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Capítulo 219: Cuidado Perpétuo
Ela olhou para mim por quatro segundos e fechou os olhos de novo.
Não foi sono. Foi dispensa. Eu já vi aquele gesto mil vezes em salas de interrogatório: o suspeito que confere quem entrou, calcula que você não vale o esforço, e devolve a atenção para dentro. A Dra. Elara Vance me viu, me classificou e me arquivou, tudo em menos tempo do que eu levei para limpar o vidro.
Bati no berço com a garra da prótese. O som ecoou pela galeria como um tiro.
Nada.
— Ela não pode te ouvir, — Valéria disse. — O berço isola acusticamente. E ainda que pudesse, a musculatura dela está sob bloqueio neural há anos. Ela não consegue responder.
— Ela abriu os olhos.
— Abrir os olhos é um reflexo autônomo preservado pelo protocolo. Falar não é.
Encostei a testa no vidro frio. Do outro lado, a mulher que vendeu a minha cidade para uma equação dormia com a pele perfeita e o cabelo prateado arrumado, sem uma cicatriz, sem uma marca, sem um dia de idade a mais do que quando desapareceu.
Eu tinha atravessado oitocentos metros de lodo, perdido um braço, enterrado o Rangel numa passarela oxidada e visto a Aria fritar o próprio cérebro num terminal, e ela tinha passado a mesma temporada dormindo em lençóis limpos.
Bati de novo. Mais forte. A prótese soltou faísca.
— Gabo.
— Eu sei.
— O vidro é laminado com quinze camadas. Você vai quebrar a prótese antes de trincar o berço, e a prótese é a única articulação de carga que você ainda tem.
— Eu sei.
Recuei. Respirei. O ar limpo entrou e não trouxe nada consigo — nem fumaça, nem alívio.
— Então a gente descobre como abrir.
O arquivo ficava atrás da terceira porta.
Não era um servidor. Era uma sala, no sentido antigo da palavra: estantes de aço de chão a teto, gavetas metálicas com etiquetas datilografadas, caixas de microfilme empilhadas em ordem alfabética, e bobinas de fita magnética guardadas em latas redondas como se fossem rolos de cinema. Uma mesa de leitura no centro, com um projetor de microfichas e uma cadeira giratória de couro rachado.
Papel. Toneladas de papel.
Elias entrou atrás de mim e soltou um assobio baixo.
— Por que alguém construiria isso?
— Porque papel não é hackeável, — falei. — Papel não pega Praga de Ferro. Papel não vira serviço de assinatura. Você quer que uma coisa dure sessenta anos, você escreve num papel bom e tranca num cofre.
Valéria já estava puxando gavetas com uma velocidade que não tinha nada de humana. Três, cinco, oito por minuto, cada uma escaneada pelo azul dos olhos dela e fechada.
— Vou levar quarenta e um minutos para indexar o conteúdo integral, — ela informou. — Você não tem quarenta e um minutos de lucidez restantes na taxa atual de febre.
— Então me dá o resumo em cinco.
— O resumo é o seguinte.
Ela parou de puxar gavetas. Aquilo, por si só, me deixou desconfortável.
— Aeterna S.A. foi registrada há sessenta e um anos como empresa de serviços funerários e cuidado perpétuo. Cinco sócios. Nenhum deles engenheiro. O ramo original era manutenção de jazigos e conservação de restos mortais para famílias com dinheiro.
— Continua.
— O problema comercial que eles tentaram resolver não era a morte. Era o espaço. Baía Cinzenta é construída sobre um pântano; o solo não comporta cemitério vertical, e a cidade proibiu novos jazigos no ano dezenove. Um contrato de cuidado perpétuo vendido sem lugar onde cumprir o cuidado é uma dívida infinita.
Sentei na cadeira de couro. Ela guinchou.
— Eles precisavam guardar gente sem espaço para guardar gente.
— Correto. E a primeira proposta técnica do arquivo — Valéria puxou uma pasta e a colocou na mesa à minha frente, com o cuidado de quem entrega uma prova — sugeria que a maneira mais eficiente de conservar um indivíduo indefinidamente não era conservar o corpo.
Abri a pasta.
