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Capítulo 15: Protocolo de Extermínio

O ar no Distrito 4 tinha gosto de metal enferrujado e chuva velha. Eles corriam pelo labirinto de fábricas mortas, o som de seus passos ecoando no concreto úmido como batidas de um coração arrítmico.

Gabriel sentia cada fôlego queimar. Seus pulmões, castigados por anos de ar poluído, protestavam. O mero pensamento em fumaça trouxe uma onda de náusea, um asco visceral que ele esmagava sob o esforço da própria exaustão. Mas ele não podia parar.

— O mapa! — Valéria tropeçou, segurando o lado do corpo. Seu rosto estava pálido sob a luz dos postes piscantes. — O mapa do jogo atualiza nossa posição a cada 30 segundos! Eles têm acesso aos meus implantes!

— Desliga eles! — gritou Gabriel, puxando-a para a sombra de uma marquise gotejante. Ele olhou para trás. Nada além de escuridão e chuva, mas ele podia sentir os olhos da cidade sobre eles.

— Se eu desligar, eu morro! — Ela engasgou, limpando o suor frio da testa. — Eles controlam meu sistema nervoso autônomo! Minha respiração, meu batimento... é tudo driver proprietário agora.

Gabriel parou, segurando-a pelos ombros. Ela tremia violentamente, não de frio, mas de choque sistêmico.

— Eles hackearam você?

— Eu sou o GPS, Gabo. Eu sou a isca. — Ela olhou para ele, e pela primeira vez, Gabriel viu medo real naqueles olhos cibernéticos violetas. O medo de não ser mais dona da própria mente.

Um estalo seco cortou o ar.

Um pedaço de concreto da parede ao lado da cabeça de Gabriel explodiu, borrifando poeira em seu rosto. O som do tiro chegou um segundo depois, abafado pela distância e pela chuva.

— Sniper! — Gabriel empurrou Valéria para dentro de uma loja de departamentos em ruínas.

A porta de vidro estilhaçada cedeu, e eles caíram sobre um tapete de cacos e manequins quebrados. O lugar cheirava a mofo e sonhos de consumo abandonados. Manequins nus e sem rosto os observavam da penumbra, testemunhas silenciosas de sua caçada.

— Precisamos tirar isso de você — sussurrou Gabriel, verificando a pistola. Três balas. Ótimo.

— Não dá! Precisa de cirurgia! — Valéria encostou-se em um balcão, deslizando até o chão. Ela fechou os olhos, concentrando-se. — O sinal... parou.

— O Gamemaster pausou?

— Não, Gabo. Eu parei. — Ela abriu os olhos. O violeta estava mais escuro, quase negro. — Eu forcei um overflow no buffer de transmissão. Estou inundando o canal com lixo. Mas não vai segurar por muito tempo.

De repente, ela gritou. Um som agudo, de dor pura, levando as mãos à cabeça.

— O que foi?!

— Eles estão revidando! — Sangue começou a escorrer de seu nariz, uma linha vermelha escura contrastando com a pele pálida. — Estão tentando fritar meu córtex! O código... ele está em tudo. Nos semáforos, nas usinas, nos marcapassos.

Ela olhou para a rua através das vitrines quebradas.

— Eu mandei tudo que tinha a minha assinatura desligar. E tudo nessa maldita cidade tem a minha assinatura.

Lá fora, a iluminação pública piscou. Uma vez. Duas vezes.

E então, morreu.

Todas as luzes do Distrito 4 se apagaram em uníssono. O zumbido elétrico constante da cidade, aquele ruído de fundo que ninguém notava até sumir, cessou. O silêncio que se seguiu foi pesado, físico.

O escuro não era apenas ausência de luz. Era uma entidade.

— O que você fez? — perguntou Gabriel na escuridão.

— Eu puxei a tomada. — A voz de Valéria era fraca.

No silêncio, o som de motores se aproximando ficou claro. Motocicletas. Muitas delas. Rugindo como bestas famintas na noite.

— Eles cercaram o prédio — disse Gabriel, espiando pelas tábuas da janela. A única luz vinha dos faróis dos veículos da gangue "Filhos da Ferrugem". Eram silhuetas grotescas contra a chuva, brandindo correntes e canos. — Val, você consegue hackear o sinal do jogo?

— Não com eles dentro da minha cabeça! O ruído é muito alto! É como tentar sussurrar no meio de um furacão!

— Então vamos fazer barulho também.

Gabriel começou a arrastar os manequins para a entrada. Corpos de plástico oco raspando no chão.

— O que você vai fazer?

— Você disse que eles querem um show. Vamos dar um show. — O cinismo na voz de Gabriel era uma armadura tão eficaz quanto o kevlar.

Ele pegou um galão de fluido de isqueiro de uma prateleira empoeirada. O cheiro químico cortou o ar viciado. Ele encharcou os manequins.

— Saiam, ratos! — gritou o líder da gangue lá fora. — A gente quer a grana! A cabeça de vocês vale dez milhões de créditos!

Gabriel acendeu o isqueiro Zippo. A chama dançou, iluminando seu rosto cansado, realçando as olheiras profundas e a barba por fazer.

— Val, quando eu disser, você corre para os fundos. Existe uma saída de carga.

