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Capítulo 42: O Campo de Refugiados

A Delegacia Central do Setor 4 não era mais um prédio da lei. Era um barco salva-vidas de concreto.

O saguão estava coberto de colchões improvisados. Famílias inteiras se amontoavam nos corredores. O cheiro era uma mistura densa de roupas molhadas, sopa comunitária e antisséptico barato.

Gabo entrou mancando, carregando uma caixa de suprimentos que saquearam de um mercado abandonado.

Elena estava no centro do comando, gritando ordens. Ela não usava distintivo, usava uma braçadeira vermelha improvisada.

— Eu disse triagem médica no segundo andar! — gritava ela para um grupo de voluntários. — Casos de hipotermia na sala de interrogatório 1! Febre na sala 2! E alguém consiga mais baldes para as goteiras!

Ela viu Gabo e correu até ele.

— Como está lá fora?

— Pior — disse Gabo, largando a caixa. — A água chegou no Nível 15. A Zona Industrial já era.

— Temos trezentas pessoas aqui, Gabo. A comida dura dois dias. A água potável... talvez um.

— Jonas? — perguntou Gabo.

— Está no telhado tentando consertar a antena de rádio. Ele acha que pode pedir ajuda para as Cidades Altas.

Gabo riu, sem humor.

— As Cidades Altas devem estar ocupadas construindo muros para não deixarem a gente entrar.

Valéria apareceu, segurando um tablet com a tela rachada.

— Gabo, Elena... temos um problema maior que a comida.

— O que pode ser maior que morrer de fome?

— Morrer envenenado. Os sensores químicos que restaram na rede mesh local estão gritando. A água que está subindo não é só chuva e mar. Ela lavou os depósitos químicos da Aeterna no subsolo.

Val mostrou o gráfico. Vermelho sangue.

— Mercúrio, chumbo, resíduos experimentais. Essa água é tóxica. Quem beber... morre em horas.

Gabo olhou para as famílias bebendo a água da chuva coletada em lonas lá fora.

— Merda.