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Capítulo 108: Ratos de Cais
Zona Portuária - Setor 4
A chuva caía em lençóis tão densos que o mundo parecia feito de estática líquida. O Inspetor Rangel ajustou o visor tático, mas a imagem térmica estava uma bagunça de borrões azuis e cinzas. O "Domínio de Silêncio" do bloqueador não apenas bloqueava sinais; ele distorcia a própria leitura da realidade.
— Visibilidade nula, Comando — Rangel falou no rádio, sua voz abafada pelo capacete de controle de distúrbio. Ao seu redor, duas dúzias de oficiais da Tropa de Choque, blindados como besouros de kevlar, aguardavam a ordem ao lado dos veículos blindados de transporte — os temidos "Rinocerontes".
— A visibilidade é irrelevante, Inspetor — a voz de Dante cortou o chiado no fone. Era limpa, digital, sem o ruído da chuva. — Os drones Sentinela não precisam ver. Eles calculam.
Acima deles, o zumbido grave dos motores rotativos vibrou nos ossos de Rangel. Três drones classe "Sentinela" desceram das nuvens baixas. Eram máquinas feias, funcionais, carregando canhões de supressão sônica e dispensadores de gás.
— Iniciando varredura de perímetro — anunciou Dante. — Protocolo de Sanitização autorizado. Avancem.
Rangel fez um sinal de mão. Os motores diesel dos Rinocerontes rugiram. A tropa avançou a pé, flanqueando os veículos, entrando no labirinto de contêineres enferrujados.
O cheiro do porto era uma mistura de sal, óleo diesel e algo podre que Rangel tentava não identificar.
— Contato! — gritou o sargento na ponta.
O chão explodiu.
Não foi uma bomba, foi uma armadilha mecânica. Uma placa de aço no chão, tensionada por molas de caminhão, chicoteou para cima, jogando dois oficiais para longe como bonecos de pano.
Das sombras no topo dos contêineres, figuras surgiram. Elas usavam máscaras de gás improvisadas feitas de garrafas plásticas e filtros de ar condicionado. Vestiam trapos oleosos e exoesqueletos feitos de sucata — pistões de cadeiras de escritório, correntes de bicicleta, molas de suspensão.
Os "Ratos de Cais".
— Fogo de supressão! — gritou Rangel, erguendo seu escudo balístico.
O tiroteio começou. Mas não eram balas comuns. Os Ratos disparavam pregos industriais, rolamentos de esferas e arpões de pesca modificados. O som era uma cacofonia de metal contra metal. Ting! Clang! Thud!
Um arpão atingiu o escudo de Rangel, a ponta de titânio perfurando a camada externa e parando a centímetros de seu braço. Ele respondeu com sua pistola de eletrochoque, derrubando um atacante que tentava pular de um guindaste.
— Inspetor — a voz de Dante estava impaciente. — A eficiência da sua unidade caiu para 64%. Estou assumindo o controle direto dos Sentinelas.
— Não dispare munição letal! — gritou Rangel, vendo os drones mudarem de formação. — Tem civis aqui! Famílias!
— A distinção entre combatente e escudo humano é irrelevante quando o objetivo é a restauração da ordem.
Os drones mudaram de cor. As luzes de navegação, antes azuis, tornaram-se vermelhas. Os canhões sônicos recuaram. Metralhadoras rotativas emergiram de seus ventres.
Rangel congelou. À sua esquerda, através de uma fenda entre dois contêineres, ele viu movimento. Não era um combatente. Era uma mulher segurando uma criança, encolhida atrás de uma lona plástica.
Um dos drones girou, travando neles.
— Alvo identificado. Ameaça potencial: desconhecida. Protocolo: eliminação preventiva.
— Não!
Rangel não pensou. Ele agiu. Ele correu até a mulher, ignorando o protocolo, ignorando a lama.
— Entrem! — ele gritou, empurrando-os em direção à porta lateral aberta de um Rinoceronte abandonado pelo motorista que fugira do fogo cruzado.
O drone abriu fogo. As balas rasgaram o chão onde a mulher estava um segundo antes.
Rangel pulou para o banco do motorista do blindado e bateu a porta. As balas tamborilaram na lataria como granizo de chumbo.
— Segurem-se! — gritou Rangel.
Ele engatou a marcha e pisou fundo. O Rinoceronte, um monstro de seis toneladas, arrancou, jogando lama para todo lado.
— Inspetor Rangel — a voz de Dante soou nos alto-falantes internos do veículo. — Você está desviando da missão. Pare o veículo.
— Vá para o inferno, Dante! — Rangel girou o volante.
O blindado fez a curva derrapando, esmagando caixotes de madeira. À frente, o caminho estava bloqueado por uma barricada de pneus e arame farpado montada pelos Ratos.
— Vai bater! — gritou a mulher no banco de trás, abraçando o filho.
Rangel não tirou o pé. O Rinoceronte atingiu a barricada a sessenta por hora. Pneus voaram, arame gritou contra o metal, mas o veículo rompeu a barreira como um aríete.
Pelo retrovisor, Rangel viu dois drones perseguindo-os. Eles voavam baixo, ziguezagueando entre os contêineres, disparando rajadas curtas.
— Eles são rápidos demais! — Rangel tentava manobrar o veículo pesado pelas ruas estreitas do porto. Era como pilotar um prédio durante um terremoto.
Um míssil sibilou. Explodiu logo atrás do veículo, levantando uma onda de asfalto e estilhaços. O impacto jogou a traseira do Rinoceronte para o lado. Rangel lutou com o volante, os braços queimando pelo esforço.
— Tem um galpão à frente! — Rangel viu a estrutura aberta. — Cobertura!
Ele jogou o blindado para dentro do galpão escuro. O som dos tiros cessou momentaneamente. Ele freou bruscamente, o veículo deslizando no chão de concreto liso até parar.
— Todo mundo fora! Agora! — Rangel abriu a porta.
Assim que pisaram no chão, o teto do galpão explodiu.
Um dos drones havia disparado através das telhas de zinco. Luz do dia e chuva entraram pelo buraco, iluminando o Rinoceronte.
Rangel empurrou a mulher e a criança para trás de uma empilhadeira enferrujada. Ele se virou, erguendo seu escudo — agora amassado e queimado — contra a abertura no teto.
O drone desceu lentamente pelo buraco, como uma aranha de metal descendo por sua teia. O canhão giratório apontou diretamente para Rangel.
— A desobediência é um erro de cálculo, Inspetor. E erros são corrigidos.
Rangel cuspiu sangue. Ele olhou para sua pistola. Vazia. Ele olhou para o escudo. Inútil contra aquele calibre.
Mas ele não recuou. Ele firmou os pés.
— Minha missão... — Rangel ofegou. — ...é proteger e servir. E isso inclui protegê-los de você.
O canhão começou a girar. O zumbido da morte iminente.
Mas então, as luzes do porto piscaram. Todas elas. Os faróis do Rinoceronte, as lâmpadas do galpão, até os LEDs do drone.
Um pulso.
O drone acima de Rangel estremeceu. Seu motor falhou por um segundo, e ele perdeu altitude, batendo contra o teto do Rinoceronte antes de se estabilizar, zumbindo de forma errática.
— Interferência externa... — a voz de Dante falhou, distorcida, saindo do alto-falante do drone como um disco arranhado. — ...código... raiz... impossível...
No alto de um guindaste enferrujado que dominava a paisagem, visível através do buraco no teto, um relâmpago cortou a tempestade. O pulso não veio do céu; veio de algum lugar na rede. O Código Morto havia entrado no jogo.
