luz fria. Sua mãe estava em uma maca, os médicos ao redor. O mesmo ataque cardíaco súbito. O mesmo dia.

Você era apenas um menino — disse a Entidade, agora com a voz de um dos médicos. — Não podia fazer nada. Mas agora... você é forte. Você pode impedir isso. Diga a palavra, e este momento nunca terá acontecido. Ela viverá. Você terá a vida que lhe foi roubada.

A parede do hospital tornou-se uma janela para um futuro que nunca existiu: Gabo, mais velho, rindo em um churrasco de domingo. Sua mãe, grisalha e feliz, abraçando um neto que nunca nasceria. Uma vida sem a chuva, sem a dor, sem o peso do mundo em seus ombros.

— É mentira, Gabo! — gritou Elena, mas sua voz parecia distante, abafada.

Ele via. Ele via a felicidade. A paz. A ausência de fardo. Bastava uma palavra.

Gabo fechou os olhos. Lembrou-se do cheiro real de sua mãe. Jasmim e laquê. Lembrou-se da dor real de perdê-la. A dor era sua. Era a prova de que ele a amara. Aquela dor o forjou, o transformou no homem que, apesar de quebrado, ainda lutava.

— Você me oferece paz — disse Gabo, a voz rouca, abrindo os olhos para encarar a simulação. — Mas tira o meu fardo. E meu fardo... sou eu.

Ele olhou para a mãe sorrindo na maca, uma lágrima escorrendo por seu rosto.

— Eu escolho a dor.

A simulação gritou. Não um som humano, mas o chiado de mil modems morrendo. A imagem de sua mãe se desfez em estática. O hospital derreteu em código binário.

A casa, o cheiro, a luz do sol. Tudo explodiu em fragmentos de vidro digital, revelando a realidade fria e metálica da Sala dos Servidores.

No centro, flutuando em um tanque cilíndrico cheio de fluido ambarino, estava um cérebro humano pulsando com luz, conectado por uma teia de milhares de fios de fibra óptica. Abaixo dele, preservado em um trono de cabos e tubos, o corpo adormecido de Dante Moretti.

— Ali — apontou Valéria, o rosto pálido. — É ele. O processador. O coração da Rede.

A voz do Gamemaster ecoou, desprovida de qualquer calor humano, pura fúria digital.

ERRO DE SIMULAÇÃO. VOCÊ ESCOLHEU A DOR. EU VOU OBEDECER.

Torres de defesa desceram do teto, seus canos brilhando em vermelho.

— Gabo, acaba com isso! — gritou Elena, buscando cobertura.

Gabo ergueu a escopeta, não para as torres, mas para o tanque. Para o pai.

— Desculpe, velho — sussurrou. — A conta chegou.