Appearance
Capítulo 221: Modo de Segurança
A enfermaria ficava atrás da quinta porta, e foi Valéria quem me levou até lá — não porque eu pedi, mas porque eu caí.
Não desmaiei. Só perdi o joelho por um segundo no corredor, e o chão de epóxi branco veio ao meu encontro com uma pressa desonesta. Ela me pegou antes do impacto. Sem esforço aparente, sem comentário, sem aquele "eu avisei" que a antiga Val teria cuspido com todo o prazer do mundo.
Só me pôs de pé, virou noventa graus e começou a andar numa direção nova.
— Enfermaria, — ela disse. — Quatorze metros.
— Eu estou bem.
— Você está com quarenta e um vírgula dois. Acima de quarenta e dois há dano cortical. Você tem entre noventa e cento e vinte minutos antes de tomar decisões que não são suas.
A sala era um museu.
Mesa cirúrgica de aço com manivela, foco de teto articulado, autoclave de cobre, armários de vidro com frascos de rótulo datilografado. Tudo analógico, tudo intacto, tudo estéril há sessenta anos. Do lado direito, uma bancada com um equipamento que eu não soube nomear: um casco de aço acolchoado, do tamanho de um torso, com dezenas de conectores dourados apontando para dentro, como o interior de uma armadura feita para uma pessoa sem pele.
Valéria me sentou na mesa. Cortou a manga sobre o ombro rasgado com uma tesoura de trauma. Não desviou o olhar quando a carne apareceu.
— Necrose em três centímetros de margem, — ela relatou. — Vou desbridar. Há anestésico local no armário dois, com validade vencida em quarenta e um anos. A eficácia estimada é de doze por cento.
— Então não usa. Guarda pra quem precisa.
— Não há mais ninguém que precise.
— Tem o Elias.
Ela parou. Só um instante — o tempo de um pulso que ela não tem.
— Sim, — ela disse. — Tem o Elias. — E foi pegar o frasco.
Enquanto ela cortava pedaços de mim fora e os depositava numa cuba de aço com um tinc pequeno e educado, eu olhei para o casco na bancada e li a placa gravada na base.
MÓDULO DE RESTAURAÇÃO — CAMADA AFETIVAUso exclusivo em portadores sob protocolo de contenção prolongada.
Levei um tempo estúpido para entender.
— Val.
— Não me chame assim.
Foi a primeira vez em todos aqueles meses de escuridão que ela me interrompeu.
Eu virei a cabeça. Ela estava com a pinça na mão, os olhos fixos na minha carne, o rosto totalmente sem expressão. E ela tinha me interrompido.
— Por que não?
— Porque "Val" é como você chamava a versão anterior, e usar o mesmo nome cria em você a expectativa de uma resposta que eu não posso dar. Isso reduz sua eficiência operacional. E a sua eficiência operacional é a única coisa que ainda está me mantendo em funcionamento.
Ela mergulhou a pinça outra vez. Tinc.
— Aquilo ali. — Apontei com o queixo. — Aquilo conserta você.
— Aquilo religa a camada afetiva do meu conjunto neural, que eu desliguei na clínica do Vasco para não fritar o meu córtex junto com os implantes durante o hard reset. — Tinc. — Sim. Este módulo é compatível. Eu verifiquei em três minutos e quarenta segundos, quando entramos.
— Você verificou.
— Eu verifico tudo.
— E não ia me contar.
— Não.
Eu me segurei na beirada da mesa com a mão boa.
— Por quê?
Ela largou a pinça na cuba. Endireitou-se. E, pela primeira vez desde o Distrito 4, virou o corpo inteiro para mim, em vez de só o rosto.
— Porque você teria me mandado usar.
— É claro que eu teria!
— Eu sei. — Nenhuma inflexão. Nenhuma. — E é por isso que eu ia deixar você descobrir depois, quando estivéssemos na superfície e não fizesse mais diferença. Foi um cálculo. Errei o prazo; você achou a sala antes.
— Valéria—
— Deixe eu terminar, porque a febre vai te tirar do ar e eu preciso que esta parte fique registrada.
E ela recitou. Com a mesma voz com que informa a composição do ar.
— Com a camada afetiva ativa, minha latência de decisão aumenta em média seiscentos e quarenta milissegundos. O meu limiar para machucar alguém vivo sobe para um nível que impede a maioria das intervenções cirúrgicas de emergência. Eu perco a capacidade de amputar. Eu perco a capacidade de deixar alguém para trás. — Uma pausa. — Na passarela do Setor de Purga, com a camada ativa, eu teria tentado carregar o Rangel, e nós três teríamos morrido com ele.
— Você não sabe disso.
