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Capítulo 199: Engrenagens de Sangue

O eco molhado das passadas apressadas engolia todo o som no túnel, pontuado apenas pelo chiado agudo das minhas juntas pneumáticas. Elias corria ofegante à frente, seu medo fornecendo o combustível primitivo que os músculos exigiam, enquanto Valéria flanqueava nossa retaguarda com uma suavidade aterrorizante. Não havia urgência nos seus movimentos, apenas matemática aplicada à locomoção.

Atrás de nós, o guincho inumano da coisa recém-nascida rasgava a escuridão. O som era uma distorção grotesca: um híbrido de laringe humana rasgada e estática de rádio falhando. A praga não estava apenas reutilizando carne morta; estava integrando sistemas cibernéticos antigos em seus "filhos".

A cada cinco passos, a fumaça invisível rastejava para dentro dos meus pulmões. O cheiro de tabaco doce e mofado, espesso como piche, grudava nas paredes da minha garganta. O sorriso de Dante dançava na periferia da minha visão obscurecida pelo suor e pela fuligem.

— O alvo primário aproxima-se com velocidade de sete metros por segundo, — a voz fria de Valéria quebrou minha concentração febril. Ela nem sequer olhou para trás. — A taxa de interceptação ocorrerá em quarenta segundos se mantivermos o ritmo atual.

Minha perna esquerda protestou em um guincho metálico quando pisei em falso. O joelho avariado cedeu de novo, e o lodo espirrou no meu rosto. Eu já estava moído. O ombro direito latejava como um coração exposto, uma massa inflamada de carne rasgada pelo torque da prótese e pelas minhas próprias unhas. Eu não tinha mais onde me machucar sem comprometer fatalmente minha mobilidade.

Mas o cheiro de charuto estava lá, engrossando o ar, me asfixiando por dentro. O pânico de não conseguir respirar suplantava o medo da aberração às nossas costas.

Elias tropeçou à frente, derrubando sua lanterna desligada. O cilindro rolou ruidosamente, batendo contra uma grade de drenagem. A aberração reagiu instantaneamente ao ruído agudo, e o som dos seus membros arrastando no concreto acelerou exponencialmente.

— Eu não consigo... — Elias choramingou, encolhendo-se contra a parede enferrujada. — Minhas pernas não respondem...

— Probabilidade de sobrevivência do civil caiu para cinco por cento, — calculou Valéria, seus sensores brilhando impassíveis na penumbra. — Recomendo uso do indivíduo como isca orgânica para atrasar o predador em, estimadamente, vinte segundos.

Eu agarrei um vergalhão solto que despontava do pilar de concreto ao meu lado e envolvi minha prótese nele. Com um puxão bruto, arranquei o pedaço de ferro enferrujado de um metro e meio da parede, trazendo pedaços de alvenaria junto.

Eu precisava de clareza. Precisava espantar a fumaça maldita que já me fazia tossir compulsivamente. Sem pensar nas consequências a longo prazo, levei a ponta áspera do vergalhão até a base da minha prótese industrial direita, na junção nua de metal e carne carbonizada do meu toco.

Pressionei o ferro contra os nervos expostos da cicatriz e girei.

Um grito gutural rasgou minha garganta. A dor não foi apenas um choque; foi uma supernova branca explodindo dentro do meu cérebro. A intensidade foi tamanha que o cheiro do charuto desapareceu instantaneamente, substituído pelo gosto acobreado do meu próprio sangue quando mordi a língua com força.

A lucidez retornou, fria, brutal e focada.

— Levanta, seu rato, — rosnei para Elias, a voz gutural escorrendo raiva pura. Puxei ele do chão pelo colarinho, jogando-o na direção da porta do poço de elevação, que começava a se delinear nas sombras cerca de cinquenta metros à frente.

A aberração dobrou a esquina do túnel. Sob a fraca luz dos sensores de Valéria, a visão era perturbadora: um torso meio humano conectado a quatro apêndices aracnídeos feitos de tubos de refrigeração oxidados, fios e raízes azuis pulsantes. Não tinha rosto, apenas uma cavidade bioluminescente onde o crânio foi partido.

— Padrão de ataque detectado, — Valéria advertiu, detendo-se no meio do túnel. Ela assumiu uma postura rígida, calculista. — Vou engajar fisicamente para interceptar o trajeto.

Ela estava disposta a lutar porque a matemática do Modo de Segurança dizia que era a ação lógica para preservar minha integridade, o "alvo alfa".

— Não seja estúpida, lata velha, — cuspi, empurrando-a levemente e avançando com o ombro são. — Você não é invulnerável a ácido corrosivo, por mais implante que tenha enfiado nesse corpo. E eu não tenho tempo pra te remendar de novo.

Ergui a barra de ferro na mão direita, a bota da perna mecânica cravada firmemente no lodo.

A criatura saltou. O ar deslocado cheirava a carne podre e cobre derretido.

Eu não recuei. A dor pulsando da junta do meu braço mutilado mantinha minha mente mortalmente limpa. Antes que a massa bio-mecânica pousasse, usei minha prótese pesada para agarrar um grosso cabo de energia solto no teto.

Com o peso total do meu corpo, puxei o cabo para baixo no exato momento em que enfiei o vergalhão enferrujado diretamente na massa azul pulsante no peito da criatura.

A lança improvisada perfurou o núcleo. A criatura guinchou, caindo em cima de mim, o peso do chassi apodrecido pressionando meu corpo contra a parede. Mas não era esse o golpe final. Puxei o cabo desencapado e enterrei os fios vivos diretamente na poça de lodo em que a criatura repousava suas garras metálicas improvisadas.

Um estrondo surdo estremeceu a catacumba. Uma onda massiva de choque elétrico varreu a água imunda.

O impacto também subiu pelo vergalhão de metal que eu segurava, atravessando meu braço direito com a força de um soco de mil quilos. Fui arremessado para trás, batendo a nuca na base da porta do poço de elevação. Tudo ficou preto por um segundo eterno, engolido pelo zumbido estático da alta voltagem.

Quando a visão retornou, piscando e nublada, Valéria estava em cima de mim. O corpo da criatura fumegava, frito e imóvel no túnel inundado atrás dela.

— Integridade cardíaca irregular. Desfibrilação autônoma detectada. Dano neurológico não descartado, — a voz dela soou distante.

Eu ri, um som seco, doloroso e com gosto de fel, enquanto Elias destrancava histericamente a enorme roda manual da porta de pressão do poço de elevação.

— Se eu puder... andar... tô vivo. — Murmurei, forçando Valéria a me puxar para cima. Minha mão direita estava adormecida, espasmando por causa da corrente elétrica.

Nós atravessamos a porta pesada do poço e Elias fechou a trava circular com um estrondo de metal sólido, trancando a escuridão úmida e o cheiro podre para trás. A alucinação não havia retornado. A dor, leal e cruel, tinha cobrado o seu preço para me manter neste mundo.