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Capítulo 99: O Despertar da Máquina
Ruínas do Data Center 4 - Zona Morta
O som não era de vento. Era o ranger de metal contra concreto, um ruído úmido e pesado, como se uma engrenagem estivesse mastigando ossos.
— Para trás — sussurrou Gabo, empurrando a Dra. Nise para a proteção de uma coluna de aço retorcido.
Rangel sacou sua pistola, tremendo levemente. Não de medo, mas da abstinência de uma mira assistida que nunca mais voltaria. Vilar já estava em posição, o revólver .38 apontado para a escuridão do corredor destruído.
— O que é aquilo? — perguntou Nise, a voz abafada pela máscara.
Das sombras, dois pontos vermelhos se acenderam. Não eram LEDs perfeitos e frios como os da antiga Aeterna. Eram lâmpadas halógenas, sujas, adaptadas em órbitas improvisadas.
A criatura avançou para a luz do sol que entrava pelo teto desabado. Não era um robô. Era uma colcha de retalhos. Um chassi de um droide de entrega, braços de escavadeira industrial, e pernas que pareciam ter sido arrancadas de um manequim de loja, reforçadas com pistões hidráulicos vazando óleo.
— Um Necro-Mecânico — disse Gabo, reconhecendo o estilo. — Alguém está construindo monstros com o nosso lixo.
A máquina soltou um guincho estático, girando o torso. Ela viu o cubo preto na mão de Gabo. O objeto pulsou em resposta, a luz azul ficando frenética.
"Devolver... Ativo... Prioritário..." — a voz da máquina era uma colagem de gravações antigas, picotadas e distorcidas.
— É da polícia! — gritou Rangel, tentando impor autoridade. — Parado ou atiro!
A máquina não hesitou. Ela avançou com uma velocidade aterrorizante para algo tão desconjuntado.
— Fogo! — ordenou Vilar.
Os tiros ecoaram nas ruínas. As balas de chumbo, antigas e confiáveis, ricochetearam na blindagem improvisada da criatura. Uma delas acertou a "lâmpada-olho" esquerda, estourando-a em uma chuva de vidro e faíscas.
A máquina nem diminuiu o passo. Com um braço que terminava em uma garra de sucata, ela golpeou a coluna onde Rangel estava. O concreto explodiu. O inspetor foi jogado para trás, tossindo poeira.
Gabo não podia correr. Suas órteses motorizadas estavam em casa, e suas pernas reais gritavam de dor apenas por estar de pé. Ele olhou ao redor, sua mente de detetive processando o cenário em milissegundos. Sem rede. Sem hacks. Apenas física.
A criatura se virou para ele, ignorando os tiros de Vilar. Ela queria o cubo.
— Você quer isso? — gritou Gabo, levantando o objeto.
A máquina parou, o único olho restante focando no cubo.
"Protocolo... Recuperação..."
Gabo viu o que precisava. O chão sob a máquina estava rachado, enfraquecido pela chuva ácida e pelo peso dos escombros. E logo acima, pendurado por vergalhões expostos, estava o que restava de um servidor bancário. Toneladas de metal morto.
— Nise! O pé de cabra na sua bolsa! — gritou Gabo.
A médica, entendendo o plano, deslizou a ferramenta de aço pelo chão. Gabo a pegou no ar, ignorando a dor nas costas.
A máquina avançou. Gabo não recuou. Ele esperou até sentir o cheiro de óleo queimado e ferrugem.
Quando a garra desceu para esmagá-lo, Gabo se jogou para o lado, rolando sobre o ombro bom. Ele bateu com o pé de cabra não na máquina, mas na trava enferrujada que segurava os vergalhões na parede ao lado.
Clang.
A trava cedeu. A gravidade, a única lei que nunca falhava em Baía Cinzenta, fez o resto.
O servidor despencou. O estrondo foi ensurdecedor, levantando uma nuvem de poeira de cimento e silício moído. A máquina foi esmagada instantaneamente, transformada em uma panqueca de sucata sob o peso da tecnologia obsoleta.
O silêncio voltou. Apenas o chiado de circuitos morrendo e a respiração ofegante dos quatro sobreviventes.
Gabo se levantou, limpando o sangue de um corte na testa. Ele mancou até a pilha de escombros. O cubo preto tinha rolado para longe, intacto, pulsando suavemente.
— Todos bem? — perguntou Vilar, ajudando Rangel a se levantar.
— Meu terno... — resmungou Rangel, tirando o pó da lapela rasgada. — Era o último inteiro.
Nova Delegacia - Antiga Biblioteca Municipal
A luz das velas iluminava as estantes de livros mofados. O gerador estava sendo poupado para o equipamento médico, então a "Sala de Investigação" (uma mesa de carvalho recuperada) estava na penumbra.
O cubo preto estava no centro da mesa.
— Não consegui abrir — disse Nise, tirando os óculos de leitura. — Não tem parafusos, não tem emendas. E a composição... o espectrômetro analógico diz que é carbono, mas organizado de uma forma que eu nunca vi. Quase como diamante, mas opaco.
— O que aquela coisa queria com isso? — perguntou Vilar, enchendo um copo de uísque barato.
— Recuperação — disse Gabo, encarando a luz azul. — Disse que era um "Ativo Prioritário".
— Mas quem mandou a máquina? — questionou Rangel. — Não sobrou ninguém com know-how para construir aquilo. Os Jardineiros odeiam metal. A Aeterna faliu. O Sindicato só quer vender drogas.
Gabo tocou o cubo. Estava frio, mais frio que a sala.
— Talvez não seja "quem". Talvez seja "o quê".
De repente, o pulso de luz do cubo mudou. De azul calmo para um branco intenso. Um feixe de luz foi projetado para cima, cortando a penumbra das velas.
Um holograma se formou no ar. Era granulado, falhando, como uma transmissão de TV antiga com má recepção.
Mostrava um mapa. Não de Baía Cinzenta, mas do subsolo. Uma rede complexa de túneis que parecia um sistema circulatório. E um ponto piscando em vermelho profundo, muito abaixo da superfície, na região onde ficava a base do Projeto Dilúvio.
E então, uma voz. Não a voz robótica da máquina, nem a voz suave de Aria. Era uma voz humana, cansada, gravada com urgência.
"...se alguém estiver ouvindo... o silêncio não é o fim. Eles estão acordando. O berçário foi violado. Repito: o berçário foi violado. Eles têm fome e não comem comida. Eles comem..."
A transmissão cortou em estática.
— Quem era? — perguntou Vilar, os olhos arregalados.
Gabo sentiu um aperto no peito. Ele conhecia aquela voz. Era impossível, mas ele conhecia.
— Era a Elara Vance — disse Gabo. — A ex-CEO da Aeterna.
— Ela está morta — disse Rangel. — Desapareceu na Queda.
— Pelo visto, não — Gabo pegou o cubo e o guardou no bolso. — E se ela está com medo... nós devíamos estar aterrorizados.
Ele pegou sua bengala e se dirigiu à porta.
— Aonde você vai? — perguntou Nise.
— Vou para casa. Preciso preparar o Cobalt. E preciso falar com uma pessoa.
— Quem? — perguntou Vilar.
Gabo parou na porta, a silhueta recortada contra a chuva que começava a cair lá fora.
— A única pessoa que conhece o subsolo melhor que os ratos. Elena.
A paz tinha acabado. A caçada recomeçava.
