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Metadados

  • Título: Peso da Carne
  • Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
  • Localização: Necrópole (Túneis de Manutenção Profunda)
  • Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente)
  • Resumo: O grupo atravessa os túneis opressivos da Necrópole carregando o corpo inconsciente de Rangel. O peso físico da jornada é ampliado pelo peso psicológico da nova personalidade de Aria, cuja lógica fria entra em conflito constante com a humanidade exausta de Gabo e Valéria.

Narrativa

Capítulo 136: Peso da Carne

O ar nos túneis de manutenção da Necrópole não era apenas viciado; ele tinha textura. Era uma sopa fria de metano, ferrugem e o cheiro adocicado de esgoto antigo que cobria a garganta como um filme de óleo.

Gabo grunhiu, ajustando a pegada nas botas de Rangel. O couro estava escorregadio de sangue seco e umidade. A cada passo, o peso do inspetor inconsciente puxava os ombros de Gabo para baixo, enviando choques elétricos através de suas costelas fraturadas.

— Ritmo cardíaco do Ativo Líder elevado — a voz de Aria cortou a escuridão, monótona e limpa, destoando da sujeira ao redor. Ela carregava a cabeceira da maca improvisada, sustentando o torso pesado de Rangel sem o menor sinal de esforço. Seus passos eram silenciosos, perfeitos. — Sugiro uma pausa de 180 segundos para evitar colapso muscular.

— Eu estou bem — Gabo mentiu, trincando os dentes.

Ele não estava bem. O ombro latejava em sincronia com seu pulso. A vontade de fumar era uma coceira violenta na base do crânio, um desejo de preencher os pulmões com algo quente e tóxico para queimar o gosto de morte da boca.

Gabo soltou uma das mãos da maca por um segundo e pressionou o "Colar de Sol" contra o esterno. O metal frio mordeu a pele, uma dor aguda e focalizada. Isso é real, ele pensou. O cigarro é fumaça. A dor é âncora.

— A negação da fadiga é um traço ineficiente da biologia humana — Aria continuou, sem diminuir o passo. — Aumenta a probabilidade de erro em 34%.

— Aria, cala a boca — Valéria sibilou. Ela caminhava ao lado deles, a luz de sua lanterna varrendo as paredes cobertas de limo e cabos roídos. — Você não está ajudando.

— Minha função não é oferecer conforto, Valéria. É garantir o sucesso da missão. O silêncio tático seria preferível, mas os ruídos respiratórios de Gabriel já comprometeram nossa furtividade em 70%.

Valéria parou, iluminando o rosto de Aria. As lentes brancas que substituíam os olhos da menina brilharam na escuridão, devolvendo o feixe de luz sem emoção.

— O que aconteceu com você? — Valéria perguntou, a voz embargada. — Eu deletei a Bia... mas eu não queria apagar você. Onde está a curiosidade? Onde está... a garota que salvou a gente no porto?

Aria inclinou a cabeça, processando a pergunta como se fosse um erro de sintaxe.

— A iteração anterior possuía falhas lógicas decorrentes de conflitos de memória. A curiosidade sem propósito é desperdício de processamento. A empatia é um viés que atrasa a tomada de decisão. Eu fui otimizada. Você deveria estar satisfeita. O reparo foi bem-sucedido.

Valéria recuou como se tivesse levado um tapa. Gabo sentiu um nó no estômago, mas não disse nada. Ele sabia que discutir com a máquina era inútil. A Aria que eles conheciam, aquela mistura confusa e perigosa de IA e fantasma, tinha morrido na cadeira do Taxidermista. O que restava era uma arma. E, no momento, eles precisavam de uma arma.

Eles continuaram. O túnel começou a inclinar para baixo, tornando a descida traiçoeira. O chão estava coberto por uma camada de lodo preto que tornava cada passo uma aposta.

— Cuidado — Gabo avisou, sentindo o pé escorregar. — Se o Rangel cair, ele abre os pontos.

— Detecto uma obstrução à frente — Aria anunciou.

Dez metros adiante, o túnel terminava em um poço vertical de manutenção. A escada de ferro que deveria estar ali havia apodrecido e caído, deixando apenas tocos de metal enferrujado na parede. O poço descia por cerca de cinco metros até uma plataforma inferior inundada.

Gabo olhou para baixo, iluminando o buraco. A água lá embaixo era negra e imóvel.