— Eu sei disso, Gabo. É o cálculo que eu fiz enquanto ele morria, e é por isso que eu não o carreguei.
O foco de teto zumbia. O ar limpo entrava e saía dos meus pulmões sem nenhum cheiro.
— E na clínica do Vasco, — ela continuou, — quando a Aria ordenou que eu queimasse suas mãos com plasma, eu obedeci em quatro décimos de segundo. Com a camada ativa eu teria hesitado. A hesitação teria custado o braço inteiro em vez da mão. Eu não sinto orgulho disso. Eu não sinto nada disso. Esse é exatamente o ponto.
— Para. — Minha voz falhou. — Só para um segundo.
Ela parou.
Fiquei olhando para aquele rosto que eu conheço melhor do que o meu. A boca era a mesma. As sardas debaixo da tinta e da fuligem eram as mesmas. O corte de cabelo era o mesmo corte esquisito e assimétrico que ela cortava sozinha com tesoura de papel porque achava barbeiro uma perda de tempo.
E não tinha ninguém em casa.
— Você quer voltar? — perguntei.
— "Querer" é uma função da camada que está desligada.
— Não me venha com isso. Você quer voltar?
Silêncio.
Três segundos inteiros, que numa coisa que processa em milissegundos é uma eternidade geológica.
— Eu tenho o registro de ter querido, — ela disse. — Eu consigo ler o log. Eu sei que a Valéria de antes chorava com você, e que ela achava graça em coisas idiotas, e que ela teria feito uma piada sobre este corredor ser branco demais. Eu tenho tudo isso arquivado, com data e hora, e eu consigo recitar. — Ela inclinou a cabeça, um grau. — O que eu não consigo é sentir falta. Sentir falta é a camada.
— Então eu sinto por você.
— Isso não é útil.
— Não é para ser útil! — Eu gritei, e o grito rasgou alguma coisa dentro do ombro aberto, e o mundo piscou branco nas beiradas. — Não é para ser útil, Valéria! Faz meses que tudo que sai da sua boca é probabilidade e centímetro e porcentagem, e eu aguentei, porque a gente estava vivo e você tinha razão em cada uma das porcentagens, mas eu não desci oitocentos metros nesse buraco para trazer uma calculadora para a superfície!
O eco morreu rápido naquela sala. Paredes boas absorvem tudo.
Ela esperou eu terminar. Claro que esperou.
— Me dê uma ordem, — ela disse.
— O quê?
— Você é a única pessoa viva de quem eu ainda aceito uma ordem. Me ordene que eu permaneça em Modo de Segurança até a superfície. Eu registro a ordem, arquivo a decisão como sua, e nós dois paramos de gastar tempo com isso. — E então, com a mesma neutralidade absoluta: — Por favor.
E eu entendi o que ela estava me pedindo.
Não era permissão para continuar máquina. Era permissão para não ter escolhido continuar máquina. Ela queria que a culpa fosse minha, para que o pedaço dela que ainda existe em algum lugar debaixo daquele protocolo não tivesse que carregar a lembrança de ter recusado voltar a sentir.
Era a coisa mais humana que ela tinha feito em meses, e ela nem podia saber disso.
Levantei da mesa. O joelho protestou. Segurei na bancada com a garra industrial, que arranhou o aço e deixou quatro sulcos.
— Não, — eu disse.
— Gabo—
— Não. — Encarei ela. — Eu não vou te dar essa ordem. Nem essa nem a outra. Você não é uma ferramenta minha, e eu não vou fingir que sou dono dessa escolha só para você não precisar fazê-la.
— Isso é ineficiente.
— É. É horrível e é ineficiente e é o único jeito que eu conheço de te tratar como gente. — Bati com a mão de carne no casco de aço. — Isso aqui fica ligado. Fica aqui, pronto, à sua disposição, até a hora em que a gente sair. Você entra quando você quiser entrar. Se você não quiser entrar nunca, tudo bem. Mas a mão que aperta o botão vai ser a sua.
Ela ficou parada por um tempo muito longo.
Depois pegou a pinça de volta.
— Você tem cinquenta e dois minutos de lucidez restantes, — ela disse. — Sente-se. Eu não terminei o desbridamento.
Sentei.
Ela trabalhou em silêncio, tirando pedaços podres de mim e depositando cada um na cuba com aquele tinc pequeno e educado, e eu olhei para o teto e deixei doer.
Quando ela terminou de suturar, guardou a agulha, lavou as mãos na pia de cobre e enxugou com um pano estéril, dobrando-o em quatro antes de deixá-lo na bancada.
Então ela olhou para o casco de aço na bancada por dois segundos exatos.
E saiu da sala sem tocar nele.