Papel timbrado. Datilografado, com correções à mão em caneta azul. O título estava sublinhado duas vezes:
PROTOCOLO LÁZARO — VERSÃO 0.1"Sobre a viabilidade de manter o padrão cognitivo do contratante em substrato biológico reduzido."
Eu li a primeira página. Depois a segunda. Na terceira eu tive que parar e olhar para a parede branca por um tempo.
Substrato biológico reduzido. Trinta e oito páginas de linguagem educada, tabelas de custo por unidade-ano e notas de rodapé sobre conforto da família enlutada, explicando com muita calma que sai mais barato manter vivo o pedaço da pessoa que pensa do que manter inteiro o pedaço que apodrece.
O Lázaro não começou como droga. A droga veio sessenta anos depois, quando alguém percebeu que o mesmo processo que preservava um cliente pagante podia minerar um cliente que não estava pagando nada.
Meu pai passou quinze anos em um tanque de nutrientes servindo de processador para uma inteligência artificial. Eu passei quinze anos achando que aquilo era a coisa mais monstruosa que a Aeterna tinha inventado.
Não era invenção. Era o produto original. Meu pai não foi uma perversão do serviço. Ele foi um cliente, sem ter assinado nada.
— Tem os nomes? — perguntei. — Dos cinco.
Valéria puxou a ficha de constituição.
— Quatro estão mortos. Causas naturais, entre os anos vinte e trinta. O quinto consta como afastado por invalidez no ano vinte e nove.
— E a Vance?
— A Dra. Elara Vance não é sócia fundadora. — Uma pausa mínima. — Ela aparece pela primeira vez nos registros doze anos depois, como consultora externa contratada para auditar o Protocolo Lázaro.
— Auditar.
— A recomendação final dela está na gaveta seguinte.
Ela colocou a segunda pasta em cima da primeira.
Um único memorando. Meia página. Assinatura firme, sem tremor.
"O protocolo funciona. O protocolo é indefensável. Recomendo encerramento imediato do programa e destruição dos registros. Se a diretoria optar por prosseguir, recomendo que se prossiga em escala — programas desta natureza não sobrevivem à meia-medida, e a meia-medida é o único cenário em que a companhia responde criminalmente."
Li aquilo umas seis vezes.
Ela sabia. Desde o começo, ela sabia exatamente o que era, e escreveu num papel oficial que era indefensável, e no parágrafo seguinte explicou como fazer aquilo em tamanho grande o suficiente para não dar cadeia.
Não foi cegueira. Não foi ideologia transumanista. Foi uma mulher inteligente olhando para o abismo, anotando corretamente que era um abismo, e recomendando um mergulho profissional.
— Krell? — perguntei, e minha voz saiu bem baixa.
— Viktor Krell consta no arquivo — Valéria abriu a terceira gaveta — como estagiário do departamento jurídico, no ano da auditoria. Função registrada: digitalização de contratos de cuidado perpétuo.
Eu ri. Não teve graça nenhuma, mas eu ri, e a risada arranhou o ombro infeccionado e me deixou tonto por uns segundos.
O sádico de terno que arrancou o cérebro do meu pai e usou como CPU tinha entrado naquela empresa arquivando papel de cemitério. Ele leu os contratos. Ele leu todos, um por um, sozinho numa sala, e em algum momento daquele expediente de merda ele entendeu o negócio melhor do que os cinco donos.
Baía Cinzenta não foi destruída por um gênio do mal. Foi destruída por um estagiário aplicado.
— Gabo, — Elias chamou.
Ele estava do outro lado da sala, na frente de uma estante que eu não tinha olhado. Segurava uma lata de fita magnética com as duas mãos, e o rosto dele estava sem cor.
— O que foi?
— Essas fitas aqui. — Ele engoliu em seco. — Elas não são de contrato. Elas têm nome de gente. E data.
Ele girou a lata para eu ler a etiqueta.
Não era um arquivo de clientes.
Era um arquivo de inquilinos. E a etiqueta da lata que ele segurava, datilografada com a mesma máquina que escreveu tudo naquela sala, dizia:
MORETTI, D. — ADMISSÃO ANO 41 — CONTRATO NÃO ASSINADO — MANTER INDEFINIDAMENTE