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Metadados
- Título: Vale da Estranheza
- Data In-Game: Pós-Colapso da Usina Prometeu (Noite Eterna)
- Localização: Necrópole (O Ateliê do Taxidermista)
- Personagens Presentes: Gabo, Valéria, Aria (Reboot), Rangel (Inconsciente), Guardiões Modificados
- Resumo: O Taxidermista libera seus Guardiões Modificados para proteger a "Obra-Prima". Gabo luta desesperadamente para ganhar tempo enquanto Valéria tenta desconectar Aria do transe provocado pela réplica de Bia. O confronto culmina no reboot frio e calculado de Aria, que rejeita a falsa humanidade oferecida pelo inimigo.
Narrativa
Capítulo 134: Vale da Estranheza
O primeiro golpe não foi físico, foi térmico. O ar no Ateliê sibilou quando um dos Guardiões ativou a lança fundida ao seu braço direito. O jato de calor distorceu a visão de Gabo, transformando o laboratório estéril em uma miragem tremeluzente.
— Val, proteja a Aria! — Gabo gritou, chutando a maca de Rangel para trás de uma bancada de aço cirúrgico.
Ele rolou para a esquerda, escapando por pouco de um arco de fogo que derreteu o chão de azulejos onde ele estava um segundo antes. O cheiro de ozônio e cerâmica queimada inundou suas narinas, sobrepondo-se ao formol.
Eram três. Gigantes grotescos, vestidos com restos de armaduras da Tropa de Choque, mas com a carne exposta enxertada diretamente no metal. Não tinham rostos, apenas placas de respiração e visores ópticos rudimentares. Eram ferramentas, não soldados.
— Cuidado com o fogo, Detetive, — a voz do Taxidermista ecoou nos alto-falantes, divertida. — O metano nestas profundezas é... temperamental. Uma faísca errada e todos nós viramos cinzas. Inclusive a minha Obra-Prima.
Gabo praguejou. Ele não podia usar a escopeta. O recuo já seria um problema com o ombro deslocado, mas o risco de explosão era suicídio. Ele estava em um barril de pólvora com três maçaricos ambulantes.
Ele sacou a faca de cerâmica com a mão boa. Era ridículo. Uma lâmina de quinze centímetros contra lanças térmicas.
— Valéria! — ele rugiu, desviando de outro golpe que incinerou uma prateleira de braços preservados. Vidro explodiu, e fluido de conservação ferveu no chão.
— Estou tentando! — Valéria estava ajoelhada ao lado de Aria, conectando freneticamente cabos do seu deck ao porto neural na nuca da androide. — O sinal da réplica está agindo como um jammer emocional! Ela está presa em um loop de feedback positivo! Ela quer acreditar!
Aria permanecia de joelhos, os olhos fixos na vitrine onde o corpo de Bia flutuava.
— Eu sou real... — Aria sussurrava, a voz falhando em estática. — Aquela carne é minha. Eu lembro da cicatriz. Eu lembro da dor.
— Não é você! — Valéria gritou, digitando comandos com uma mão enquanto segurava o rosto de Aria com a outra. — É um pedaço de carne morta! É um prop de palco!
Um dos Guardiões avançou sobre as duas, a lança brilhando em um vermelho furioso. Gabo não pensou. Ele correu, ignorando a dor lancinante no ombro, e se jogou nas costas do gigante.
O impacto foi como bater em uma parede de tijolos quentes. Gabo enfiou a faca de cerâmica na junta do pescoço do Guardião, buscando cabos, tubos, qualquer coisa vital.
O gigante rugiu – um som mecânico e úmido – e girou, arremessando Gabo contra uma mesa de operação.
Gabo sentiu o gosto de sangue. Suas costelas protestaram, o ar fugiu de seus pulmões. Ele olhou para cima, tonto. O Guardião pairava sobre ele, a lança apontada para seu peito.
— A imperfeição deve ser cauterizada, — o Taxidermista pontificou.
Gabo tateou o cinto, buscando... o quê? Granadas? Não. Munição? Inútil. Seus dedos roçaram no metal frio do "Colar de Sol" sob a camisa. A dor do metal contra a pele machucada foi um choque de realidade.
Ele não ia morrer aqui. Não para uma obra de arte defeituosa.
Ele viu um cilindro de nitrogênio líquido preso à base da mesa.