— E você?

— Eu vou cancelar a transmissão.

Gabriel jogou o isqueiro.

WHOOSH.

A barricada de manequins explodiu em chamas. O fogo consumiu o plástico rapidamente, criando uma fumaça negra e tóxica. As silhuetas humanas queimando na entrada pareciam almas condenadas dançando.

Ao mesmo tempo, Gabriel atirou nos extintores de incêndio presos no teto. A espuma química explodiu, misturando-se à fumaça, criando uma névoa branca e densa, impenetrável.

— AGORA!

Valéria correu. Gabriel ficou para trás, disparando através da fumaça e do fogo. Ele não mirava em nada específico, apenas criava caos.

Mas então, ele sentiu. Um zumbido grave. Não no ouvido, mas nos dentes.

A parede lateral da loja explodiu para dentro. Tijolos voaram como estilhaços de granada.

O "Executor" entrou.

Ele era imenso. Uma montanha de músculos sintéticos e placas de cerâmica balística. Sua armadura tinha tubos de neon verde que brilhavam através da fumaça como veias radioativas. Ele segurava um lança-chamas industrial modificado.

— Truques baratos, Detetive! — O Executor riu, a voz amplificada por um modulador de graves. — O público exige sangue real!

Ele apertou o gatilho. Um jato de fogo líquido cortou a loja, lambendo as botas de Gabriel. O calor foi insuportável, secando instantaneamente a chuva em suas roupas.

Gabriel rolou para trás de uma coluna de concreto. Ele estava encurralado. Sem munição. Sem saída. Apenas fogo e um monstro.

Ele olhou para cima. O teto da loja, enfraquecido pela umidade e falta de manutenção, exibia um lustre de cristal maciço — uma relíquia absurda de uma era de ouro esquecida —, pendurado por um único cabo de aço enferrujado.

— O público adora uma reviravolta — murmurou Gabriel, erguendo a arma.

Ele mirou não no Executor, mas no ponto de ancoragem do lustre.

Click.

Vazia.

Gabriel praguejou. O Executor avançava, preparando o golpe final.

Gabriel tateou o bolso, encontrou o último cartucho solto. Suas mãos tremiam. O Executor estava a cinco metros. Quatro.

Ele inseriu a bala na câmara. O metal frio contra a pele quente.

O Executor levantou o lança-chamas.

BAM!

O tiro acertou o cabo. O fio de aço, tencionado por décadas, estourou com um som de chicote.

O lustre de duas toneladas despencou.

O Executor olhou para cima. Por um segundo, a luz dos cristais refletiu em seu visor, uma beleza final antes do fim.

O impacto foi sísmico. O chão da loja, podre pela infiltração de água, cedeu sob o peso combinado do lustre e do ciborgue. Com um estrondo que sacudiu as fundações do prédio, ambos despencaram para o porão inundado abaixo.

O silêncio voltou, quebrado apenas pelo som da água engolindo o metal.

Gabriel correu para os fundos, tossindo fumaça acre. Seus olhos ardiam.

Ele encontrou Valéria na saída de carga, caída na lama do beco. Ela estava em posição fetal, mãos agarradas à cabeça, sangue escorrendo dos ouvidos e nariz, misturando-se à chuva na poça onde estava deitada.

— Val? — Gabriel se ajoelhou, virando-a. Ela estava gelada.

— Eu... eu consegui — sussurrou ela, os lábios azuis. — Eu não aguentava mais. O sinal deles na minha cabeça... era como mil agulhas. Eu o reverti. Criei um feedback loop.

Gabriel olhou para o céu, esperando o holograma do Gamemaster. Mas o céu estava vazio. Escuro. Sem anúncios. Sem drones.

— Você parou o jogo?

— Eu queimei a mesa de jogo. — Ela tentou sorrir, mas saiu como uma careta de dor. — A rede deles estava ligada à grade da cidade. Para controlar tudo. Ao fritar o servidor... eu causei uma cascata.

O gemido da cidade morrendo começou.

Primeiro, as luzes dos arranha-céus no centro piscaram e morreram. Depois, os hologramas de publicidade. Por fim, até as luzes de emergência.

A escuridão se espalhou como uma mancha de óleo, engolindo quarteirão por quarteirão. Baía Cinzenta, a cidade que nunca dormia, acabara de entrar em coma.

O som mudou. Sem o zumbido constante da eletricidade, outros sons emergiram: o vento uivando nos becos, vidros quebrando longe, gritos de pânico puro. O som da anarquia.

— O Apagão Total — disse Gabriel, olhando para o horizonte negro. Pela primeira vez em anos, ele podia ver a silhueta real dos prédios, esqueletos de concreto contra um céu sem estrelas.

— Eu fiz isso — chorou Valéria, agarrando a jaqueta dele. — Eu matei a cidade, Gabo. As pessoas nos hospitais... os sistemas de suporte...

— Você nos salvou — disse Gabriel, a voz dura, mas segurando a mão dela com firmeza. A mão dela era pequena e frágil na dele. — A cidade já estava morta, Val. Você só desligou os aparelhos.

Ele a levantou, apoiando o peso dela em seu ombro.

— Agora, no escuro... somos todos monstros iguais. Vamos.