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Capítulo 11: Filtros de Realidade
A "realidade" em Baía Cinzenta sempre fora uma sugestão, nunca um fato. Mas agora, Gabriel e Valéria estavam descobrindo que ela era editável.
O esconderijo de Dr. Nise ficava no subsolo do Distrito da Névoa, sob uma antiga lavanderia automática. O lugar cheirava a detergente barato e ozônio.
— Fiquem parados — ordenou a voz rouca vinda das sombras.
Dr. Nise não era um homem. Era uma mulher idosa, de olhos acastanhados atentos e pele marcada pelo tempo, o jaleco permanentemente manchado de reagentes. Um enxame de micro-drones zumbia ao seu redor como moscas metálicas, ampliando sua leitura do ambiente.
— Estamos limpos, Doutora — disse Valéria, levantando as mãos. — Precisamos de ajuda.
— Você está limpa — retrucou Nise, aproximando-se de Valéria e tocando seu rosto com dedos calejados. — Mas ele... — ela apontou para Gabriel. — Ele fede a Aeterna.
— Eu engoli um chip — disse Gabriel. — Longa história.
Nise riu, um som seco.
— Entrem. Antes que os drones de busca sintam o cheiro do medo de vocês.
O laboratório de Nise era um museu de tecnologia obsoleta. Monitores de tubo, teclados mecânicos, servidores resfriados a ventiladores barulhentos.
— Kiko Vibe esteve aqui — disse Gabriel, indo direto ao ponto. Mostrou a foto que acharam.
— O menino sorridente — Nise suspirou, servindo um chá que cheirava a ferrugem. — Ele veio pedir para eu tirar o implante dele. O "Modulador de Humor".
— Ele descobriu a Frequência Fantasma. — Nise interrompeu, a voz grave. — O implante dele não modulava apenas o humor dele. Modulava o de quem assistia.
Nise ligou um monitor antigo. A tela tremeluziu e mostrou linhas de onda de áudio.
— Kiko gravou isso antes de morrer. É o sinal oculto nas transmissões da nova rede.
Valéria se aproximou.
— É uma onda infra-som — disse ela. — Abaixo da audição humana. Mas... o padrão... é hipnótico.
— Induz passividade — explicou Nise. — Reduz o pensamento crítico. Aumenta a necessidade de aprovação social. É uma droga digital, transmitida pelo Wi-Fi.
Gabriel sentiu um gosto amargo.
— Eles estão transformando a população em viciados obedientes.
— E Kiko ia contar tudo — disse Valéria. — Por isso o mataram. E apagaram ele.
— Mas quem? — perguntou Gabriel. — Marco Moretti é um político, não um gênio da neurociência.
— Marco é apenas o rosto — disse Nise. Ela digitou algo no teclado. — O Dante sabia.
Gabriel congelou.
— O quê?
— Seu pai não estava apenas investigando, Gabriel. Ele era Consultor de Segurança Sênior. Ele assinou a autorização para os testes beta do sinal no Distrito 4. Ele achava que podia "sanear" a violência com frequência de rádio. Quando percebeu que virava controle mental, tentou voltar atrás. Mas você não se demite da Aeterna.
— O sinal tem uma origem — continuou Nise, ignorando o choque de Gabriel. — Uma fonte primária.
Um mapa de Baía Cinzenta apareceu na tela. Um ponto vermelho pulsava no centro do Distrito de Prata.
— A Torre de Marfim? — perguntou Gabriel. — A antiga sede da Aeterna?
— Não — disse Valéria. — Está vindo do subsolo da Torre. Dos antigos bunkers de dados.
— Onde meu pai está enterrado — murmurou Gabriel. — Ou o que sobrou dele.
Nise virou seu rosto cego na direção dele, e seus drones zumbiram mais perto. — Seu pai era um homem complicado, Gabriel. Ele sabia que a Aeterna estava construindo uma gaiola. Ele só não imaginava que o filho seria o pássaro. Ele sabia do sinal. Achava que podia controlá-lo.
A revelação atingiu Gabriel como um soco. Seu pai, o herói da cidade, era cúmplice?
O chão tremeu antes do som chegar. Poeira caiu do teto baixo.
— Unidade de Cancelamento. Nível 5. — Nise engatilhou a espingarda com um movimento fluido, sem pânico. — Meus drones detectaram uma unidade de "Cancelamento" se aproximando.
— Temos que sair — disse Gabriel, sacando a arma.
— Saiam pelos fundos. Dá no esgoto pluvial. — Nise pegou uma espingarda debaixo do balcão. — Eu seguro eles.
— Você vai morrer — disse Valéria.
— Eu já estou morta há dez anos, menina. Só esqueci de deitar. — Nise sorriu, seus dentes de metal brilhando. — Vão! E derrubem aquela maldita torre!
Gabriel e Valéria correram para os fundos. O som de explosões começou a sacudir a lavanderia acima deles.
Quando a porta de serviço cedeu, eles despencaram para a galeria pluvial escura sob o Distrito da Névoa. A água podre subia até os joelhos, arrastando restos químicos e seringas velhas.
Valéria piscou duas vezes, tentando estabilizar a visão aumentada. Um aviso vermelho atravessou a íris dela: Licença Biométrica Revogada.
— Gabo... meus implantes estão entrando em modo de degradação — ela disse, ofegante. — Se a gente não derrubar a fonte do sinal hoje, eu vou apagar junto com o resto dos cancelados.
Gabriel assentiu, sentindo o peso do nome do pai como chumbo no estômago.
— Então a gente vai para a fonte. Agora.
