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Capítulo 104: O Preço da Alvorada
Superfície - Acesso de Manutenção Sul
O primeiro sinal do mundo exterior não foi a luz, mas o cheiro.
Depois de horas respirando o ar reciclado, metálico e adocicado de sangue do Berçário, o fedor de ozônio, lixo molhado e maresia de Baía Cinzenta parecia perfume.
Gabo emergiu do bueiro de manutenção, puxando-se com os braços. Suas pernas, presas nas órteses danificadas, eram peso morto. O motor do joelho direito gemia e soltava faíscas a cada movimento, um protesto mecânico contra a violência que havia sofrido nas mãos de Roberto Miranda.
Ele rolou para o asfalto úmido, ofegante. O céu acima era de um cinza chumbo, clareando lentamente no leste. A alvorada estava chegando, uma mancha pálida tentando perfurar a camada eterna de poluição.
— Gabo? — A voz de Elena veio de baixo.
Ele se virou e estendeu a mão. Elena subiu, o rosto manchado de graxa e poeira, os olhos verdes arregalados de choque. Ela segurava a escopeta com tanta força que seus dedos estavam brancos.
E então, o terceiro.
Não houve esforço. Nenhuma respiração pesada. A figura simplesmente flutuou para fora da escuridão do túnel, impulsionada por uma força física que parecia contradizer a gravidade.
Dante Moretti pisou no asfalto.
Ele estava vestindo um macacão técnico cinza que haviam encontrado no vestiário da saída, mas ele o usava como se fosse um terno italiano sob medida. Seus pés estavam descalços.
Ele parou e fechou os olhos. Inspirou profundamente.
— Nitrogênio, oxigênio, dióxido de carbono... e traços significativos de enxofre — disse Dante. A voz era a dele, o timbre profundo e rouco que Gabo lembrava da infância, mas a cadência era estranha. Precisa demais. Sem as pausas para pensar, sem as hesitações de quem busca a palavra certa.
Dante abriu os olhos. Eles varreram a rua deserta, os prédios em ruínas, os cabos pendurados como teias de aranha mortas.
— A cidade está... quieta — observou ele.
— Nós desligamos tudo — disse Gabo, tentando se levantar, apoiando-se em um poste de luz enferrujado. — O Vazio. Lembra?
Dante virou a cabeça lentamente para Gabo. O movimento foi fluido, líquido.
— Eu lembro dos dados, Gabriel. O conceito de "Vazio" como estratégia de defesa contra a vigilância onipresente da Aeterna. Uma tática primitiva, mas eficaz. — Ele olhou para as próprias mãos, flexionando os dedos. — A sensação térmica é de 12 graus. A umidade é de 88%. É... ineficiente.
— É a realidade, pai — retrucou Gabo, a palavra "pai" saindo com um gosto de cinza na boca.
Dante sorriu. Não foi o sorriso caloroso que Gabo via nas fotos antigas. Foi um esgar de reconhecimento, uma emulação de afeto.
— Sim. A realidade. O hardware final.
Luzes azuis e vermelhas piscaram no fim da rua. O som de pneus cantando no asfalto molhado quebrou o silêncio.
Dois carros da polícia, modelos antigos recuperados, frearam bruscamente a vinte metros deles.
Inspetor Rangel saiu do primeiro veículo, a barriga forçando os botões da camisa, o revólver na mão trêmula. Atrás dele, o Oficial Silva e outros dois recrutas apontavam lanternas e armas.
— Parados! — gritou Rangel. — Gabo? Elena?
— Somos nós, Rangel! — gritou Elena, levantando as mãos vazias.
Rangel baixou a arma, soltando um suspiro que balançou seu bigode.
— Puta que pariu, vocês parecem que foram mastigados e cuspidos pelo diabo. O que aconteceu lá embaixo? O sismógrafo na delegacia registrou um abalo nível 4 na Zona Sul...
A voz de Rangel morreu na garganta.
Dante deu um passo à frente, entrando no feixe de luz dos faróis.
Os recrutas recuaram. Silva deixou a lanterna cair.
Rangel ficou pálido, a cor drenando de seu rosto redondo até deixá-lo com a aparência de cera velha.
— Co... Comissário? — sussurrou Rangel. — Mas... nós enterramos você. Eu carreguei o caixão.
Dante inclinou a cabeça.
— Inspetor Rangel. Seu nível de cortisol está elevado. Recomendo respirar fundo. E vejo que ainda não consertou o vazamento de óleo na viatura 04. Posso ouvir a válvula batendo daqui.
Rangel deu um passo para trás, esbarrando no capô do carro.
— Isso é impossível. É um truque. Um holograma. Gabo, que porra é essa?
Gabo mancou até ficar entre Dante e a polícia.
— Não é um holograma, Rangel. É... complicado. É o Projeto Gênesis.
— Gênesis? — Rangel olhou de Gabo para Dante, o medo lutando com a reverência em seus olhos. — O mito?
— A ciência — corrigiu Dante. Ele caminhou até Rangel. Os policiais tencionaram, dedos nos gatilhos.
Dante parou a um metro do inspetor. Ele estendeu a mão. Não para cumprimentar, mas para tocar o distintivo enferrujado no peito de Rangel.
— A lei ainda existe nesta cidade, Inspetor? Ou apenas a sobrevivência?
Rangel engoliu em seco.
— Tentamos manter a ordem, senhor. Do jeito antigo. Papel e tinta. Sem a Nuvem.
— Louvável — disse Dante. Ele retirou a mão e olhou para o horizonte, onde o sol finalmente rompia a barreira de fumaça, banhando a cidade em uma luz acobreada e doente. — Mas a sobrevivência não é suficiente. A cidade precisa de propósito. Ela precisa de... direção.
— O que você vai fazer? — perguntou Elena, a voz trêmula.
Dante se virou para ela. Seus olhos refletiam o nascer do sol, mas pareciam conter um abismo muito mais profundo.
— O que eu fui projetado para fazer, Srta. Moretti. Eu vou consertar.
Ele olhou para Gabo.
— O Vazio serviu ao seu propósito, Gabriel. Ele nos protegeu enquanto estávamos vulneráveis. Mas o silêncio acabou. Agora... nós vamos falar.
Gabo sentiu um calafrio percorrer sua espinha, mais frio que o vento da manhã.
— Falar com quem? A Aeterna se foi. Silas se foi.
— Com a infraestrutura — disse Dante, tocando a própria têmpora. — A rede física. Os cabos subterrâneos. Os relés analógicos. A cidade tem um sistema nervoso, Gabriel. E agora... eu sou o cérebro.
Ele começou a caminhar em direção à viatura de Rangel.
— Leve-me para a Delegacia, Inspetor. Tenho novos protocolos para ditar.
Rangel olhou para Gabo, buscando permissão, buscando sanidade. Gabo apenas assentiu, cansado demais para lutar, aterrorizado demais para intervir.
Enquanto Dante entrava no carro da polícia, Gabo percebeu.
Eles não haviam salvado o homem. Eles haviam trazido algo muito maior, e muito mais perigoso, de volta dos mortos.
O Comissário estava de volta. E Baía Cinzenta nunca mais seria a mesma.
