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Metadados

  • Título: O Silêncio de Aeterna
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 00:15
  • Localização: Distrito Industrial - Perímetro Externo da Usina Prometeu
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Valéria Cruz, Inspetor Rangel, Aria (Inerte).
  • Resumo: O grupo enfrenta a realidade brutal de uma cidade sem energia e sem lei. Rangel sucumbe aos ferimentos. Gabo utiliza habilidades analógicas para garantir um meio de transporte e manter a coesão do grupo em meio ao caos silencioso.

Narrativa

Capítulo 120: O Silêncio de Aeterna

A chuva não era mais apenas água. Era um véu frio que lavava o pecado da cidade, transformando a fuligem em lama negra sob suas botas.

Gabo ajustou o peso de Aria em seu ombro. O metal do chassi da androide estava escorregadio. Ao seu lado, Valéria ofegava, o cabelo colado no rosto, lutando para manter o ritmo. Eles eram um cortejo fúnebre sem cadáver, arrastando uma casca vazia pela avenida deserta.

Mas o que realmente pesava não era a androide. Era o silêncio.

Baía Cinzenta sempre teve um som. Um zumbido de fundo, uma vibração constante de servidores, trens magnéticos, drones e hologramas gritando ofertas de felicidade sintética. Agora, não havia nada. Apenas o tap-tap-tap da chuva no asfalto rachado e a respiração rouca de Rangel atrás deles.

— Pare... — Rangel grunhiu, tropeçando. Ele caiu de joelhos na lama, a mão pressionando o buraco no ombro. O sangue escuro se misturava com a água da sarjeta.

Gabo e Valéria pararam, soltando Aria com cuidado no chão.

— Rangel — Gabo se ajoelhou ao lado dele. A pele do inspetor estava cinza, fria ao toque. — Aguenta firme. O Fliperama não é longe.

— É longe... o suficiente — Rangel riu, e o som foi um gorgolejo. — Sem med-evac. Sem sinal. Estamos no século vinte de novo, Moretti.

Gabo olhou ao redor. A escuridão era absoluta, quebrada apenas pelos relâmpagos ocasionais que iluminavam as carcaças das fábricas abandonadas como esqueletos de gigantes.

— Não podemos ficar aqui — disse Valéria, sua voz tremendo levemente. Ela olhava para as sombras com a paranoia de quem sabe o que vive no escuro. — Sem a vigilância da Aeterna, as gangues vão sair das tocas. Os Saqueadores...

— Ela tem razão — Gabo se levantou, os servomotores de suas órteses nas pernas rangendo com o esforço, o peso do dano físico cobrando seu preço. Uma alucinação olfativa repentina de fumaça sufocante invadiu suas narinas, um eco traumático do desespero.

Ele fechou os olhos e apertou o Colar de Sol contra o esterno até as arestas cortarem a pele. A dor aguda varreu a alucinação: Dor é realidade.

Ele abriu os olhos. Focou.

— Precisamos de rodas.

— Nada funciona — Valéria chutou um pedaço de destroço. — Os carros elétricos... o firmware deles fritou com a queda da rede. Estão todos bloqueados.

— Nem todos — Gabo caminhou até a grade de um pátio de manutenção municipal do outro lado da rua. O portão eletrônico estava morto, entreaberto.

Lá dentro, entre fileiras de veículos de limpeza autônomos e drones de carga inoperantes, havia algo diferente. Um caminhão de reboque, antigo, com manchas de ferrugem e pneus borrachudos. Um modelo "Toupeira" de tração, anterior à Lei de Ar Limpo de 2045.

— Combustão interna — Gabo murmurou, pulando a grade.

— Isso é sucata — Rangel protestou, tentando se levantar com a ajuda de Valéria.

— É analógico — corrigiu Gabo. Ele quebrou o vidro da janela do motorista com a coronha da Caronte. O cheiro de mofo e óleo velho invadiu suas narinas. Um perfume melhor que qualquer incenso sintético.

Ele tateou sob o painel, puxando os fios da ignição. Vermelho no vermelho. Terra no chassi.

— Vamos, sua lata velha... — sussurrou.

Uma faísca. O motor tossiu, engasgou e, com um rugido sujo e vibrante, ganhou vida. Vapor espesso de diesel, escuro e tóxico, saiu pelo escape.

Gabo sorriu. Um sorriso triste, de canto de boca.

— Valéria, coloque a Aria na caçamba. Rangel, cabine.

O transporte foi brutal e rápido. Valéria e Gabo içaram o corpo da androide para a traseira do guincho. Rangel se arrastou para o banco do carona, segurando a pistola no colo, os olhos semicerrados.

Gabo assumiu o volante. A vibração do motor percorria seus braços, uma sensação tátil, real, mecânica. Sem assistência de direção, sem navegação por satélite, sem limitador de velocidade.

Ele engatou a marcha com um tranco e acelerou.

O caminhão saiu do pátio, os faróis amarelos cortando a escuridão como facas. Eles avançaram pela avenida principal, passando por carros de luxo parados, apagados e inúteis.

— Para onde? — perguntou Valéria, sentada no meio, espremida entre Gabo e Rangel.

Gabo olhou pelo retrovisor, vendo apenas a chuva e a noite engolindo o mundo que conheciam.

— Para o único lugar onde o silêncio não é novidade — disse ele, girando o volante pesado. — O Fliperama. Kiko deve ter suprimentos médicos. E energia independente.

Enquanto dirigiam, Gabo olhou para as janelas apagadas dos arranha-céus residenciais. Milhares de pessoas lá dentro, no escuro, sem saber que o "Deus" que controlava suas cafeteiras e suas carreiras havia caído.

O medo viria pela manhã. O caos viria com o sol.

Mas por enquanto, naquela cabine cheirando a diesel e sangue, havia apenas o som do motor e a estrada aberta.

— Sabe de uma coisa? — Rangel murmurou, a cabeça encostada no vidro frio. — Até que o silêncio... não é tão ruim.

Gabo não respondeu. Ele apenas dirigiu, mantendo os olhos na estrada e a mão longe do bolso.