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Capítulo 98: A Cidade Silenciosa
Três Meses Após o Grande Silêncio
O despertador não era uma notificação neural suave projetada na retina. Era um relógio de corda, barulhento e irritante, martelando metal contra metal em cima da mesa de cabeceira.
Gabo abriu os olhos e, por um segundo, esperou o HUD carregar. A temperatura, a umidade, as manchetes do dia, o nível de bateria do braço mecânico que ele nunca teve.
Nada. Apenas o teto rachado do apartamento e a luz cinzenta da manhã filtrada pela persiana quebrada. Ele olhou de relance para a poltrona no canto, onde Val costumava se sentar para calibrar seus implantes. Estava vazia. A ausência dela era um silêncio mais pesado que o da cidade.
Ele se sentou, sentindo as juntas estalarem. O antigo suporte motorizado estava em um outro canto, coberto por uma lona — bateria morta, servos inúteis. Ele tateou a cabeceira e encontrou as cintas de metal frio. O modelo passivo. Sem motores, apenas molas de tensão e travas mecânicas que a Dra. Nise havia adaptado de peças de suspensão de carros velhos. Ele prendeu os suportes nas pernas com cliques secos. Clack. Clack. O som da sua nova mobilidade. Doía, exigia força bruta do tronco, mas permitia que ele andasse. Era o preço de continuar de pé.
Baía Cinzenta tinha mudado. O céu, antes uma cúpula eterna de chuva ácida e projeções holográficas, agora era apenas... céu. Às vezes azul, muitas vezes nublado, mas sempre real.
Gabo levantou-se, mancando até a cozinha. A cafeteira era elétrica, ligada a uma bateria de carro que ele recarregava no gerador comunitário do prédio. O café era ralo, sintético, trazido por caravanas de fora da Zona de Exclusão. Tinha gosto de terra queimada. Era delicioso.
Ele vestiu o sobretudo. O couro estava gasto, mas limpo. O distintivo no cinto não brilhava mais com LEDs de autoridade. Era apenas um pedaço de metal fosco.
Ao sair para a rua, o som o atingiu. Não o zumbido constante dos servidores ou o tráfego aéreo de drones. Mas o som de marretas. Serras. Vozes gritando ordens. O som de reconstrução.
— Bom dia, Inspetor — cumprimentou o Sra. Rossi, varrendo a calçada em frente à pizzaria, que agora funcionava apenas com forno a lenha.
— Bom dia, Sofia. — Gabo sorriu. — O cheiro está bom.
— Pão fresco. Trigo de verdade, conseguimos com um contrabandista de Nova Esperança.
Gabo continuou andando. O Departamento de Polícia operava agora no antigo prédio da Biblioteca Municipal, já que a delegacia original tinha sido engolida por uma cratera durante a Queda da Torre.
Dentro, a cena parecia saída de um filme noir do século passado. Máquinas de escrever tec-tec-tecavam (resgatadas de museus e sótãos), arquivos de papel se empilhavam em mesas de madeira, e o cheiro de mofo e café amargo pairava no ar — um reflexo do abandono quando os sistemas climáticos digitais pararam de funcionar. Gabo suspirou momentaneamente, o som metálico de suas pernas passivas ecoando.
— Moretti — chamou o Capitão Vilar de sua sala de vidro.
Vilar parecia dez anos mais jovem sem o peso do sistema sobre ele, embora as olheiras de quem gerenciava uma cidade sem lei ainda estivessem lá.
— O que temos? — Gabo entrou, o som rítmico e metálico de suas travas de perna ecoando no piso de madeira da biblioteca.
— Um corpo. Na Zona Morta. Perto das ruínas do Data Center 4.
— Saqueador? Aquela área é instável. Os prédios caem sozinhos.
— Foi o que pensei. Mas o relatório da patrulha diz que é... estranho.
— Estranho como?
Vilar empurrou uma pasta de papel pardo pela mesa. Fotos polaroid, granuladas e escuras.
— Não tem sangue, Gabo. E a vítima... está sorrindo.
A "Zona Morta" era o antigo coração financeiro da Aeterna Corp. Agora, era um cemitério de vidro e aço retorcido. O mato começava a crescer por entre as rachaduras do asfalto, retomando o território.
O corpo estava deitado sobre uma laje de concreto, como se estivesse tomando sol. Era um homem de meia-idade, vestindo trapos de sobrevivente.
Dra. Nise estava ajoelhada ao lado dele, usando luvas de borracha grossas e uma máscara cirúrgica de pano.
— Inspetor — ela disse, sem levantar os olhos. — Chegou cedo.
— O trânsito está ótimo sem os carros voadores caindo do céu. O que temos, Nise?
— Causa da morte indeterminada. Sem marcas de violência externa. Sem veneno detectável nos testes preliminares. O coração simplesmente... parou.
Gabo se aproximou, observando o rosto da vítima. O sorriso era perturbador. Não era um esgar de dor, mas uma expressão de êxtase absoluto.
— Identidade?
— Sem digitais no sistema... ah, esqueci, não temos sistema — resmungou Rangel, que estava encostado em uma coluna, parecendo entediado. — Deve ser um ninguém. Vamos marcar como "morte natural" e ir almoçar.
— Morte natural? — Gabo apontou para a mão direita da vítima. — Nise, o que é aquilo?
A mão do homem estava fechada com força. Nise usou uma pinça para abrir os dedos, que já mostravam sinais de rigor mortis.
Na palma da mão, havia um pequeno objeto. Um cubo preto, perfeito, de material fosco que parecia absorver a luz do sol. Não maior que um dado.
— O que é isso? — perguntou Rangel, aproximando-se.
Gabo sentiu um arrepio na espinha. Ele conhecia aquela textura. Aquele "preto absoluto".
— Não toque — ordenou Gabo.
Ele se abaixou, olhando de perto. Havia uma linha fina de luz azul pulsando fracamente em uma das faces do cubo. Um ritmo lento. Como um batimento cardíaco.
— Ainda está ativo — sussurrou Gabo. — O que quer que seja.
— Achei que toda a tecnologia Aeterna tinha fritado no pulso eletromagnético da Aria — disse Nise.
— E fritou — respondeu Gabo. — Isso não é Aeterna.
De repente, o rádio de ondas curtas no cinto de Rangel chiou. Mas não era estática.
Era uma voz. Baixa, distorcida, mas audível.
"...protocolo... reiniciado... busca... sinal..."
Todos congelaram. O rádio silenciou.
— Rangel — disse Gabo, levantando-se devagar. — De onde veio isso?
— Eu... eu não sei. O canal está morto há meses.
Gabo olhou para o cubo na mão do morto. A luz azul pulsou um pouco mais forte.
— O silêncio acabou — disse Gabo, sentindo o peso familiar da sua arma no coldre. — Alguém ligou a música de novo.
E nas sombras das ruínas do Data Center, algo se moveu. Algo que fez o som metálico de engrenagens, não de passos humanos.
A paz de Baía Cinzenta tinha durado exatos noventa dias. E agora, estava morta.
