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Capítulo 216: A Pressão do Vazio

A descida era uma sentença de morte executada em câmera lenta. Não havia luzes de emergência, não havia o zumbido familiar do cabeamento óptico ou o chiado de vapor escapando de válvulas defeituosas. Apenas o eco metálico e oco das nossas botas contra os degraus de uma escada que parecia descer até o centro morto do planeta.

O ar frio e estéril que subia do poço cheirava a poeira antiga e isolamento absoluto. Era o cheiro de um sarcófago esquecido. E, na escuridão opressiva, onde os sentidos não tinham em que se ancorar, minha mente fraturada tentou preencher o vazio com o que eu mais odiava.

O cheiro de charuto de Dante, azedo e sufocante, começou a rastejar pelas bordas da minha percepção. A fumaça invisível parecia se enrolar no meu pescoço, comprimindo minha traqueia, exigindo que eu cedesse ao pânico.

Não.

Eu apertei a mão direita — a boa — ao redor do degrau de aço gelado com tanta força que os tendões gritaram. Mas não era o suficiente. O fantasma da fumaça continuava espesso. Eu precisei de algo mais afiado, algo mais real que a alucinação. Pressionei deliberadamente o toco mutilado do meu braço direito contra a quina áspera da escada de aço. O atrito rasgou a carne mal cicatrizada, e uma onda de agonia branca e brilhante subiu pela minha espinha.

O cheiro do charuto desapareceu. A dor era meu único oxigênio. Soltei um rosnado abafado, o gosto metálico de sangue inundando minha boca enquanto eu forçava minha perna quebrada a descer mais um degrau. Os servos hidráulicos na minha articulação arruinada choramingavam como cães moribundos.

— Ritmo cardíaco do civil Elias está oscilando perigosamente, — a voz de Valéria soou no escuro, logo acima de mim. Não havia a menor inflexão de preocupação, apenas o relato gélido de quem avalia desgaste de material. — A respiração dele é curta. Há setenta e dois por cento de chance de síncope por hiperventilação nos próximos dez minutos. Se ele desmaiar, a queda será fatal.

— Não olha para baixo, Elias, — eu rosnei entredentes, forçando o sangue a gotejar do meu braço para o vazio. A dor me mantinha lúcido, focado no degrau seguinte. — Só olha para as mãos. Uma depois da outra.

— Não consigo ver as minhas mãos, Gabo, — a voz de Elias tremia tanto que parecia prestes a quebrar em pedaços. — Não tem nada aqui. É como... é como se estivéssemos sendo engolidos.

Ele não estava totalmente errado. As fundações geológicas de Aeterna pareciam vivas na sua quietude inerte. A engenharia brutalística das torres acima de nós era arrogante, mas este lugar... este fosso liso de aço e rocha vulcânica era um lembrete de que até os deuses de neon precisavam cavar buracos para esconder sua sujeira original.

— Concentre-se no som da minha perna quebrando, então, — eu retruquei cinicamente, apoiando todo o meu peso e deixando um longo e agoniante estalo mecânico ecoar no fosso. — Enquanto você ouvir essa porcaria rangendo, significa que não atingimos o fundo.

— A temperatura está caindo de forma não linear, — Valéria relatou, impassível. — Estamos cruzando a falha tectônica secundária. Os escaneamentos indicam um aumento substancial na espessura do revestimento de chumbo das paredes.

Revestimento de chumbo. Eles não estavam apenas reforçando a estrutura contra tremores de terra; estavam selando algo lá embaixo. Algo que emitia radiação ou algo muito pior que a Praga de Ferro ou o Jardim.

A fumaça alucinatória tentou voltar, rastejando furtiva. Bati o joelho ferido violentamente contra a parede do poço. Um estalo seco. Uma dor nauseante. Respirei o ar gélido a plenos pulmões.

Estávamos descendo para o verdadeiro inferno, e a dor era o único mapa que me restava.