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Capítulo 222: O Homem que Podia Ir Embora

Elias sumiu enquanto ela me costurava.

Descobri quando saí da enfermaria e não achei ninguém no corredor. Chamei uma vez, sem muita força, e o corredor branco devolveu o meu próprio nome com uma nitidez desconfortável.

— Ele está no poço de serviço norte, — Valéria disse do fim do corredor. — Há oito minutos.

— E você não falou nada?

— Ele pediu para não falar.

— E você obedeceu?

— Ele não é meu comandante, mas também não é meu prisioneiro. — Ela deu de ombros, e foi um gesto tão mecanicamente perfeito e tão vazio de significado que chegou a ser desagradável. — Eu não tinha razão operacional para impedi-lo.


O poço de serviço ficava atrás da sexta porta, a única que a gente não tinha aberto.

E do outro lado dela havia um elevador.

Não um poço de escada. Não um duto de exaustão desmoronando. Um elevador de serviço, de plataforma aberta, com grade sanfonada, contrapeso de concreto e um painel de dois botões: um para cima, um para baixo. A luz de operação estava acesa. Verde.

Elias estava dentro dele.

Tinha a mochila nas costas. A lanterna morta pendurada no cinto, substituída por uma lanterna nova de dínamo que ele devia ter achado num armário. Nos braços, três garrafas de água selada.

E o dedo dele estava a um centímetro do botão de subir.

Eu parei na porta. Não disse nada.

Ele me viu. Encolheu os ombros para dentro, do jeito que ele faz.

— Funciona, — ele disse. — O maldito funciona, Gabo. Circuito próprio. Nunca esteve na rede, então a Praga nunca pegou. Eu testei o contrapeso, testei o freio, testei tudo três vezes. — Ele riu, e o riso saiu horrível. — Quatro anos de manutenção. É a única coisa em que eu sou bom. E a única vez que serviu para alguma coisa foi para achar a porta dos fundos.

— Onde é que ele sai?

— Estação de bombeamento pluvial no Setor 4. Superfície. — Ele engoliu. — Quarenta minutos de subida. Talvez cinquenta com o peso.

Fiquei olhando para ele.

— Então vai.

Ele piscou.

— Como é?

— Você me ouviu. Vai. — Encostei o ombro bom no batente, porque ficar em pé sem apoio tinha virado luxo. — Você não me deve nada, Elias. Você não é polícia, não é resistência, não assinou porra nenhuma. Você era um cara trancado numa sala monitorando pico térmico e nós dois chutamos a sua porta e trouxemos o inferno junto. Se tem alguém aqui embaixo com direito de ir embora, é você.

— Você está falando sério.

— Estou.

— Não é um teste?

— Elias, eu estou com quarenta e um de febre e um braço a menos. Eu não tenho energia para teste.

Ele ficou parado no elevador, com o dedo no ar.

E não apertou.

— Aperta, — falei.

— Estou tentando.

— Aperta o botão, cara.

Eu estou tentando!

Ele gritou aquilo, e a mão dele caiu, e ele encostou de costas na grade sanfonada e escorregou até sentar, exatamente como tinha feito no corredor no dia em que sentiu ar limpo pela primeira vez.

— Eu vim aqui pra ir embora, — ele disse para os próprios joelhos. — Eu juro que vim. Peguei água, peguei lanterna, planejei a rota. Cheguei até a decidir o que ia contar quando chegasse lá em cima. Já tinha a história pronta e tudo.

— E aí?

— E aí eu percebi que não tem ninguém lá em cima pra contar.

Silêncio.

— Meu chefe morreu no Colapso, — ele continuou. — O pessoal do turno morreu no Colapso. Eu não tenho mulher, não tenho filho, meu irmão foi embora da cidade no Apagão e nunca mandou notícia. — Ele levantou os olhos para mim, e estavam vermelhos e completamente lúcidos. — Se eu subir agora, eu vou sair numa estação de bombeamento no Setor 4 e vou ser um cara sozinho no escuro que viu coisas que ninguém acredita. E a única prova de que eu não enlouqueci vai estar oitocentos metros abaixo dos meus pés, morrendo de infecção.

