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Capítulo 231: Catraca
A Valéria montou a armadilha em sete horas e ela era boa.
Sensor de pressão no barranco do canal, feito com fio de cobre e uma placa de prensa. Rede de carga içada numa polia, presa a um contrapeso de duzentos quilos. Dois pontos de fogo cruzado: ela numa passarela, o Elias com a espingarda de cano duplo dos Rossi atrás de um muro de fardos de papel. E eu no portão, sozinho, como isca, porque era o único jeito de ele chegar perto.
Às onze em ponto ele veio pelo canal.
Às onze e um a placa de pressão disparou.
Às onze e dois a rede caiu em cima dele e o contrapeso desceu, e duzentos quilos de aço travaram um homem de cento e vinte no cascalho, com os braços presos ao corpo.
Funcionou.
Funcionou perfeitamente.
Foi a coisa mais assustadora que eu vi naquela semana.
Porque ele não lutou.
Ficou caído de lado sob a rede, respirando pesado pelo esforço da queda, e esperou a poeira baixar. Depois virou o rosto na minha direção, no chão, e falou com o mesmo tom de balcão de repartição:
— Boa, essa. O gatilho no barranco eu não vi.
— Cala a boca.
— Não estou provocando, Sr. Moretti. Estou elogiando. — Ele mexeu os ombros, testando a rede sem força, como quem confere se a carga está bem amarrada. — A moça das lentes que montou?
Valéria desceu da passarela com a Caronte apontada.
— Sujeito imobilizado, — ela disse. — Rede de carga de dez toneladas. Ele não sai sozinho.
— Não saio mesmo, — Braga confirmou, prestativo.
Elias saiu de trás dos fardos com a espingarda tremendo tanto que eu tive medo de estar mais perto dele do que do Braga.
E aí ficamos os quatro ali, num pátio de cascalho, com o problema resolvido.
E nenhum de nós sabia o que fazer com ele.
O sol batia na rede de aço e o pátio inteiro cheirava a poeira quente e a maresia podre do canal. Cada vez que Braga respirava, a malha rangia contra o cascalho, um som fino e regular de coisa mastigando devagar. Eu tinha gosto de metal na boca desde o café, e a cinta laranja do Duarte, enrolada no cinto dele, estava exatamente à minha altura dos olhos.
— A gente prende, — disse Elias. — Tem um depósito com porta de aço. Bota ele lá.
— E quem alimenta? — perguntou a Valéria. — Quem vigia? Nós somos quatro, sendo que um tem um braço e outro é civil. Um prisioneiro consome uma pessoa em turno integral.
— A gente amarra melhor.
— Ele é estivador, rapaz, — disse Braga do chão, sem levantar a voz. — Eu amarro melhor que a moça e sei desfazer o que eu amarro. Vocês vão precisar me deixar sem uma das mãos, e aí eu infecciono e vocês vão ter que cuidar disso também.
— Cala a boca! — Elias gritou.
— Estou tentando ajudar. — E o pior é que era verdade. — Vocês não pensaram nessa parte porque vocês são gente boa. Eu já tive catorze anos para pensar em como se guarda uma pessoa. Custa caro. Custa mais do que vocês têm.
Eu andei até ele e agachei, com dificuldade, apoiando a mão no joelho bom.
— Eu posso te soltar longe daqui. Cem quilômetros. Sem comida.
— O senhor pode. — Ele assentiu. — E eu volto andando. Vai levar uns onze dias e eu chego. — Ele disse aquilo sem bravata nenhuma, como quem informa horário de ônibus. — E nesses onze dias o senhor vai dormir mal, e a jornalista vai dormir mal, e o rapaz de macacão vai dormir com a espingarda no colo até se acostumar, e aí ele vai relaxar num dia qualquer, e é nesse dia que eu chego.
— Você não vai chegar.
— Sr. Moretti. — Pela primeira vez, alguma coisa parecida com cansaço na voz dele. — O senhor sabe o que eu sou. O senhor prendeu gente a vida inteira e sabe diferenciar o sujeito que fala grosso do sujeito que só está informando. Eu estou informando.
Ficamos até o sol começar a descer.
A Elena foi cuidar da tiragem porque o mundo não para. O Elias ficou de guarda até as três e depois eu mandei ele comer. A Valéria não sai de posição nunca, então a Valéria continuou.
E eu fiquei ali, sentado num caixote a três metros de um homem preso numa rede, porque eu não conseguia sair de perto.
Foi ele que puxou assunto, no fim da tarde.
— O senhor tinha uma filha.
Eu não me mexi.
— Não tenho.
— Tinha, — ele corrigiu, gentil. — Eu não estou perguntando, Sr. Moretti. Eu sei desde dois mil e sessenta e nove.
