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Capítulo 65: O Novo Inquilino

O Núcleo - Momento Zero

Miranda arrastou Aria até uma cadeira de interface no centro da sala. Cabos pendiam do teto como cobras mecânicas.

— Não! — gritou Gabo. Ele tentou se arrastar, puxando o corpo com os braços, mas Marco pisou em sua mão, esmagando os dedos.

— Fique no chão, onde você pertence — disse Marco, sem perder a compostura.

Miranda conectou o cabo na nuca de Aria. A menina gritou, um som que fez as luzes da sala piscarem violentamente.

— Iniciando upload — anunciou a voz do sistema.

As telas começaram a encher de código. A simulação da Nova Baía começou a se fundir com a realidade. As paredes da sala pareciam dissolver em pixels.

Marco olhava para tudo com fascínio messiânico.

— O fim da dor, Gabo. O fim da fome. Todos seremos um. E eu serei o administrador.

Val aproveitou que ninguém olhava para ela. Ela puxou seu deck de pulso. Ela não podia parar o upload, mas podia redirecioná-lo.

— Gabo! — gritou ela. — Preciso de tempo!

Gabo olhou para o irmão. O ódio queimava mais forte que a dor.

Ele viu o vidro da sala de servidores vibrando com a energia do upload.

Gabo tateou o chão. Sua mão encontrou a "Leviatã" — o lançador compacto que ele tinha arrastado consigo, mas que estava sem carga.

Não, espere. Tinha uma carga. A carga EMP (Pulso Eletromagnético).

Ele não podia atirar em Marco sem acertar Aria.

Mas ele podia atirar na água.

Gabo girou o corpo, apontando a arma para o vidro blindado que continha milhões de litros de água de resfriamento.

— Marco! — gritou Gabo.

O prefeito virou-se.

— O que você vai fazer com um tubo vazio?

— Vou te dar um banho — disse Gabo.

Ele puxou o gatilho.

O foguete EMP atingiu o vidro. A explosão não foi de fogo, foi de choque. O vidro blindado, enfraquecido pela ressonância, estilhaçou.

O som foi como o fim do mundo.

Uma parede de água gelada e fluorocarbono invadiu a sala de controle, varrendo tudo. Servidores explodiram. Marco foi arremessado contra a parede. Miranda largou Aria, sendo levado pela correnteza.

Gabo foi submerso. O frio era paralisante. Mas ele nadou. Nadou em direção à cadeira onde Aria estava presa.

Debaixo d'água, ele viu a menina. Ela estava brilhando. Uma luz azul emanava de seus olhos e do cabo conectado a ela.

Gabo tentou soltá-la, mas o mecanismo estava travado.

De repente, a água ao redor deles parou. Congelou no tempo. Os detritos flutuavam imóveis.

Uma voz ecoou na cabeça de Gabo. Não a de Aria. Uma voz mais velha. Antiga.

"Acesso Concedido. Administrador Reconhecido."

Gabo olhou para a tela do terminal, que ainda funcionava debaixo d'água, protegida por campos de força.

O nome do novo proprietário da cidade tinha mudado.

Não era mais Marco Moretti. Nem o Consórcio Lázaro.

Na tela, em letras verdes brilhantes, estava escrito:

PROPRIETÁRIO: DANTE MORETTI.

Gabo olhou para Aria. Ela sorriu para ele debaixo d'água.

Seu pai não estava morto. Ele tinha se tornado a cidade.

E agora, o jogo tinha virado.

A água voltou a se mover, e a escuridão engoliu tudo.