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Metadados

  • Título: Protocolo de Sombra
  • Data In-Game: 23 de Novembro, 04:30
  • Localização: Distrito 4 (Zona Comercial Abandonada / Clínica de Vasco)
  • Personagens Presentes: Gabo Moretti, Vasco (Novo - Traficante de Implantes), Saqueadores (Antagonistas).
  • Resumo: Gabo emerge na superfície do Distrito 4 para encontrar uma cidade mergulhada no caos do apagão. Ele negocia suprimentos médicos e peças para Aria com Vasco, um "açougueiro de silício", e enfrenta um grupo de saqueadores na saída, racionando munição e usando a escuridão como arma.

Narrativa

Capítulo 123: Protocolo de Sombra

A tampa do bueiro pesava uma tonelada. Gabo empurrou o metal enferrujado com o ombro, sentindo os músculos protestarem enquanto suas órteses mecânicas de perna gemiam sob o esforço, e o som de atrito ecoou como um grito abafado na rua deserta.

Quando ele emergiu, a primeira coisa que o atingiu não foi o frio, mas a ausência. Baía Cinzenta sempre fora uma cacofonia de luz e som — o zumbido constante dos anúncios holográficos, o chiado dos drones de vigilância, o pulsar do neon. Agora, havia apenas o som da chuva batendo no asfalto quebrado e o cheiro acre de fumaça de incêndios não controlados.

O cheiro o enjoou. Fumaça. Cinzas. Lembrava o cigarro barato que seu pai costumava acender antes de bater na mãe. O odor grudou no fundo da garganta de Gabo, trazendo uma onda de náusea que nada tinha a ver com a fome ou o cansaço. Era uma repulsa física, visceral, que retorcia seu estômago.

O Distrito 4 estava morto. Sem a "Voz" de Dante para coordenar a rede elétrica, os prédios eram monólitos negros recortados contra um céu cor de hematoma. A única iluminação vinha de fogueiras em latões de lixo e dos ocasionais faróis de veículos blindados patrulhando à distância.

Gabo ajustou o sobretudo, sentindo a umidade penetrar nas bandagens improvisadas sob a roupa. Ele tateou o bolso interno. Vazio. A ansiedade era uma coceira elétrica sob a pele, exigindo movimento, exigindo violência. Ele apertou o Colar de Sol até o metal morder a pele da palma. A dor física aguda era sua única âncora contra a alucinação olfativa e o caos mental. O colar queimava frio contra sua mão, lembrando-o de quem ele era. Não o filho do comissário corrupto. Não um refém do próprio trauma. Mas algo mais duro.

Missão. Rangel. Aria. Sobreviver.

Ele se moveu pelas sombras, evitando as avenidas principais. O caos já havia se instalado. Vitrines estilhaçadas vomitavam manequins e eletrodomésticos na calçada. Corpos — alguns recentes, vítimas do pânico inicial — jaziam ignorados nas sarjetas.

Gabo virou em um beco estreito atrás de uma lavanderia industrial. O cheiro de produtos químicos e sangue velho era forte ali, mascarando o odor insuportável de queimado da rua principal. Ele parou diante de uma porta de aço reforçada, marcada apenas com um símbolo de risco biológico pintado com spray vermelho.

Ele bateu. Três vezes. Pausa. Duas vezes.

Uma fresta se abriu no metal. Um olho cibernético, girando em foco vermelho, o analisou.

— Estamos fechados — uma voz metálica e distorcida soou. — Volte quando a energia voltar. Ou seja, nunca.

— Abra, Vasco — Gabo disse, a voz rouca. — Eu tenho crédito.

— Crédito da Aeterna? — Vasco riu, um som de estática. — Papel higiênico vale mais hoje em dia, detetive.

Gabo encostou a testa na porta fria.

— Não é crédito corporativo. É uma dívida antiga. O caso do Porto. Aquele carregamento de "olhos" que a polícia nunca encontrou.

Houve um silêncio. O mecanismo da porta destravou com um clank pesado.

O interior da clínica de Vasco era um pesadelo de esterilização falha. Mesas cirúrgicas manchadas, braços robóticos pendurados no teto como carcaças em um açougue, e prateleiras cheias de frascos com rótulos em kanji e cirílico. A única luz vinha de um gerador portátil barulhento no canto.

