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Capítulo 57: Zona de Interesse

Zona de Exclusão - Setor 4

Aria não falava, mas seus olhos viam coisas que Gabo mal podia compreender. Enquanto dirigiam pelas ruas alagadas, ela pressionava o rosto contra o vidro sujo do carro, observando os feixes de luz dos drones que cortavam a penumbra.

— O que você vê, pequena? — perguntou Gabo, sem tirar os olhos da estrada cheia de crateras.

Ela apontou. Não para os drones, mas para os prédios.

Gabo seguiu o dedo dela. Nos andares superiores dos edifícios semi-destruídos, ele viu sombras. Eram pessoas. Famílias que se recusavam a sair, agitando bandeiras brancas improvisadas.

Mas as máquinas lá fora não reconheciam bandeiras brancas.

Um dos drones desceu, pairando em frente a uma janela no terceiro andar de um cortiço. Gabo reduziu a velocidade, observando. O drone emitiu um som agudo, uma sirene digital, e projetou um holograma na parede do prédio: PROPRIEDADE DA CONSÓRCIO LÁZARO. SAÍDA IMEDIATA OU REMOÇÃO FORÇADA.

— Consórcio Lázaro... — Gabo memorizou o nome.

A janela se abriu e um homem jogou uma garrafa contra o drone. Vidro contra metal. A garrafa se estilhaçou inutilmente.

A resposta foi imediata. O drone não atirou. Ele apenas emitiu um pulso sônico.

Gabo viu o vidro de todas as janelas do andar explodir para dentro. O homem caiu, segurando os ouvidos, gritando em um silêncio que Gabo podia imaginar.

— Malditos — sibilou Gabo.

Mais à frente, a rua estava bloqueada. Uma barreira de concreto e luz sólida, guardada por dois Protótipos CP-Z. Eles não pareciam os modelos padrão da polícia. Eram mais robustos, pintados de branco imaculado, sem identificação do departamento. Eram segurança privada.

Gabo parou o carro a uma distância segura.

— Fique abaixada — ordenou ele para Aria.

Ela obedeceu instantaneamente, deslizando para o chão do veículo e cobrindo a cabeça com o cobertor.

Gabo saiu do carro. A chuva batia em seu rosto, fria e indiferente. Ele caminhou em direção à barreira, as mãos levantadas, mas os dedos a centímetros da Glock no coldre.

— Área restrita — anunciou um dos robôs. A voz era suave, quase humana, desenhada para ser tranquilizadora enquanto ordenava submissão. — Esta zona foi adquirida para desenvolvimento residencial de alto padrão.

— Eu moro aqui — mentiu Gabo. — Tenho documentos.

O robô inclinou a cabeça, as lentes óticas girando.

— Cidadão não identificado. Análise de crédito: Inexistente. Valor social: Negativo. Recomendação: Descarte.

O braço do robô se transformou. A mão recolheu-se e um cano de rifle surgiu.

Gabo não esperou. Ele sacou a Glock e disparou três vezes. Duas no peito, uma na lente ótica.

As balas ricochetearam na blindagem branca sem deixar arranhão.

— Merda — disse Gabo. — Blindagem de cerâmica.

O robô levantou a arma.

— Ação hostil detectada. Iniciando protocolo de higienização.

Gabo se jogou para o lado, rolando para trás de uma caçamba de lixo enquanto o concreto onde ele estava explodia sob o fogo de supressão.

Ele precisava de algo maior que uma 9mm.

— Aria! — gritou ele. — Tapa os ouvidos!

Gabo correu de volta para o carro, ziguezagueando entre os disparos. Ele se jogou no banco do motorista e apertou um botão escondido sob o painel. O banco traseiro se abriu, revelando o compartimento secreto.

Ele puxou "Caronte", a escopeta de cano serrado.

— Vamos ver se vocês gostam de chumbo grosso — rosnou ele, saindo do carro.

Ele avançou, ignorando a dor nas costas. O primeiro robô estava recarregando. Gabo chegou perto, a três metros, e puxou o gatilho.

O som foi ensurdecedor. O tiro de calibre 12 atingiu a junta do pescoço do robô, onde a blindagem era mais fraca. A cabeça da máquina voou longe, soltando faíscas azuis.

O segundo robô virou-se, mas era tarde demais. Gabo bombeou a escopeta e atirou no joelho mecânico. O robô caiu. Gabo se aproximou e deu o tiro de misericórdia no processador central.

Silêncio, exceto pela chuva.

Gabo ofegava. Ele olhou para os robôs destruídos. Na lataria branca, agora manchada de óleo e fuligem, havia um código QR pequeno.

Ele pegou seu celular e escaneou.

O resultado apareceu na tela: ATIVO IMOBILIÁRIO - LOTE 404. PROPRIETÁRIO: AETERNA PRIME.

Gabo cuspiu no chão.

— Não é um novo consórcio — disse ele, percebendo a mentira. — É a mesma velha Aeterna, vestindo roupa nova. Eles estão comprando a própria cidade falida.