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Capítulo 169: O Fantasma na Máquina de Carne
O zumbido mecânico do suporte vital era o único som no Setor Alfa-Sete. Ele pulsava como um coração doente, bombeando aquele líquido escuro e iridescente pelas tubulações que alimentavam a massa cinzenta no interior da mesa de fibra de carbono.
Valéria estava paralisada. A luz do tanque refletia em seu olho cibernético, desenhando o terror cru no seu rosto cansado.
— Isso... — ela murmurou, a voz falhando. — Eles usam isso para processar os dados vitais da Aeterna. Não é silício puro. É wetware. O meu Deus... quantas pessoas estão aqui dentro?
Dei a volta na mesa colossal, observando os cilindros de contenção. A carne pálida flutuava, conectada por feixes de ouro diretamente aos conduítes de rede do andar. O horror limpo e cirúrgico do meu pai superava qualquer teatro de horrores que o Taxidermista havia construído nos andares de baixo. O Taxidermista expunha suas monstruosidades. Dante as enterrava e polia os cofres.
— Se desligarmos o suporte vital... — Valéria tocou levemente o painel de vidro temperado, como se tocasse um túmulo. — A rede desmorona de vez. Todos os arquivos protegidos da Aeterna, o código-fonte, as transações... tudo apodrece junto com eles.
Olhei para os cabos de dados grossos que subiam para o teto. Ali estava o Santo Graal dos hackers de Baía Cinzenta. A fortuna intocável e o conhecimento proibido da megacorporação. Valéria hesitou, a tentação técnica duelando contra o horror moral.
Então, a temperatura caiu.
Não foi uma mudança climática. Foi o frio interior, rastejando de dentro da minha medula. A fumaça voltou.
Não como um sussurro dessa vez. A névoa de cravo invadiu minha mente num turbilhão brutal e violento, enchendo a sala com a presença do fantasma do meu pai. O cheiro de tabaco denso me sufocou instantaneamente, tapando minha boca, enchendo meus pulmões de fuligem e desespero. Caí de joelhos, ofegando em seco, arranhando a própria garganta com os meus cotocos inesgotavelmente inúteis.
O riso calculista de Dante pareceu ecoar entre os receptáculos do tanque. Você nunca vai escapar, Gabo.
A asfixia era real. Minha visão escureceu nas bordas.
Dor, meu cérebro gritou, o resquício de instinto animal sobrevivendo à alucinação. Preciso de dor.
Com um urro abafado, levantei-me cambaleando, o peso do meu próprio corpo agindo como mola, e desferi uma pancada brutal com o cotoco direito — a carne queimada, osso cauterizado e o curativo encharcado de sangue — diretamente contra a quina de aço e vidro da mesa do wetware.
O impacto soou como um osso quebrando em duas partes. A agonia cortou o ar como um machado, uma onda de choque de dor branca e pura que lavou meu cérebro e desintegrou a nuvem de fumaça instantaneamente.
Arfei, caindo com o tronco sobre o vidro temperado da mesa, puxando lufadas desesperadas de ar esterilizado. O sangue novo e quente escorria pelo meu braço e manchava o tampo transparente, misturando o meu DNA com a sujeira orgânica que repousava no tanque abaixo.
— Gabo! — Valéria correu para mim, segurando meus ombros. O pânico na voz dela me ancorou na realidade. — O que... o que você tá fazendo?!
Ergui a cabeça lentamente, a dor pulsante nos meus dois cotocos e o peito subindo e descendo freneticamente. O cheiro de cigarro não existia mais. Eu só sentia o cheiro ácido da minha própria adrenalina e a podridão estéril do formol.
Virei o rosto para Valéria. Ela olhava para os receptáculos, e depois para o meu sangue sujando o vidro, os olhos vidrados de quem não sabia se estava em um pesadelo ou se aquele era o fim de todas as coisas.
— Eles não vão deixar herança — eu disse, cada palavra mastigada pela dor, o cinismo encharcando minha voz. — Meu pai. O Taxidermista. Os vermes dessa cidade. Não vamos salvar o código, Valéria. Não vamos hackear.
Apontei o queixo para a rede de suporte de vida ligada à mesa, onde as luzes de monitoramento das válvulas principais pulsavam.
— Arranca essa merda da tomada. Deixa apodrecer.