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Capítulo 77: Anjos da Morte

Hospital Central de Baía Cinzenta - 02:45 AM

O cheiro de antisséptico era a única coisa que não havia mudado na cidade. Governos caíram, o sol voltou, deuses digitais ascenderam e morreram, mas o Hospital Central ainda cheirava a pinho falso e morte esterilizada.

Gabo odiava hospitais. Eles o lembravam de muitas coisas: da sua coluna quebrada, da primeira vez que viu Dante numa maca, e de quantas vezes Val teve que costurá-lo em becos porque eles não podiam pagar por um médico de verdade.

— Você está pálido — comentou Val, mastigando um chiclete de cafeína. Ela estava encostada na parede do corredor, seus olhos varrendo o espectro digital invisível.

— É a luz — mentiu Gabo. — Muito branca.

Dra. Nise apareceu no final do corredor. Ela parecia ter envelhecido dez anos desde a revolução. Seu jaleco, impecável como sempre, parecia pesar em seus ombros.

— Obrigada por virem — disse ela, sem preâmbulos. — Tenho quatro corpos no necrotério que não deveriam estar lá.

Ela os guiou até uma sala de observação. Através do vidro, podiam ver a UTI. Estava lotada, mas silenciosa. O zumbido dos respiradores era hipnótico.

— O que houve? — perguntou Gabo.

— Parada cardiorrespiratória. Todos eles. — Nise apontou para um gráfico holográfico flutuando sobre a mesa. — Pacientes em recuperação. Um garoto com perna quebrada, uma senhora com pneumonia leve, dois casos de desnutrição que já estavam estáveis. Todos mortos nas últimas seis horas.

— Aria? — perguntou Val.

— Cega — respondeu Nise. — Segundo os registros do sistema, eles simplesmente... desligaram. Sem picos de estresse, sem toxinas no sangue, sem falha de equipamento. Aria registrou como "morte natural".

— Quatro mortes naturais na mesma noite, no mesmo setor? — Gabo balançou a cabeça. — Estatisticamente impossível.

— Exatamente. — Nise cruzou os braços. — E há um padrão. Todos morreram durante o turno da equipe B de técnicos de enfermagem.

Val conectou-se ao terminal da sala. Seus dedos não se moviam, mas seus olhos piscavam rapidamente enquanto ela navegava pelos dados.

— Turno da noite. Líder da equipe: Lucas Viana. Ficha limpa. Tão limpa que brilha. Nenhuma infração, nem multa de trânsito.

— Ninguém é tão santo assim — resmungou Gabo.

— Tem mais — continuou Val. — Há uma lacuna nos logs das câmeras de segurança. Frações de segundo. Loops de imagem imperceptíveis para um humano, mas Aria deveria ter pego.

— Alguém está editando a realidade em tempo real? — perguntou Nise, horrorizada.

— Não — disse Gabo, olhando para o corredor onde um técnico de enfermagem empurrava um carrinho de medicamentos. O homem tinha um sorriso sereno, quase beatífico. — Eles não estão editando o digital. Eles estão agindo fora dele.

Gabo saiu da sala, o zumbido contido dos servomotores de suas órteses acompanhando cada passo, seguido por Val. Eles mantiveram distância, observando o técnico. Ele parou na porta do quarto 304. Olhou para os lados, verificou o relógio digital na parede, e entrou.

— Val, bloqueie as câmeras — sussurrou Gabo. — Se Aria não está vendo, vamos garantir que ninguém veja o que vou fazer.

Ele entrou no quarto sem fazer barulho. O técnico estava debruçado sobre o paciente, um homem idoso que dormia. Em sua mão, uma seringa de vidro antiquada, sem chip de rastreamento.

O líquido dentro era transparente.

— Parado — disse Gabo, apontando sua arma.

O técnico não se assustou. Ele se virou lentamente, o sorriso ainda colado no rosto.

— O silêncio precisa ser alimentado, detetive — disse ele, a voz calma como a de um padre. — Eles sofrem tanto com o barulho do mundo. Eu apenas trago a paz.

— Solte a seringa.

— Não deixa rastro — continuou o homem, ignorando a ordem. — Extraído de uma planta que crescia aqui antes do concreto. Metaboliza em segundos. Para o coração como um beijo de boa noite.

Ele fez menção de injetar o líquido no soro do paciente.

Gabo não hesitou. Disparou, atingindo o ombro do técnico. O homem gritou, deixando a seringa cair. O vidro se estilhaçou no chão, o líquido sibilando levemente ao tocar o linóleo.

Val entrou correndo, arma em punho.

— Nise, traga a segurança! — gritou ela.

O técnico caiu de joelhos, segurando o ombro sangrando. Mas ele ainda sorria.

— Vocês não entendem — sussurrou ele, olhando para Gabo com olhos vidrados. — A sombra está crescendo. O meio-dia foi apenas um aviso. Nós somos os anjos que preparam o caminho.

— Caminho para quem? — perguntou Gabo, agarrando-o pelo colarinho.

O homem começou a convulsionar. Espuma branca saiu de sua boca.

— Ele tomou algo! — gritou Nise, entrando no quarto com um kit de emergência.

Mas era tarde. O corpo do técnico ficou rígido e depois relaxou, morto.

Gabo soltou o cadáver, limpando a espuma da mão na roupa do morto.

— Anjos da Morte — murmurou Val, olhando para a seringa quebrada.

— Ele disse a mesma coisa que estava escrito na parede do beco — disse Gabo, sombrio. — Sobre o silêncio.

Nise recolheu uma amostra do líquido do chão com um swab.

— Vou analisar isso. Mas se for o que ele disse... uma toxina orgânica pura... Aria nunca detectaria. É...

— Analógico — completou Gabo. — O inimigo agora é de carne e osso, Nise. E ele sabe usar coisas que esquecemos como combater.

Lá fora, a sirene de uma ambulância uivava, cortando a madrugada. O silêncio, por enquanto, tinha sido adiado. Mas a sombra no hospital parecia mais densa do que nunca.