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Capítulo 47: Cerco Anfíbio

Capítulo 47: Cerco Anfíbio

Capítulo 47: O Mecanismo da Queda

Torre do Relógio, Distrito Baixo (Inundado).

O som não era de água. Era de tempo.

Centenas de relógios preenchiam as paredes circulares da torre antiga, um pesadelo de latão e engrenagens que tiquetaqueava em desarmonia. Mas Gabo sabia que aqueles não eram relógios comuns. Os pêndulos eram costelas humanas. Os pesos eram fêmures calcificados.

O "Relojoeiro" — o tal Taxidermista que a polícia vinha caçando há meses — havia transformado o lugar em um templo à sua loucura: a crença de que a carne é temporária, mas a engrenagem é eterna.

— Você está atrasado, detetive — ecoou a voz, vindo de cima, nas sombras das vigas.

Gabo apontou a lanterna para o alto. A água da enchente já batia em seus joelhos, subindo rápido. O Dilúvio lá fora estava rompendo as comportas.

— Desça! — gritou Gabo, a "Caronte" firme em suas mãos. — Acabou. O prédio está condenado.

— Tudo está condenado, Sr. Moretti. — O Taxidermista desceu por uma corda de roldana, um vulto esguio com avental de açougueiro e óculos de lentes grossas. — Carne apodrece. Pulmões falham. Apenas o mecanismo perdura.

Gabo disparou.

Foi um erro. O tiro ecoou, mas o Taxidermista não estava lá para ser atingido. Ele puxou uma alavanca de ferro enferrujada.

O chão sob os pés de Gabo — um tablado de madeira podre — se abriu.

Ele caiu. Não na água, mas em um fosso de manutenção seco, três metros abaixo. O impacto lhe tirou o ar, mas ele rolou, tentando se levantar. Foi quando ouviu o som de correntes se soltando.

— O tempo é peso, detetive.

Gabo olhou para cima a tempo de ver um contrapeso de duas toneladas — um bloco de ferro maciço usado para o sino da torre — despencando.

Ele tentou se jogar para o lado.

Não foi rápido o suficiente.

CRACK.

O som não foi metálico. Foi úmido. O bloco atingiu suas pernas e a base da coluna com a força de um julgamento divino. A dor não veio imediatamente; o que veio foi um clarão branco e, depois, o silêncio absoluto em metade do seu corpo.

Gabo tentou gritar, mas o ar não entrava. Ele olhou para baixo. Suas pernas estavam presas, esmagadas sob a massa de ferro.

O Taxidermista desceu calmamente pela escada lateral. Ele parou ao lado de Gabo, que tentava, inutilmente, empurrar duas toneladas de ferro com as mãos trêmulas.

O assassino se agachou. Cheirava a formol e óleo velho. Ele acariciou o rosto de Gabo com dedos manchados de reagente químico.

— Você ia passar a vida correndo atrás de bandidos, detetive. Correndo até seus joelhos falharem, até seu coração parar. — Ele sorriu, um sorriso triste. — Eu te dei um presente. Eu parei seu relógio. Agora você pode observar.

A água começou a transbordar da borda do fosso. Água suja, óleo, debris. O nível subia rápido.

— Você vai se afogar... — sussurrou Gabo, cuspindo sangue.

— Talvez. Mas eu flutuo. Você... você é uma âncora agora.

Com um estrondo final, a parede externa da torre cedeu à pressão da enchente. Uma parede de água invadiu o recinto. O Taxidermista foi varrido para as sombras superiores.

Gabo inspirou uma última vez antes que a água escura cobrisse seu rosto. Ele estava preso. Quebrado. Sozinho no escuro.

Naquela escuridão, Gabriel Moretti morreu. E algo muito mais frio começou a nascer.