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Capítulo 119: Cinzas Frias

A gravidade parecia ter dobrado. Não era apenas o peso do corpo de metal inerte de Aria, que Gabo e Valéria arrastavam pelos corredores fumegantes; era o peso do que tinham acabado de fazer.

O "Pai" estava caído. A voz que ordenava a cidade havia se calado.

— Cuidado com a cabeça dela — resmungou Valéria, ajustando a pegada no ombro da androide. Seu rosto estava sujo de fuligem e sangue seco, mas seus olhos, iluminados pelas luzes de emergência vermelhas, mostravam uma determinação feroz. — O giroscópio está desligado. Ela é apenas... peso morto.

Gabo não respondeu. Ele sentia o suor frio escorrendo pelas costas. O ar estava saturado com o cheiro de ozônio, plástico derretido e algo pior — o cheiro doce e enjoativo da biomassa queimando nos andares inferiores.

Seus pulmões pediam fumaça. Pediam o alívio químico, a queima familiar do tabaco para anestesiar o cheiro da morte.

Só um trago, sussurrou a parte mais fraca de seu cérebro. O mundo acabou mesmo. Quem se importa?

Gabo apertou o Colar de Sol contra o peito com a mão livre. O metal quente queimou a pele através da camisa encharcada. A dor foi um âncora. Eu me importo, ele pensou, cerrando os dentes. Eu sou fogo, não cinza.

O corredor tremeu. Uma explosão surda ecoou nas profundezas da usina, seguida pelo gemido de metal se retorcendo.

— A estrutura está cedendo — disse Gabo, forçando as pernas a se moverem mais rápido. — Se o núcleo geotérmico desestabilizar, tudo isso aqui vira uma cratera.

Eles dobraram uma esquina e deram de cara com a Doca de Carga 4. O portão estava emperrado, aberto pela metade, emperrado por destroços de um drone de carga.

E lá estava ele.

Rangel estava sentado encostado em uma pilha de caixotes, segurando o ombro esquerdo. O uniforme da Tropa de Choque estava rasgado, e uma poça de sangue escuro se formava ao seu redor. Mas em sua mão direita, firme como rocha, ele segurava uma pistola Série-K apontada para a porta.

Ele baixou a arma ao vê-los.

— Vocês demoraram — Rangel tossiu, um som úmido e feio. — Comecei a achar que tinham virado bateria para o velho.

— Quase — Gabo ajudou Valéria a depositar Aria no chão com cuidado, antes de correr até o ex-inspetor. — Qual a situação?

— Ruim. — Rangel fez uma careta quando Gabo inspecionou o ferimento. Um estilhaço de metal havia atravessado o Kevlar. — A segurança automatizada enlouqueceu quando a rede caiu. Os drones começaram a atacar uns aos outros. Consegui segurar a posição, mas...

Ele olhou para Aria, caída como uma boneca quebrada.

— Ela conseguiu?

— Ela fritou a rede — disse Valéria, ajoelhada ao lado da androide, abrindo o painel de manutenção no pescoço dela. — O hardware está intacto, mas o software... é como se ela tivesse formatado a própria alma.

— E Dante? — perguntou Rangel.

— Vivo — respondeu Gabo, levantando-se. — Mas quebrado. Deixamos ele lá.

Rangel assentiu, devagar.

— Bom. A morte é muito rápida para ele.

Um novo tremor sacudiu o chão, mais violento dessa vez. Poeira de concreto caiu do teto.

— Temos que sair. Agora — Gabo olhou para o pátio externo através do portão.

A chuva caía lá fora, pesada e negra. Mas algo estava diferente.

Não havia luzes.

Baía Cinzenta, a cidade que nunca dormia, a metrópole de neon e hologramas, estava apagada. Os arranha-céus eram silhuetas mortas contra o céu roxo. Sem os anúncios, sem os drones de vigilância, sem o brilho constante da Aeterna, a cidade parecia um cemitério de concreto.

— Olhem — sussurrou Valéria, parada ao lado de Gabo.

O silêncio era o que mais assustava. Não havia o zumbido constante dos servidores, nem o tráfego aéreo, nem as sirenes. Apenas o som da chuva batendo no metal.

— Nós matamos a cidade — disse Rangel, apoiando-se em Gabo para ficar de pé.

— Não — corrigiu Gabo, olhando para a escuridão onde milhões de pessoas agora acordavam livres do controle algorítmico, provavelmente aterrorizadas, mas livres. — Nós a desligamos. Agora ela pode acordar.

Gabo pegou os pés de Aria. Valéria pegou os ombros. Rangel, mancando, abriu caminho com a arma em punho.

Eles saíram para a chuva fria, deixando as ruínas da Prometeu para trás. Não havia fanfarra, nem vitória gloriosa. Apenas quatro sobreviventes — três humanos e uma máquina — mancando na escuridão, enquanto o cheiro de chuva limpa começava, lentamente, a lavar o cheiro de carne queimada.