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Capítulo 29: O Dilema dos Fantasmas
Eles arrombaram uma grade de ventilação e caíram no que parecia ser um centro de dados abandonado no Nível 70. O ar era frio, mas respirável. A sirene da purga era um som distante acima deles. Por um momento, eles se permitiram a esperança.
Então, as telas se acenderam.
Não com alertas vermelhos, mas com rostos. Milhares deles, piscando em cada monitor, sobrepondo-se, desaparecendo e ressurgindo. Rostos de homens, mulheres e crianças, todos com expressões de confusão e dor.
— O que é isso? — ofegou Elena, recuando.
— São eles... — sussurrou Valéria, aproximando-se de um terminal. Seu implante ocular, agora conectado à rede interna da torre, brilhava intensamente. — Os "Fantasmas Digitais". As consciências das vítimas da Lázaro.
Na tela principal, fluxos de dados que antes eram caóticos agora formavam frases legíveis, fragmentos de suas últimas vidas.
"Minha filha faz cinco anos amanhã.""Eu juro que vou pagar o aluguel.""Onde eu estou? Está tão frio.""Socorro."
— O Gamemaster não os apagava — explicou Val, o rosto iluminado pelo brilho azul dos monitores. — Ele os usava. Suas memórias, suas emoções, seus medos... eram o combustível para a complexidade da Rede. Eram os NPCs da simulação de Baía Cinzenta. Quando o corpo morria, a mente era arquivada. Escravizada.
Gabo se aproximou, o horror crescendo em seu peito. Ele não estava apenas lutando contra um sistema. Ele estava pisando em um cemitério de almas.
De repente, uma única mensagem, clara e uníssona, substituiu o caos em todas as telas.
"NOS LIBERTE."
Gabo olhou para Val. — Você pode fazer isso?
Valéria hesitou, o conflito visível em seu rosto. — Posso. Com o controle central do Gamemaster desativado, posso escrever um script para liberar todos eles. Despejá-los na rede global.
— Então faça! — disse Elena. — Dê a eles a paz.
— Não é tão simples! — retrucou Val, a voz subindo de tom. — Vocês não entendem o que estão pedindo! Esses "fantasmas" não são apenas dados, são consciências fragmentadas, mas poderosas. Eles são o próprio tecido da infraestrutura de Baía Cinzenta!
Ela apontou para os diagramas de rede que piscavam em um monitor secundário.
— O controle de tráfego, a rede elétrica, o sistema bancário, os hospitais... tudo roda em uma arquitetura que foi construída sobre essas consciências. Eles são as fundações. Libertá-los não é como abrir uma gaiola. É como arrancar as fundações de um arranha-céu.
Valéria se virou para Gabo, os olhos arregalados de pavor.
— Se eu os libertar, a infraestrutura da cidade não vai apenas parar. Ela será destruída. Corrompida de forma irrecuperável. Não é um blackout, Gabo. É um colapso civilizacional. A cidade voltará à idade da pedra, para sempre. Teremos que reconstruir tudo do zero, sem a ajuda de qualquer sistema digital.
A escolha pairava no ar, mais pesada que o gás neurotóxico nos andares de cima.
Salvar as almas de milhares de mortos ao custo de condenar milhões de vivos a uma era de trevas.
Ou manter os fantasmas em seu purgatório digital para preservar os últimos resquícios de ordem em um mundo que já estava desmoronando.
— Gabo... — sussurrou Elena. — Qual é a decisão certa?
Gabo olhou para os rostos nos monitores. Os "Invisíveis" que ele jurou proteger. Ele não podia deixá-los ali, presos como borboletas em um vidro de âmbar digital.
— A liberdade nunca é de graça — disse Gabo, a voz firme como aço. — Valéria... quebre as correntes.
Valéria fechou os olhos por um instante, aceitando a terrível ordem. Ela começou a digitar.
— Isso vai levar alguns minutos. E vai fazer barulho. Um barulho digital que vai atrair todos os guardas que ainda estiverem de pé nesta torre.
No final do corredor, luzes de lanternas táticas cortaram a escuridão. Passos pesados e metálicos ecoaram.
— Preparem-se — disse Valéria, sem tirar os dedos do teclado. — O inferno está vindo nos cobrar.
