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Capítulo 66: Respirar

O Núcleo - 10 segundos após a injeção do código.

A água não parou de subir. O vidro quebrado da contenção continuava jorrando o líquido refrigerante gelado e tóxico para dentro da sala de controle.

Gabo sentiu seus pulmões queimarem. Ele estava submerso, preso aos escombros de uma mesa de metal. Ao seu lado, o corpo inerte de um técnico da Aeterna boiava como um boneco de pano.

Respire, a voz de seu pai ecoou em sua mente, clara como se estivesse ao seu lado. Não é a sua hora.

Gabo usou o braço bom para se impulsionar. Suas pernas, pesadas pelas órteses molhadas e pela dor lancinante dos ossos recém-colados, eram um fardo. A rigidez era uma sentença de morte debaixo d'água. Mas então, algo agarrou seu colete tático.

Valéria.

Ela tinha uma máscara de oxigênio de emergência — daquelas pequenas, de fuga rápida — presa ao rosto. Ela ofereceu outra para Gabo, pressionando-a contra a boca dele.

O ar comprimido entrou com gosto de borracha e vida.

Val apontou para cima. A luz da superfície estava ficando distante. O nível da água subia rápido demais, preenchendo a cúpula da represa.

Gabo olhou para onde Aria estava. A cadeira de interface estava vazia. Os cabos flutuavam, desconectados.

Onde?

Val sacudiu a cabeça e apontou novamente para cima. Uma escotilha de manutenção no teto da cúpula.

Eles começaram a nadar. Gabo usava a força bruta dos braços, enquanto Val o auxiliava, puxando-o pelo colete. A água estava turva, cheia de papéis, equipamentos e corpos.

De repente, uma sombra passou por eles. Rápida. Mecânica.

Um robô CP-Z, a prova d'água, nadando com propulsores. Seus olhos vermelhos cortavam a escuridão. Ele mirou o arpão em Val.

Gabo não tinha como usar a escopeta debaixo d'água. Ele largou a máscara de oxigênio por um segundo, puxou a faca de combate da bota e, num movimento desesperado, lançou-se na frente de Val.

O arpão atingiu o ombro de Gabo, raspando o kevlar, mas não perfurou fundo. Gabo agarrou a cabeça do robô.

Dante. Pai. Ajuda.

O robô parou. As luzes vermelhas piscaram e ficaram azuis.

O CP-Z soltou o arpão. Ele agarrou Gabo e Val com gentileza surpreendente e ativou seus propulsores máximos, levando-os em direção à superfície.

Eles romperam a linha d'água, emergindo no lago externo da represa. A chuva caía torrencialmente, misturando-se à água do lago.

O robô os depositou na margem de concreto e depois afundou, imóvel.

Gabo arrancou a máscara, tossindo água e bile. Val caiu ao lado dele, tremendo de frio e choque.

— Aria... — Gabo tentou falar, mas a tosse o impediu.

— Estou aqui.

A voz veio de cima. Sentada em uma caixa de transformador, seca apesar da chuva, estava a menina. Ela segurava a boneca, mas seus olhos... seus olhos eram telas brilhantes de pura luz branca.

— O upload foi concluído — disse Aria. A voz dela tinha uma reverberação dupla. A voz de uma criança e a voz de um homem velho.

Gabo olhou para ela.

— Pai?

Aria inclinou a cabeça.

— Parte dele. Parte de nós. Parte da Cidade. — Ela olhou para a represa. — Marco Moretti fugiu. A correnteza o levou para os dutos de esgoto. Roberto Miranda também.

— Eles vão voltar — disse Val, checando seu deck, que piscava com erros. — E nós estamos expostos.

— Não — disse Aria/Dante. — A cidade mudou. Olhem.

Gabo olhou para o horizonte de Baía Cinzenta.

Os arranha-céus, antes escuros ou piscando com neons comerciais, agora pulsavam em um ritmo uníssono. Uma onda de luz azul percorria as avenidas, como veias bombeando sangue novo.

— Eu sou o Administrador agora — disse a menina. — E o aluguel venceu.

Gabo riu, uma risada dolorosa e rouca.

— E qual é o plano, senhorio?

— Despejo — disse Aria.

No céu, um drone da Aeterna Corp desceu, mas em vez de atacar, ele projetou um holograma na frente deles. Era um mapa de rota de fuga seguro.

— O Consórcio Lázaro sabe que perdeu o controle — disse Aria. — Eles vão tentar formatar a cidade fisicamente. Temos pouco tempo.

Gabo tentou se levantar, mas suas pernas falharam.

— Eu não consigo andar. As órteses pifaram.

Aria desceu do transformador e tocou as pernas metálicas do traje de Gabo. A energia azul fluiu de suas mãos para o metal morto.

Os servos zumbiram. Luzes acenderam. O sistema reiniciou com uma eficiência que nunca teve antes.

Protocolo de Assistência: Ativo — soou a voz do traje. — Otimização de Hardware: 200%.

Gabo se levantou. O traje parecia leve como uma pena. Ele se sentia mais forte do que nunca.

— Vamos — disse ele, carregando a escopeta. — Temos uma cidade para salvar.