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Capítulo 116: Pressão Crítica
O mundo explodiu em branco.
Não foi um flash de luz, mas de som e temperatura. Quando a carga da Caronte rasgou a tubulação principal de vapor, a física assumiu o comando. A pressão de mil atmosferas, contida por décadas em encanamentos de ferro-gusa, encontrou uma saída. O rugido foi o de um titã despertando, alto o suficiente para fazer os dentes de Gabo vibrarem no crânio.
— AGORA! — ele rugiu, mas sua voz foi engolida pelo caos. Ele agarrou o braço de Valéria, puxando-a para baixo.
O jato de vapor superaquecido atingiu os sensores óticos e térmicos do corredor como uma marreta. As câmeras estouraram. O gás paralisante que começava a descer foi violentamente dispersado pela turbulência térmica. Era uma aposta estúpida: trocar asfixia química por queimaduras de terceiro grau.
Gabo sentiu o calor lamber seu rosto através do lenço improvisado. Era úmido, pesado, com gosto de metal fervido.
— Aria! Visão térmica! — Valéria gritou, tossindo.
A androide estava parada no meio do inferno branco, imune à dor, mas não à física. O fluxo de vapor fazia seu manto térmico ondular violentamente.
— Sensores saturados — a voz de Aria cortou o ruído, plana e sem pânico. — Eficiência visual reduzida a 12%. Detectando rota de fuga pela ventilação de serviço. Setor Norte. Sigam meu sinal.
Uma luz azul pulsou nas costas de Aria. Gabo empurrou Valéria naquela direção.
— Vá! Não pare por nada.
Eles rastejaram. O chão de grade metálica estava quente o suficiente para queimar através das luvas se ficassem parados por muito tempo. Acima deles, o sistema de extinção de incêndio da usina tentava combater o vapor com espuma química, criando uma lama tóxica que chovia sobre seus sobretudos.
— Interessante — a voz do Taxidermista ecoou nos alto-falantes, distorcida pela estática, mas ainda irritantemente calma. — Você luta como um animal encurralado, Gabriel. Destruindo a própria jaula, mesmo que os estilhaços o cortem. Dante sempre disse que sua imprevisibilidade era um defeito. Eu começo a achar que é sua única qualidade.
Gabo ignorou. Ele chutou uma grade de ventilação que Aria havia enfraquecido com um pulso magnético. O metal cedeu com um clang surdo.
— Dentro. Rápido.
O duto de manutenção era um pesadelo claustrofóbico de cabos e graxa velha. Valéria entrou primeiro, rastejando sobre os cotovelos. Aria foi em seguida. Gabo entrou por último, girando o corpo para cobrir a retaguarda com a escopeta. Sua perna direita travou — um espasmo agudo onde o metal encontrava o osso. Ele grunhiu, mordendo o lábio até sentir gosto de sangue, e forçou o corpo para dentro do buraco escuro.
Eles rastejaram por minutos que pareceram horas. O ar ali era rarefeito, cheirando a ozônio e algo mais... algo doce e podre.
— Gabo... — a voz de Valéria tremeu à frente. — Olhe para os cabos.
Gabo acendeu a lanterna tática acoplada à Caronte. O feixe de luz revelou o interior do duto.
Não eram apenas cabos de cobre e fibra ótica. Entrelaçados a eles, pulsando com uma bioluminescência fraca, havia nervos. Tecido orgânico cinzento, vascularizado, conectando os módulos de processamento da parede.
— O que é isso? — Gabo sussurrou, sentindo o estômago revirar.
— É uma rede neural úmida — Valéria respondeu, o horror em sua voz era palpável para alguém que vivia no mundo binário. — Ele não está apenas queimando os corpos, Gabo. Ele está usando os cérebros. A "Nova Alvorada"... ele está criando um supercomputador usando massa cinzenta humana como processadores paralelos.
