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Capítulo 50: O Silêncio da Chuva
O som da chuva no telhado de zinco não era relaxante. Era um martelar constante, uma tortura chinesa em escala industrial que durava semanas. O bloqueio imposto pelo Dilúvio e pelo cerco da Aeterna havia transformado a cidade em uma prisão.
Clara Moretti olhou para o monitor de glicose. A bateria estava piscando em vermelho, assim como o indicador de nível. "Crítico".
— Só mais um pouco, mãe — ela sussurrou.
Helena apenas gemeu.
Clara pegou o comunicador. Havia um número salvo. Gabo.
Ela apertou o botão.
Do outro lado da cidade, no porão da Delegacia, não havia ninguém para atender.
Gabo estava deitado em uma mesa de operação improvisada, cercado por máquinas que bipavam furiosamente.
— A pressão está caindo! — gritou a Dra. Nise, suas mãos enluvadas de sangue mergulhadas no peito aberto de Gabo. — Ele perdeu muito sangue na Torre. Os ossos pélvicos estão em frangalhos.
— Salve ele, Nise — disse Valéria, encostada na parede, pálida. — Não importa como. Use as peças se precisar. Use metal. Apenas não deixe ele morrer.
O comunicador de Gabo, jogado em uma pilha de roupas rasgadas e sujas de óleo, piscou em silêncio. Uma vez. Duas vezes.
Gabo flutuava na escuridão da anestesia, sonhando com engrenagens e água. Ele não ouviu o chamado.
Quando o peito de Helena parou de se mover, Clara ficou paralisada.
O luto em Baía Cinzenta é um luxo. A morte é um problema logístico.
Clara arrastou o corpo da mãe para o barco. Pagou a cremação com o relógio de Dante. Enquanto o corpo queimava, seu coração congelava. Seu irmão não estava lá. Ele nunca estava.
Três dias depois.
Gabo acordou. A dor era uma entidade viva em sua metade inferior.
— Você está vivo — disse Valéria, sentada ao lado dele. — Mas... suas pernas, Gabo. A reconstrução vai levar meses. E vamos precisar de um suporte mecânico.
Gabo tentou se sentar, tonto.
— Minha mãe... Clara ligou?
Valéria baixou os olhos.
Aquele silêncio foi pior do que qualquer osso quebrado. Foi o som de uma família se partindo, irreparável, sob o peso da chuva. Gabo não gritou. Ele apenas olhou para o teto de concreto, e pela primeira vez em anos, desejou não ter acordado.
