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Imagem do Capítulo

Metadados

  • Título: O Som do Subterrâneo
  • Data In-Game: Pós-Colapso do Sentinel (Noite Eterna)
  • Localização: A caminho do Setor 7 (Complexo Hidropônico)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria

Narrativa

Capítulo 178: O Som do Subterrâneo

A tempestade de ácido no Distrito 4 piorou. As gotas já não queimavam apenas as roupas, elas corroíam a camada superficial do cimento, transformando o asfalto em uma papa borbulhante e tóxica.

A entrada desabada da estação de metrô "Prata Seca" oferecia o único refúgio na área. Gabo forçou suas pernas mecânicas exaustas a descerem os degraus quebrados de mármore. Valéria desceu atrás dele, movendo-se com a precisão rígida e assustadora do Safe Mode.

Lá embaixo, longe da chuva, o ar era estagnado e frio. A plataforma abandonada cheirava a umidade, urina seca e algo podre que morrera há décadas nos trilhos. Gabo apoiou-se no azulejo sujo da parede, o peso esmagador de sua nova prótese industrial repuxando os pontos grossos que Vasco fizera em seu ombro.

Então, o vento soprou pelos túneis escuros.

A corrente de ar trouxe um pó cinza e um cheiro rançoso. Na mente estilhaçada de Gabo, o pó não era poeira; era o fumo asfixiante do charuto de seu pai. As paredes do metrô se comprimiram, lembrando a cabine trancada do carro da infância.

A fobia esmagou seu peito. Gabo caiu sentado, levando a mão orgânica à garganta. Ar. Eu preciso de ar.

— Anomalia detectada — a voz fria de Valéria cortou o vazio. Ela se abaixou, mas não o tocou. O olho esquerdo brilhou. — Falência respiratória iminente no usuário primário. O ar ambiente é respirável. A reação psicossomática está comprometendo o sistema vital.

— C-Cala... a boca... — Gabo arfou, os olhos arregalados, debatendo-se contra a alucinação sufocante de Dante Moretti e o cheiro do cravo.

Ele precisava quebrar a ilusão.

Gabo bateu a prótese no chão de concreto, e depois torceu brutalmente as juntas hidráulicas com a mão boa, forçando o motor interno a uma reversão de ciclo. O braço industrial grunhiu, e um choque elétrico massivo foi descarregado diretamente nos nervos de seu ombro em carne viva.

A dor explodiu como uma granada em seu córtex cerebral. Um grito rasgou a garganta de Gabo, e a ilusão da fumaça do charuto foi instantaneamente desintegrada pela fornalha química da adrenalina e do sofrimento físico absoluto.

Ele arquejou, sugando o ar mofado do metrô em grandes lufadas. O suor frio empapava seu rosto. Ele se encolheu no chão, ofegante, segurando a pesada aberração de aço que era agora o seu braço.

Valéria observou a cena inteira sem mover um músculo do rosto. Nenhuma lágrima, nenhum choque.

— Modulação extrema de dor aplicada — relatou Valéria, com o tom de quem faz um checklist de manutenção. — Ritmo respiratório estabilizando. No entanto, alerto: o estresse autoinfligido repetitivo causará falha estrutural severa nos ligamentos orgânicos restantes.

Gabo olhou para a mulher que um dia lhe chamara de amigo. Não havia nada ali por trás dos olhos dela. Ela o via apenas como uma ferramenta que precisava de manutenção para continuar caminhando.

— Eu... eu aguento, Val — Gabo murmurou, usando o braço de chumbo para ajudar a levantar suas pernas de ferro rangentes. — Só me mostre a direção para o Setor 7.

— Direção traçada. Dutos de drenagem secundários, a quinhentos metros — respondeu ela virando as costas e iniciando a marcha pelos trilhos escuros, sem olhar para trás.