Vasco, um homem atarracado com metade do rosto substituído por uma placa de cerâmica barata, limpava uma serra óssea com um pano sujo. Ele segurava um charuto apagado entre os dentes de metal, mastigando-o nervosamente.

Gabo recuou um passo instintivamente, o estômago revirando.

— Tire essa merda da boca, Vasco.

O traficante olhou confuso, depois sorriu, revelando gengivas sintéticas.

— Está apagado, Moretti. Economizando para o fim do mundo. Você parece um cadáver. O que você quer?

— Antibióticos. Espectro total. E um kit de estabilização neural. Processadores série-K, se tiver.

Vasco assobiou.

— Pedido caro. Processadores neurais? Para quem? Aquele seu brinquedo de estimação?

Gabo ignorou a provocação e focou na negociação, tentando bloquear a visão do charuto úmido.

— O preço, Vasco.

O homem largou a serra e cruzou os braços mecânicos.

— A moeda mudou. Informação. O que aconteceu na Usina? Por que as luzes apagaram? Meus clientes estão nervosos. Dizem que a "Voz" calou.

— A Usina caiu — Gabo mentiu, omitindo os detalhes sobre Dante. — Sobrecarga. Vai demorar semanas para voltar. Quem tiver geradores e remédios vai ser rei.

Vasco ponderou, os olhos biônicos zumbindo.

— Certo. Leve o que precisar da prateleira três. Mas me deve uma. Se a segurança da Aeterna vier bater aqui, eu digo que você me roubou.

Gabo encheu uma mochila impermeável com os frascos e caixas de componentes eletrônicos. Ele sabia que "dever uma" a Vasco significava sangue futuro, mas Rangel não tinha tempo para negociações éticas.

— Feito.

Ele estava saindo quando o som de vidro quebrando veio da rua. Vozes. Gritos excitados.

— Merda — Vasco praguejou, apagando o gerador e mergulhando a loja na escuridão total. — Abutres. Eles sentem o cheiro de remédio.

Gabo sacou a Glock. Três balas. Ele checou a Caronte no coldre das costas. Dois cartuchos.

— Saída dos fundos? — Gabo sussurrou.

— Bloqueada — Vasco respondeu, pegando uma espingarda de cano serrado debaixo do balcão. — Vamos ter que dançar.

A porta da frente explodiu para dentro com o impacto de um pé de cabra. Três figuras entraram, lanternas táticas cortando a escuridão. Eles usavam máscaras de gás improvisadas e roupas cobertas de arame farpado. Lázaros.

Limpa tudo! — um deles gritou.

Gabo não hesitou. Ele não podia gastar munição. Ele esperou o primeiro passar pela entrada e avançou das sombras.

O cabo da Glock atingiu a têmpora do invasor com um crack seco. O homem caiu sem um som. Gabo girou, usando o corpo dele como escudo quando o segundo homem disparou uma pistola de pregos.

Tack-tack-tack. Os pregos atingiram o colete do homem caído.

Vasco disparou sua espingarda. O flash iluminou a sala como um relâmpago, revelando o caos. O tiro acertou o terceiro invasor no peito, jogando-o contra as prateleiras de vidro.

O segundo homem, em pânico, tentou recarregar. Gabo soltou o corpo inerte e avançou com um passo pesado de metal. Um chute com o peso morto de sua órtese de perna diretamente no joelho do atacante, estilhaçando a articulação, seguido de um soco descendente na nuca. Eficiente. Brutal. Silencioso.

O silêncio voltou à loja, agora pontuado pelos gemidos dos feridos.

— Você ainda é bom nisso — Vasco disse, ofegante, a fumaça da pólvora misturando-se ao cheiro de mofo.

Gabo pegou a mochila do chão. Ele olhou para os homens. Eram apenas desesperados. Como todos eles.

— Tranque a porta, Vasco. E reforce as dobradiças.

Gabo saiu para a chuva, o peso da mochila em um ombro e o peso da cidade no outro. Ele tinha os remédios. Tinha as peças. Agora, só precisava voltar para o buraco onde sua "família" quebrada o esperava, antes que a própria noite decidisse engoli-lo.

Lá fora, o ar estava limpo de fumaça por um momento. Ele respirou fundo, sentindo a chuva fria lavar o gosto amargo da memória de seu pai. O colar em sua mão já não doia tanto.