Ele bateu com a nuca na grade. Uma vez. Duas.

— Eu não quero ser corajoso, Gabo. Eu não sou. Eu me caguei de medo naquela ponte e me caguei de medo no poço e vou me cagar de medo em tudo que vier. — A voz dele quebrou. — Mas eu não tenho para onde ir. Vocês são a única coisa que eu tenho, e vocês nem são gente direito. Uma não sente mais nada e o outro está apodrecendo em pé.

Eu ri.

Foi a primeira risada honesta que saiu de mim desde o Distrito 4, e ela doeu como o inferno, e valeu cada pontada.

— É, — falei. — É mais ou menos isso mesmo.

Andei até o elevador. Cada passo era uma negociação. Entrei na plataforma, com ele, e fiquei em pé segurando a grade.

— Escuta aqui, — falei. — Eu vou te dizer uma coisa e depois nunca mais, porque eu não presto pra isso.

— Tá.

— Coragem não é não ter medo. Isso é história que a gente conta pra recruta. — Olhei para o poço escuro acima da gente. — Coragem é a distância entre o quanto você quer sair e o quanto você anda pra dentro assim mesmo. Pela minha conta, você tem mais coragem que qualquer um que eu conheci na corporação, e eu conheci gente com medalha.

Ele não disse nada.

— Você desceu oitocentos metros num buraco chorando o caminho inteiro. Isso não é ser fraco, Elias. Isso é a coisa mais difícil que existe. Qualquer imbecil desce um buraco sem sentir nada. — Pensei na Valéria olhando para o casco de aço por dois segundos e saindo da sala. — Alguns até desceriam melhor.

Ele enxugou o rosto com as costas da mão, deixando risco de graxa.

— E se eu quiser subir depois?

— Aí você sobe depois. O botão não vai a lugar nenhum. — Dei um tapinha na grade com a garra, e a coisa fez um barulho horroroso. — A oferta fica de pé até a última porta. Eu não vou te cobrar e não vou te julgar. Você foi o único de nós três que ainda tinha escolha, e olhar você ficar com ela na mão foi a melhor coisa que eu vi esse ano.

Ele se levantou. Ajeitou a mochila.

E apertou o botão.

O de descer.

A plataforma tremeu e começou a baixar os dois metros de volta ao nível da Arca com um zumbido antigo e satisfeito.

— Se eu vou morrer aqui embaixo, — Elias disse, olhando para a frente, — eu prefiro morrer sabendo o que tem atrás daquele vidro.


Valéria nos esperava na antecâmara hexagonal.

— Ele voltou, — ela constatou.

— Voltou.

— A probabilidade era de trinta e um por cento.

— Você calculou a chance dele voltar?

— Eu calculo tudo. — Ela virou-se para a galeria dos berços. — E registro quando erro. É como o cálculo melhora.

Andamos os três pelo corredor de vidro e cobre, passando por oitenta e três caixões vazios, até a única luz verde no fim da fileira.

A Dra. Elara Vance estava de olhos abertos.

Ela tinha ficado assim o tempo todo. Esperando. E, quando os três chegamos ao pé do berço, a pupila esquerda dela se moveu — devagar, um milímetro por vez — e parou exatamente sobre o painel de controle, ao lado da minha mão.

Depois voltou para mim.

E fez de novo.

Painel. Eu. Painel. Eu.

— Ela está dizendo onde apertar, — Elias sussurrou.

— Está, — falei.

Coloquei a mão de carne sobre a chave analógica de duas posições, do tamanho de um punho, com uma etiqueta de baquelite amarelada pelo tempo. Havia uma segunda chave idêntica a três metros dali, no outro lado do corredor.

Duas chaves. Duas mãos. E eu só tenho uma.

— Elias, — falei. — Vem cá.