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Capítulo 190: O Relicário de Silício

A escuridão do Núcleo do Arquivo Executivo não era o breu absoluto que esperávamos. O recinto massivo, originalmente planejado como uma catedral de servidores limpos, banhados a temperaturas subzero, era agora um abatedouro. Um brilho febril, da cor de carne esfolada sob neon defeituoso, pulsava das entranhas dos corredores centrais. O frio original fora devorado por uma umidade asfixiante que condensava nas paredes em gotas pesadas e sujas.

A arquitetura do "Jardim" atingia ali o seu zênite nauseante. Não havia mais divisão entre o maquinário e o orgânico. Os servidores gigantescos, responsáveis por armazenar o espólio digital de Baía Cinzenta e as mentes digitalizadas dos magnatas originais da Aeterna, haviam sido consumidos. Fileiras de cabos ópticos estavam envoltas em bainhas de tecido vascular e pus endurecido. Mas o pior não era isso.

Eram os doadores.

Suspensos entre as colunas dos data-centers, fundidos ao metal como relíquias profanas, estavam os corpos. Centenas deles. Mendigos, saqueadores de baixo nível, sintéticos descartados. Todos engolidos e mantidos em estado vegetativo de processamento cerebral contínuo para fornecer energia térmica e neuro-computação extra.

Dei um passo para dentro do salão. A fuligem biológica que preenchia o ar era densa e ácida, queimando meus olhos e a parte de trás do meu palato.

E então, o cheiro de cinza molhada transmutou.

Meu cérebro corrompido processou a podridão química como uma tragada densa do charuto barato do meu pai. O peso invisível do trauma me abateu instantaneamente. Senti as mãos calejadas e imaginárias de Dante agarrando minha garganta. O cheiro me asfixiava, fechando meus pulmões enquanto a sala enorme parecia girar, esmagando-se ao meu redor em formato de confinamento e cinismo. O pânico subiu, a fumaça ilusória tapando minha visão periférica, transformando a matriz biológica em fogueiras escuras.

Caí de joelhos contra a grade metálica do piso. Meus pulmões arranhavam o nada, engasgando no ar contaminado.

— Frequência cardíaca subindo além da margem de segurança. Níveis de cortisol indicativos de choque induzido, — a voz gélida de Valéria quebrou o silêncio fúnebre do salão, ignorando as centenas de cadáveres trançados aos servidores. Ela não demonstrou aversão. Seu Modo de Segurança calculou apenas o volume de informações fluindo pelo salão. — Estima-se que a infraestrutura esteja decodificando terabytes de dados biológicos por segundo usando a atividade neural parasítica.

Eu não conseguia responder. Estava afundando.

Desesperado, agarrei os cabos frouxos que saíam do ombro da minha prótese industrial avariada. Os fios expostos estalavam em estática verde e laranja após a luta anterior. Precisava de uma âncora. Precisava rasgar a névoa do meu pai. Sem hesitar, pressionei a fiação desencapada e ruidosa diretamente contra as placas de metal expostas no meu próprio peito e nas cicatrizes da instalação grosseira do meu braço direito.

A descarga elétrica foi brutal. Um arco de pura agonia de duzentos e vinte volts explodiu dentro da minha carne, torcendo minha espinha em um arco espasmódico. O cheiro de carne queimada e ozônio autêntico encobriu totalmente qualquer fumaça de charuto irreal. O choque reiniciou meu sistema nervoso à força, esmagando o gatilho da fobia de asfixia sob uma avalanche de dor tangível e abrasadora.

Soltei um grito dilacerado e rolei para o lado, cuspindo uma bolha de sangue quente.

— A autoeletrocussão danificou seus nós neurais periféricos de maneira irreversível, — avaliou Valéria. Ela andou até o servidor mestre no centro da sala, pisando sobre um emaranhado de vasos sanguíneos enxertados sem quebrar o passo. — É um comportamento letal e irracional.

— Irracional é ficar assistindo essa merda continuar a existir, — engasguei, me pondo de pé, as pernas mecânicas protestando de exaustão e curtos-circuitos esparsos ainda faiscando sobre meu ombro. A dor mantinha o mundo focado. Eu respirava ar sujo, mas respirava.

Caminhei até onde Valéria estava. Ela passava os dedos por uma interface manchada de lodo. As linhas de código que passavam no terminal eram dezenas de consciências engarrafadas do velho mundo sendo torturadas em loop pelo Jardim para reescrever senhas e protocolos operacionais mortos.

— Eles não estão apenas tentando sobreviver. O Jardim quer a cidade. Eles querem usar esses servidores para se conectar à grade urbana, transformar a chuva e os dutos na mesma imundície que tá aqui embaixo, — murmurei, apoiando a pesada prótese metálica sobre o console principal de acesso, rangendo os dentes contra a dor persistente.

— Correto, — confirmou Valéria, de forma estéril. — O núcleo central comanda as sub-rotinas de expansão radicular da cidade. A eliminação da rede local encerraria a capacidade do organismo cibernético de replicação central. No entanto, os protocolos lógicos indicam que não possuímos arsenal explosivo ou bélico para dano em massa. Ações de expurgo direto falharão estatisticamente.

Olhei para a fileira interminável de pilares de servidores fundidos a cadáveres. Os tubos de lodo vital e refrigerante químico corriam paralelos aos cabos de força primários nas bases de contenção de concreto, espalhados como artérias expostas. Era frágil. Se eu conseguisse destruir a fundação térmica, tudo derreteria sob o próprio peso do sobreaquecimento.

— Foda-se a estatística, — minha voz saiu arranhada, um rosnado sujo impulsionado pela fúria de tudo o que eu tinha perdido, da dor que latejava no lugar do meu braço. Girei a engrenagem descalibrada da minha prótese, sentindo o óleo e o sangue se misturarem. — Nós viemos pra cá pra acabar com isso. Eu não vou deixar que essa coisa use Baía Cinzenta como um viveiro.

Levantei a pesada prótese e mirei na primeira válvula mestra de contenção biológica ancorada no pilar central do servidor.

— Hora de podar esse jardim.