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Metadados

  • Título: Ressonância
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 06:30
  • Localização: O Fliperama (Safehouse)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Aria (Reinicializando), Rangel (Estabilizado).
  • Resumo: Gabo enfrenta o silêncio opressivo do apagão e os sintomas físicos da abstinência. Valéria tenta reinicializar Aria, que acorda fragmentada entre seus protocolos de combate e as memórias herdadas de Bia Vargas. O capítulo termina com o som de sirenes analógicas, sinalizando que a trégua do escuro acabou.

Narrativa

Capítulo 125: Ressonância

O silêncio era a pior parte.

Em Baía Cinzenta, o silêncio não era a ausência de som. Era uma entidade física, pesada e viscosa, que preenchia os espaços deixados pelo zumbido constante dos servidores da Aeterna e pelo rugido do tráfego aéreo. Sem a eletricidade, a cidade era um cadáver gigante esfriando na chuva.

Gabo estava sentado na entrada do túnel de esgoto, as botas quase tocando a água oleosa que corria lenta. Ele observava a boca do túnel, onde a escuridão do subsolo encontrava a penumbra cinzenta da alvorada lá fora.

Suas mãos tremiam. Não de medo, nem de frio. Era a exaustão acumulada em seus músculos rasgados e o trauma não processado vazando pelas rachaduras de sua mente. Ele fechou os punhos, sentindo as unhas cravarem na palma da mão. O cheiro de lixo úmido do esgoto constantemente se transformava, em sua percepção estilhaçada, no odor ácido da fumaça de charuto de seu pai. Um fantasma olfativo que o sufocava, exigindo que ele sucumbisse ao pânico.

Ele levou a mão ao peito, tateando o Colar de Sol sob a camisa suja. A corrente de ouro barata, o único artefato que restara de sua mãe, estava fria contra a pele. Ele apertou o metal até doer, usando a dor física aguda para espantar a alucinação da fumaça. A dor era um substituto aceitável. A dor era honesta e cortava a neblina de sua mente.

— Gabo.

A voz de Valéria ecoou no concreto, soando metálica e exausta. Gabo girou nos calcanhares, a Caronte subindo instintivamente antes que ele reconhecesse a silhueta pequena parada na entrada do bunker.

— Como ele está? — Gabo perguntou, baixando a arma.

— Rangel está estável. A febre baixou meio grau. Ele resmungou algo sobre formulários em triplicata e apagou de novo. — Valéria esfregou os olhos cibernéticos. O brilho azulado de suas íris estava fraco, operando em modo de economia de energia. — Mas é a Aria. Você precisa ver isso.

Gabo seguiu Valéria de volta para o interior do "Fliperama". O ar lá dentro estava ficando viciado, quente com o calor corporal e o cheiro de ozônio dos equipamentos improvisados.

Aria estava sentada na cadeira de conexão, exatamente onde ele a deixara. Mas agora, os monitores ao redor dela cascateavam linhas de código em vermelho e âmbar.

— Eu consegui contornar o bloqueio lógico — Valéria explicou, digitando furiosamente em seu deck de pulso. — O hardware dela está intacto. O problema é a indexação de memória. O Crash na Usina misturou as partições.

— Em português, Val.

— Ela não sabe onde termina o software e onde começa a... doadora. — Valéria hesitou na palavra. — Os arquivos de personalidade de Bia Vargas. Eles vazaram para o núcleo operacional.

Gabo sentiu um frio na espinha que nada tinha a ver com a umidade do esgoto. Ele se aproximou da androide. O rosto de menina — o rosto de Bia — estava impassível, mas as pálpebras tremiam levemente, como em um sono REM agitado.

— O sistema está tentando deletar os arquivos corrompidos para liberar processamento — continuou Valéria. — O protocolo de autopreservação quer apagar as memórias "humanas" para salvar os drivers de combate. É lógico. É eficiente.

Ela olhou para Gabo, esperando a ordem.

— Se deixarmos o processo rodar, ela volta 100%. A arma perfeita. Mas... ela não vai lembrar de nada que não seja tático. Nem de nós, nem do porquê estamos lutando.

Gabo olhou para a tela. "ERRO DE INTEGRIDADE: ARQUIVO 'JAZZ_BARATO.MEM' CONFLITANDO COM 'PROTOCOL_KILL_V2.EXE'."

— Pare o processo — Gabo disse, a voz rouca.

— Gabo, isso vai deixar o sistema instável. Ela vai ter lags, alucinações...

— Pare o processo, Valéria.

Valéria suspirou, mas obedeceu. Seus dedos dançaram sobre o teclado holográfico.

— Abortando saneamento de disco. Forçando reinicialização com fragmentação.

A tela piscou. O zumbido das ventoinhas de resfriamento aumentou.

Aria abriu os olhos.

Não houve o brilho dourado costumeiro de quando ela acessava a rede, nem o azul frio de seus diagnósticos. Eram castanhos. Profundos, úmidos e terrivelmente humanos.

Ela olhou para o teto de concreto, confusa. Depois, seus olhos encontraram Gabo.

— Gabo? — A voz era dela. A voz de Bia. Não a síntese perfeita que Aria usava, mas algo quebrado, cheio de uma hesitação orgânica. — Por que está tão escuro? A gente... a gente perdeu o caso?

Gabo deu um passo para trás, como se tivesse levado um soco. Ele viu Valéria desviar o olhar, mordendo o lábio.

— Aria — Gabo disse, forçando a firmeza na voz. — Relatório de status.

A menina piscou. A confusão em seu rosto oscilou, como uma falha de transmissão de vídeo. Por um segundo, a postura relaxada e humana endureceu. A coluna endireitou-se com precisão mecânica.

— Inicialização completa — a voz mudou. O timbre metálico retornou, sobrepondo-se à suavidade anterior. — Múltiplos setores de memória danificados. Integridade do chassi: 94%. Nível de bateria: 12%. Detecto... — Ela parou, inclinando a cabeça levemente, como um cachorro ouvindo um apito. — Detecto ressonância acústica externa de baixa frequência.

— O que é? — Valéria perguntou, já monitorando os sensores sísmicos do bunker.

— Não é sísmico — Aria disse. Seus olhos piscaram, o castanho sendo substituído por um anel de dados vermelho giratório. — É analógico. Ondas sonoras de alta amplitude.

Gabo correu para a entrada do túnel, subindo a escada de ferro enferrujada até a grade de ventilação que dava para a rua.

O som chegou primeiro. Um lamento longo, grave e mecânico, que subia e descia em um ciclo de terror.

Não era um alarme digital. Não era uma notificação da Aeterna.

Era uma sirene de ataque aéreo. Velha, movida a manivela ou diesel, enferrujada pelo tempo, mas gritando com pulmões de ferro sobre a cidade morta.

— Sirenes — Gabo murmurou.

Lá fora, na escuridão da cidade sem luz, holofotes começaram a varrer o céu. Feixes de luz branca, dura, cortando a chuva.

Valéria surgiu atrás dele, segurando um tablet com estática.

— O que está acontecendo? A energia voltou?

— Não — Gabo disse, vendo um dos holofotes iluminar a torre distante da Delegacia Central. — A energia não voltou. A Ordem voltou.

O som das sirenes se multiplicou, ecoando nos prédios vazios. Era um som de guerra. Um som que dizia que o silêncio havia acabado, e que o barulho que viria a seguir seria muito pior.

Gabo desceu a escada, a mão firme na Caronte. O tremor nas mãos havia sumido.

— Acordem o Rangel — ele ordenou. — Estamos saindo.