— Como vamos descer o Rangel? — ele perguntou, medindo a distância. — Não dá para pular com a maca.

Aria soltou a maca, deixando o peso cair nas mãos de Gabo, que praguejou com o esforço repentino. Ela caminhou até a beira do poço e escaneou a estrutura.

— A integridade das paredes é de 60%. Pontos de ancoragem viáveis identificados.

Ela se virou para eles.

— Eu posso descer sozinha. Em seguida, vocês jogam o corpo do Sujeito Rangel. Eu calcularei a trajetória e amortecerei a queda.

Gabo e Valéria se entreolharam, horrorizados.

— "Jogar o corpo"? — Valéria repetiu, incrédula. — Ele não é um saco de batatas, Aria! Ele tem hemorragia interna! O impacto pode matá-lo!

— A probabilidade de ruptura das suturas com o impacto calculado é de 22% — Aria respondeu friamente. — A probabilidade de falha se tentarmos descer com cordas improvisadas, dada a fadiga de Gabriel, é de 48%. A lógica dita o menor risco.

— Não — Gabo disse, a voz rouca. — Ninguém vai jogar ninguém.

Ele olhou ao redor, buscando alternativas. Seus olhos pousaram em um conjunto de tubulações de PVC reforçado que corriam pelo teto.

— Val, me dá seu cinto. E o do Rangel.

— O que você vai fazer? — Valéria perguntou, já desfazendo a fivela.

— Vamos fazer um sistema de polias. Aria, você desce primeiro. Mas não para pegar ele no ar. Você vai guiar a maca enquanto eu e a Val descemos ela devagar usando os tubos como freio.

Aria olhou para os tubos, depois para Gabo.

— A resistência do PVC é questionável para essa carga dinâmica.

— É PVC industrial classe 5 — Gabo retrucou, lembrando-se das obras superfaturadas da prefeitura que ele investigara anos atrás. — Aguenta a pressão. Vai logo.

Aria não discutiu. Ela saltou no poço, caindo os cinco metros com um baque surdo e controlado, seus servomotores absorvendo o impacto.

— Posição assumida — a voz dela ecoou lá de baixo.

Gabo e Valéria amarraram os cintos, passando-os pelas alças da maca e laçando o tubo no teto. O atrito do couro no plástico rangeu quando eles começaram a baixar Rangel.

O peso era brutal. Gabo sentiu os músculos das costas gritarem. O suor escorria em seus olhos, ardendo. Ele cerrou os dentes, focando na dor do colar pressionado contra o peito pela tensão muscular. Aguenta. Só mais um pouco.

— Devagar, Val — ele grunhiu. — Não deixa o cinto correr.

Lá embaixo, Aria segurava a maca com as mãos levantadas, mantendo-a nivelada com uma precisão mecânica enquanto ela descia.

Quando finalmente a maca tocou o chão úmido, Gabo soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. Ele se encostou na parede, tremendo de exaustão, as pernas mecânicas rangendo pelo esforço.

— Conseguimos — Valéria sussurrou, limpando o suor da testa.

Gabo desceu pela parede, escorregando até o chão para recuperar o fôlego antes de encarar a descida. Ele olhou para suas mãos. Estavam tremendo. Não de medo, mas pelo pânico residual e o cansaço. A fobia batia contra seu peito, uma lembrança sufocante de charuto e asfixia pronta para engolfá-lo.

Não.

Ele fechou o punho sobre o colar. A dor aguda das pontas de metal perfurando a pele da palma da mão foi um choque de realidade. Eu sou mais forte que o trauma. Eu sou mais forte que a alucinação.

— Movimento detectado no setor norte — Aria avisou lá de baixo.

Gabo levantou a cabeça, o instinto policial acendendo instantaneamente através da exaustão.

— O quê?

— Assinaturas térmicas múltiplas. Pequenas. Rápidas. — Aria fez uma pausa. — E uma assinatura maior. Imóvel. Esperando.

Gabo olhou para Valéria.

— Vamos descer. Agora.

Enquanto descia pelos restos enferrujados da parede, Gabo percebeu que o cheiro no ar havia mudado. O fedor de esgoto tinha diminuído, substituído por algo mais doce, mais enjoativo.

Cheiro de formol.

Eles não estavam apenas fugindo. Eles estavam entrando no santuário.