— Processamento distribuído — a voz do Taxidermista sussurrou, vindo de um pequeno transceptor de manutenção na parede. — O cérebro humano é uma máquina maravilhosa, detetive. Infinitamente mais eficiente em termos de energia do que o silício. Desperdiçá-lo seria um pecado. Aqui, os viciados, os esquecidos, os "Drenados"... eles finalmente têm um propósito. Eles pensam por Dante. Eles sonham a cidade.
Gabo sentiu a mão tremer. O cheiro de decomposição tecnológica ativou um gatilho profundo. De repente, a alucinação de fumaça cinzenta e sufocante invadiu sua mente, como se o ar do duto se transformasse nas nuvens tóxicas de seu passado, fechando sua garganta.
Foco.
Ele apertou o Colar de Sol. A borda de metal cortou a pele da palma da mão, e ele aproveitou para socar com força o ferro em sua perna defeituosa. A dupla dor física excruciante rompeu a neblina irreal, clareando sua mente.
— Val, continue movendo — ele ordenou, a voz rouca. — Se eles são processadores, nós vamos puxar a tomada.
Eles chegaram a uma saída de serviço que dava para uma passarela superior no Subnível 3. O ar aqui era mais frio, mas o barulho de maquinaria pesada era ensurdecedor.
O rádio de Gabo estalou.
— ...tte... na escuta... aqui é Rangel... Câmbio!
Gabo ativou o comunicador de garganta.
— Rangel? Qual a situação?
— Ruim! — A voz do ex-inspetor vinha acompanhada do som inconfundível de fogo automático. — Estamos na Doca de Carga B. Os drones "Jardineiros" nos cercaram. Estou com pouca munição e o caminhão foi inutilizado. Preciso de suporte ou não vamos sair daqui!
Valéria olhou para Gabo, os olhos arregalados manchados de graxa e fuligem.
— Temos que voltar. Temos que ajudar o Rangel.
Gabo olhou para baixo, para o abismo de máquinas e "processadores" humanos. E então olhou para frente, onde uma porta blindada maciça exibia o símbolo de risco de radiação e a inscrição: NÚCLEO DE RESFRIAMENTO.
O relógio mental de Gabo tiquetaqueava. A janela de vulnerabilidade térmica de Dante estava se fechando. Se eles voltassem para a Doca, perderiam a chance de sabotar o núcleo. Se seguissem em frente, Rangel provavelmente morreria.
Era a escolha de Sofia, versão hardboiled.
— Gabo! — Valéria insistiu.
Ele olhou para Aria. A androide com o rosto de Bia o encarava sem expressão, calculando probabilidades.
— A probabilidade de sobrevivência do Inspetor Rangel diminui 8% a cada trinta segundos — disse Aria. — A probabilidade de sucesso da missão cai para 0% se perdermos a janela térmica.
Gabo fechou os olhos por um segundo. Ele viu o rosto de Rangel, o homem que desistiu de tudo para fazer a coisa certa. E viu a cidade lá fora, a chuva, os milhões de pessoas presas no pesadelo de Dante.
Ele abriu os olhos. Eram frios como o aço de sua arma.
— Rangel — Gabo disse no rádio. — Segure a posição.
— O quê? Gabo, estou dizendo que...
— Segure a posição! — Gabo gritou. — Crie o máximo de barulho que puder. Atraia a atenção deles.
Houve um silêncio no rádio, quebrado apenas pelos tiros ao fundo.
— ...Entendido — a voz de Rangel veio mais baixa, resignada, mas firme. — Vou dar a vocês o tempo que precisam. Façam valer a pena, Moretti. Rangel fora.
Valéria olhou para Gabo como se ele fosse um estranho.
— Você o abandonou.
— Eu fiz uma escolha — Gabo respondeu, virando-se para a porta do Núcleo. Ele engatilhou a Caronte. — Vamos garantir que a morte dele não seja em vão. Aria, abra essa maldita porta.
