Skip to content
Imagem do Capítulo

Capítulo 39: Dossiê Vance

Não havia internet para vazar os documentos. Não havia telejornais. A "Mídia" estava morta.

Então eles fizeram do jeito antigo.

Gabo, Elena e Val usaram a impressora offset da delegacia, uma relíquia barulhenta que cheirava a óleo. Imprimiram milhares de cópias do resumo do Dossiê Vance. Fotos dos experimentos. Gráficos de lucro sobre as mortes. E-mails de Elara Vance confessando o controle populacional.

Eles distribuíram os panfletos. De mão em mão. Colaram nos postes. Jogaram de cima dos viadutos.

A reação foi visceral. As pessoas pegavam o papel sujo de tinta, sentiam a textura, o cheiro. Num mundo onde qualquer vídeo podia ser deepfake e qualquer áudio podia ser sintetizado, o papel tinha um peso de realidade esquecido.

— "Projeto Lázaro: Colheita Humana" — lia um homem em voz alta para um grupo, a voz trêmula. — Eles... eles usavam a gente como bateria.

A verdade, impressa em preto e branco, não podia ser deletada. Não podia ser moderada por um algoritmo. Ela era física. E doía.

No terceiro dia após o Apagão, uma multidão cercou os portões da mansão de Elara Vance, no Distrito de Prata. Não eram avatares raivosos. Eram pessoas de carne e osso, com tochas e pedras de verdade.

A segurança privada abandonou o posto. Eles também tinham lido os panfletos.

Gabo estava lá, no meio da multidão. Ele viu quando derrubaram o portão. Ele viu quando arrastaram Elara Vance para fora. Ela gritava, implorava, seus implantes estéticos falhando sem manutenção, revelando uma mulher velha e aterrorizada.

A polícia chegou, liderada por Jonas e Gabo. Eles formaram um cordão de isolamento, não para proteger a mansão, mas para impedir o linchamento.

— Elara Vance! — gritou Jonas, segurando um mandado de prisão datilografado em uma máquina de escrever antiga. — Você está presa.

Ela cuspiu no chão, mas suas mãos tremiam.

— Vocês são animais! Eu dei a vocês o paraíso!

— Nós preferimos a realidade — disse uma mulher na multidão, jogando uma pedra que acertou a testa de Elara. Sangue real escorreu.

Gabo observou enquanto a colocavam na viatura.

— Acabou, Gabo — disse Elena, tocando o ombro dele.

— A Vance caiu — disse ele. — Mas a Aeterna é maior que ela. Eles virão.

— Deixe que venham.

Valéria se aproximou, segurando um jornal impresso às pressas. A manchete dizia: "O FIM DA ILUSÃO".

— Eles estão chamando você de herói, Gabo.

— Heróis morrem no final — disse Gabo, tamborilando os dedos no coldre. — Eu sou apenas um sobrevivente.

Eles caminharam de volta para o Cobalt azul. O motor pegou na primeira tentativa.