Levantei a cabeça.
— Como.
— Pátio do Fosso. Um agente chamado Peçanha, que gostava de contar coisa de rua para os presos porque isso fazia ele se sentir importante. — Braga estava olhando o céu. — Ele chegou uma tarde e disse assim: "Braga, sabe aquele detetive que te enfiou aqui? Perdeu a filha na enchente. Menina pequena. Coisa de Deus."
Eu senti o cascalho debaixo de mim ficar muito longe.
— E o pátio inteiro achou ótimo, — ele continuou. — Uns cinquenta homens comemorando a morte de uma criança de cinco anos, porque a criança era do policial que prendeu eles. Teve gente que bateu palma.
Uma pausa.
— Eu levantei e fui pro canto e vomitei atrás do bebedouro.
Eu não estava respirando direito.
— Por quê? — consegui perguntar.
— Porque eu tinha uma de quatro. — Ele virou o rosto, e os olhos pequenos e parados estavam molhados, e ele não fez absolutamente nada a respeito. — E porque quem comemora criança morta é bicho, e eu já era assassino de mulher, mas eu ainda não era bicho. Naquela tarde eu decidi que ia continuar não sendo.
— Você matou o Duarte ontem.
— Matei. E vou pagar por ele. — Assentiu. — Mas eu não comemorei, Sr. Moretti. Tem diferença. É pouca, e é a única que eu tenho.
— A minha chamava Marta, — ele disse, depois de um tempo. — Tinha quatro quando eu entrei. Ficou com a tia no Setor 11.
— Braga.
— Eu escrevi toda semana. Catorze anos. Setecentas e vinte e oito cartas, com a letra bonita, porque eu treinei a letra na cadeia justamente pra isso. — A voz dele não mudava nunca, e por isso era insuportável. — Ela respondeu até os onze. Depois parou, e eu continuei escrevendo, porque carta que não é respondida ainda é carta.
Ele fechou os olhos.
— Quando o Apagão abriu as portas eu andei três dias até o Setor 11. A tia tinha morrido. Um vizinho me contou que a Marta ficou até os dezoito e morreu no Dilúvio, num abrigo da escola municipal que encheu porque não coube todo mundo e as portas foram fechadas por fora.
Abriu os olhos.
— A mesma enchente, Sr. Moretti. As nossas duas meninas, na mesma água, no mesmo mês.
Silêncio.
— E é por isso que eu vim, — ele disse. — Não é vingança. Vingança seria eu matar a sua e a gente ficar quites, e a sua já morreu, e eu não fico feliz com isso e não é isso que eu quero.
Ele me olhou.
— Eu vim porque eu perdi catorze anos que eram os anos dela. Se eu tivesse solto, eu não sei se ela estaria viva — talvez não, talvez eu fosse um pai ruim e ela morresse igual. Eu não sei. E é o não saber que eu não aguento. O senhor me tirou a chance de descobrir, com uma faca que o senhor colocou numa caixa d'água, porque o senhor tinha pressa.
Eu abri a boca e não saiu nada.
— E aí eu passei catorze anos deitado num beliche pensando: se o homem que fez isso comigo é um homem justo, então eu mereço. Eu consigo carregar isso, se ele for justo. — A voz dele finalmente rachou, uma vez, no meio. — Mas se ele for igual a mim, um sujeito que faz o que dá na telha e depois dorme, então eu perdi a minha filha porque um cara qualquer teve pressa numa terça-feira. E isso eu não carrego, Sr. Moretti. Isso eu não carrego de jeito nenhum.
Ele respirou fundo. Recompôs. Voltou ao tom de balcão.
— Então é isso que eu vim buscar. Não é a sua morte. É uma resposta.
— Que resposta?
— O senhor vai me matar aqui, no chão, amarrado, sem eu poder levantar a mão. — Ele disse aquilo como quem descreve um procedimento. — E aí eu vou saber. Vou saber que era isso, que foi sempre isso, que não teve justiça nenhuma na minha vida, só um homem com pressa. E vai doer, mas vai ser descanso, porque eu vou parar de perguntar.
— E se eu não matar?
— Aí eu saio dessa rede algum dia e cobro do rapaz de macacão. — Sem crueldade. Com pena, quase. — E depois da jornalista. E o senhor vai voltar aqui e vai me matar de qualquer jeito, só que com mais três pessoas embaixo da terra e nenhuma dúvida sobrando.
Ele fechou os olhos e apoiou a cabeça no cascalho, confortável, como quem termina o expediente.
— Eu já pensei em tudo isso, Sr. Moretti. Eu tive catorze anos. O senhor tem até de manhã.