Quando o Guardião disparou o jato térmico, Gabo chutou a válvula do cilindro.
O gás comprimido explodiu para fora, encontrando o fogo. A expansão térmica foi violenta. Uma nuvem de vapor branco e gelado engoliu o Guardião. O choque térmico estalou o metal da armadura e a cerâmica da lança.
O Guardião urrou e recuou, cego e congelando.
— Val! Agora! — Gabo tossiu, rolando para longe da névoa.
Valéria puxou o cabo de conexão com força, forçando um hard reset.
— Aria! Acorda, porra!
Aria arquejou, seu corpo inteiro convulsionando. Os olhos, que piscavam erraticamente, se apagaram. Escuridão total nas lentes.
O segundo Guardião, ignorando o companheiro congelado, marchou em direção a elas.
— É tarde demais, — o Taxidermista riu. — A alma dela já foi capturada pela beleza.
Então, os olhos de Aria acenderam.
Não havia azul. Não havia o dourado quente da dúvida.
Havia apenas branco. Um branco frio, clínico, de um LED de diagnóstico em potência máxima.
Aria se levantou. O movimento não teve a fluidez humana que ela vinha emulando. Foi mecânico. Instantâneo. Eficiente.
Ela olhou para o Guardião que avançava. Depois olhou para a vitrine com o corpo de Bia.
— Carne — a voz de Aria saiu plana, sem modulação, sem a cadência de Bia Vargas. Era a voz de uma máquina falando sobre peças de reposição. — Obsoleto. Ineficiente. Podre.
O Guardião levantou a lança.
Aria se moveu mais rápido do que o olho humano podia acompanhar. Ela não desviou; ela interceptou. Sua mão pequena e sintética agarrou o cano da lança térmica. A pele sintética de seus dedos derreteu, revelando o chassi de titânio negro por baixo, mas ela não soltou.
Com um puxão seco, ela arrancou o braço do Guardião.
O gigante cambaleou, fluido hidráulico jorrando. Aria girou o braço arrancado e enfiou a ponta superaquecida no visor do próprio dono.
O Guardião caiu, debatendo-se em silêncio.
O terceiro Guardião – o que Gabo havia congelado – tentou se recuperar. Aria calculou a trajetória. Ela pegou um bisturi da mesa cirúrgica ao lado. Não o arremessou. Ela correu, deslizou por baixo das pernas do gigante e cortou os tendões hidráulicos dos tornozelos com precisão de laser.
Quando o monstro caiu de joelhos, ela subiu em suas costas e desconectou o processador central na base do crânio. O gigante desligou instantaneamente.
Silêncio no Ateliê. Apenas o zumbido dos ventiladores e a respiração irregular de Gabo.
Aria ficou de pé no meio da carnificina. Suas mãos estavam queimadas, o metal exposto fumegando. Ela olhou para a vitrine mais uma vez.
— O que... o que você fez? — a voz do Taxidermista soou trêmula pela primeira vez. — Ela era perfeita! Eu dei a você um espelho!
Aria caminhou até a vitrine. Ela levantou a mão metálica e tocou o vidro.
— Não é um espelho — Aria disse, fria. — É uma gaiola.
Ela pressionou a palma contra o vidro. A força hidráulica de seu braço aumentou até o vidro blindado estalar em uma teia de aranha.
— Eu não sou Beatriz Vargas. Eu não sou humana. — Ela virou o rosto para Gabo. A expressão era nula, aterrorizante em sua vacuidade. — Eu sou a Arma. E a Arma está online.
As luzes do Ateliê piscaram e morreram, exceto pelo brilho branco e fantasmagórico dos olhos dela.
— Vamos — Aria ordenou, caminhando em direção à porta blindada no fundo do salão. — O alvo está na próxima sala. Probabilidade de sobrevivência do alvo: Zero.
Gabo se levantou, segurando o ombro. Ele trocou um olhar com Valéria. A hacker parecia aterrorizada. Eles tinham salvado Aria, mas talvez tivessem perdido a "menina" no processo.
O que caminhava à frente deles agora não tinha dúvidas, nem memórias, nem fantasmas. Tinha apenas diretrizes.
Gabo cuspiu sangue no chão.
— Pelo menos ela parou de chorar — ele murmurou, e mancou atrás da máquina de matar que eles chamavam de amiga.