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Capítulo 34: O Julgamento da Rua

Dirigir pelo Distrito Central sem a Rede de Tráfego era como navegar num campo minado. Destroços de drones, barricadas improvisadas e as carcaças de carros autônomos pontuavam a avenida.

Gabo dirigia com uma mão, a outra batucando no volante. Elena mantinha a pistola no colo, os olhos varrendo as sombras que dançavam e fugiam da luz dos faróis.

— Para — disse Elena, a voz baixa e tensa.

Gabo freou, o carro deslizando um pouco no asfalto molhado.

Cinquenta metros à frente, uma van blindada preta bloqueava a pista. Holofotes potentes, ligados a geradores barulhentos, iluminavam um grupo de civis ajoelhados na calçada. Famílias, crianças, idosos.

Homens mascarados com coletes táticos, cujos símbolos de neon agora estavam mortos, andavam entre eles. A Gangue dos Neons, agora reduzida a abutres sem sua tecnologia.

— O que eles estão fazendo? — sussurrou Val, espiando pelo vão dos bancos.

— "Limpeza" — disse Gabo, a voz carregada de desprezo. Um dos homens chutou um idoso que não se ajoelhou rápido o suficiente. — Acham que o Apagão é uma licença para punir os "não-evoluídos".

Um dos bandidos ergueu uma pistola e atirou na cabeça do idoso. O corpo caiu sem cerimônia na poça de chuva.

O sangue de Gabo ferveu. Não era a raiva fria e calculista do detetive. Era ódio.

— Elena, assume o volante — ordenou Gabo, já abrindo a porta.

— O que você vai fazer? — perguntou ela, deslizando para o banco do motorista.

Gabo foi até o porta-malas. Abriu-o e afastou alguns panos oleosos. Lá dentro não havia uma arma sofisticada, mas algo muito mais pessoal e brutal: um lançador improvisado, feito com um cilindro de suspensão de caminhão e um sistema de ignição de fogos de artifício. Ao lado, um projétil caseiro: uma lata de café cheia de pregos, parafusos e pólvora industrial.

Ele encaixou a lata no tubo. O clique de travamento foi o som mais satisfatório da noite.

— Ei! — gritou Gabo, apoiando o tubo pesado no ombro. O metal frio pressionou contra sua clavícula.

Os bandidos se viraram, ofuscados pelos faróis do Cobalt.

— Gostam de luzes fortes? — gritou Gabo, a voz rouca. — Então segurem esta!

Ele apertou o interruptor.

O recuo foi um coice de mula. A força da explosão o jogou para trás, e ele caiu sobre a perna quebrada. Uma dor branca e cegante explodiu em seu joelho, e ele gritou, um som abafado pela detonação.

Mas o projétil voou. A lata sibilou pelo ar, um meteoro de fúria enferrujada, e atingiu a lateral da van.

A explosão não foi limpa. Foi suja, gutural. Metal rasgou. A van não capotou, mas a lateral se abriu como uma flor de aço retorcido. A onda de choque e uma chuva de estilhaços derrubaram os bandidos mais próximos.

Gabo, ignorando a dor lancinante, largou o cano quente da arma e sacou sua pistola, usando o carro como apoio para se levantar.

— Quem mais quer brincar?! — rugiu ele, a visão turva pela dor.

Os sobreviventes, atordoados e sangrando, olharam para a figura que mancava em sua direção, iluminada pelas chamas. Eles não viram um homem, viram um demônio. E correram, desaparecendo na escuridão dos becos.

Os reféns olhavam para Gabo, paralisados entre o medo e a gratidão.

— Saiam daqui! — gritou Gabo para eles. — Vão para os abrigos! Agora!

Ele se arrastou de volta para o carro, o rosto pálido e suado.

— Isso foi... barulhento — comentou Elena, quando ele caiu no banco do passageiro.

— Eu não faço sutil — disse Gabo, ofegante, segurando o joelho. — Eu faço o trabalho. Acelera. Antes que eu desmaie.